“Novo trabalho da escritora e diretora teatral Adelice Souza
é um romance assumido em sua atmosfera impregnada de juventude.”
Por Marcos Uzel*
Reconhecida nacionalmente como uma das escritoras mais
prestigiadas de sua geração, a baiana
Adelice
Souza, 38 anos, lançou em abril último, em Salvador, o seu primeiro romance
“O
Homem que Sabia a Hora de Morrer” (Editora Escrituras). Esta é a quarta
publicação individual da autora, que assina os livros de contos
“As Camas
e os Cães”, de 2001 (Prêmio Copene de Literatura e Prêmio José
Alejandro Cabassa/União Brasileira de Escritores - RJ);
“Caramujos Zumbis”, de
2003 (Prêmio Banco Capital, obra que, ainda este ano, será reeditada) e
“Para
uma Certa Nina”, de 2009 (inaugurando o projeto “Cartas Baianas”).
Adelice também se destacou como a única representante da Bahia na coletânea
nacional de contos 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira
(2005), organizada pelo escritor e jornalista
Luiz Ruffato.
Agraciado com a Bolsa de Criação Funarte (2008) e com o
edital de Apoio à Edição de Livros de Autores Baianos da Fundação Pedro Calmon
(2009), o romance “O Homem que Sabia a Hora
de Morrer” vem acompanhado de um comentário entusiasmado do escritor mineiro
Affonso Romano de Sant’Anna, que sublinha
na orelha da obra: “Gosto desse jeito de
contar as coisas que a Adelice tem. Parece que está narrando algo junto ao
fogão de lenha numa fazenda do interior, mas ao mesmo tempo está tratando de
algo perturbador e fascinante. Imaginem: ela fala de um personagem que,
audaciosamente, sabia o dia de sua morte”.
O livro conta a história de uma neta que tenta compreender e
desvendar o mistério de um avô que sabe a hora exata em que vai morrer. Isso,
para ela, é algo extremamente revelador – e encantador. Durante todo o tempo, a
narração da autora busca se aproximar do espírito da jovem neta tão fascinada
por esse homem velho dotado de uma sabedoria popular ancestral, o que acaba por
caracterizar o conteúdo narrado como uma ode ao antigo, impregnado de
simplicidade. “Quem já ouviu falar de uma
história dessas nos dias de hoje e que era tão comum há 100 anos? Não é nenhuma
coisa mágica, do outro mundo. É, sim, um sentimento de se perceber mais, porque
está mais em contato consigo. Talvez seja isso que desperte na neta esse
encantamento: entender o mistério desse avô, que nada mais é do que um homem
que está em contato íntimo com a sua própria natureza”, enfatiza Adelice.
É um romance assumido em sua atmosfera impregnada de
juventude. Durante quase dez anos, a autora ministrou aulas de teatro e
dramaturgia para jovens no Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, praticamente no
mesmo período em que iniciou a escrita desta obra. Para eles, adaptou e dirigiu
a “Odisséia”,
de Homero, um dos principais poemas
da Grécia Antiga. “Esse era o espírito
jovem que estava em mim, na época. Não, este livro não é memorialista, é um
brinquedo, como um jogo de cartas, onde todas as lembranças e invenções estão
misturadas num mesmo caldeirão”, enfatiza a autora no posfácio da obra. A
jovialidade do romance se reverteu em profunda alegria no momento em que Adelice pôs o
ponto final: “Quando eu terminei de
escrever, saí cantando pela casa. Liguei para os meus pais chorando de
felicidade. Era um presente para eles”.
A história nesse romance beira o fabuloso. Ao mesmo tempo em
que a neta narra fatos concretos, falando um pouco da vida do avô para que o
leitor compreenda o universo em que vive o personagem, ela também fabula porque
tem a mente fantasiosa própria de uma pessoa muito jovem. “Essa narrativa da menina encantada com o avô se mistura, no final, com
a história de Odisseu e com as tradições baianas que apagam os limites entre a
vida e a morte”, enfatiza Affonso Romano de Sant’Anna. A neta não deixa de
ser o alterego de Adelice, que está sempre colocando muito de si nas coisas que
escreve. Desta vez, ela mistura referências culturais e afetivas de sua cidade
natal (Castro Alves, no interior da Bahia) a historias que ouviu do avô e do
pai. E dimensiona: “Este livro é isso:
uma forma de dançar, de brincar. Foi a coisa que me deu mais alegria de fazer
em toda a minha vida”.
Adelice Souza também construiu uma carreira como diretora
teatral e, atualmente, cursa Dramaturgia e Yoga no Doutorado do Programa de
Pós-Graduação em Artes
Cênicas da Universidade Federal da Bahia. Em 2005, ela
escreveu e dirigiu a peça “Fogo Possesso”, levando ao palco o
seu olhar para os personagens Salomé,
Prometeu, João Batista e Deus.
No repertório constam ainda a direção dos espetáculos “A Balsa dos Mortos”
(1998), “De Alma Lavada” (1999), “Na Solidão dos Campos de Algodão”
(que lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Braskem de Teatro na categoria melhor
diretora, em 2003) e “Jeremias, O profeta da chuva”
(2009), de sua autoria. (“O HOMEM QUE SABIA A HORA DE MORRER”, de Adelice Souza,
romance, Editora Escrituras – 2012)
+ Contato com a autora: (71) 9941-4901 ou (71) 3329-7410