segunda-feira, 2 de novembro de 2009

ANTES QUE ANOITEÇA

"O livro aborda a política, a violência, a Revolução, o amor à literatura, a detenção, a fuga, a captura, a prostituição de uma juventude sem futuro e todas as loucuras cometidas naquele período (e que ainda são cometidas) contra o povo cubano."
Para chegarem ao poder, aspirantes a ditadores podem escolher dois caminhos: usar a força ou se eleger em eleições democráticas. Para tornarem perene sua tirania, no entanto, devem saber manipular os objetivos e a visão de mundo do seu próprio povo. Hitler, Stalin, Mão Tsé-tung, Fidel, Manuel Noriega, Evo Morales e Chávez (“Cala a boca Chávez!”) ilustram bem essa categoria.
Fidel Castro, por exemplo, tentou exportar sua revolução, mas carecia de recursos para impô-la a povos que, como os bolivianos de então, rejeitavam as ditaduras comunistas. Aqui no Brasil, como não posso acusar ninguém de ser ditador com o eminente perigo de ser processado, então venho lembrar do escândalo do dossiê que caiu na pizza, do Congresso que substituiu um senador para garantir a aprovação da CPMF e do Conselho de Ética (i-n-e-f-i-c-i-e-n-t-e) que aprovou aquele relatório (lembra?) que pediu a cassação do senador Renan Calheiros por decoro parlamentar. E olha que não chamei o Renan de ditador (ainda), se bem que todo político tem a Monica que merece. Porém, para aqueles que querem ler mais sobre as ditaduras que limitam e vitimam, recomendo a obra do maravilhoso escritor cubano Reinaldo Arenas, em especial “Antes que Anoiteça”.
Conheci a obra do Reinaldo em 2001, quando lecionava num dos muitos colégios particulares mercenários que tive que me sujeitar a trabalhar em Salvador – num período bem complicado da minha vida – onde os livros desaforados do Reinaldo me faziam companhia. O autor nasceu “em um lugar impreciso situado ao norte de Holguín e ao sul de Gibara”, Cuba, em 1943, e cresceu na miséria de uma família camponesa durante a ditadura de Batista.
Escritor dissidente, a sua vida foi uma luta constante pelo direito à liberdade de expressão – o que se percebe de maneira bem latente nas páginas autobiográficas de “Antes que Anoiteça” – e sua extensa obra literária foi produzida, quase sempre, sob condições adversas, mas é cheia de um clamor de vida impressionante e de muito erotismo. Parece que o Reinaldo, apesar de todo sofrimento imposto pela ditadura, se divertiu muito, pois ele descreve (não poupando dos detalhes sórdidos) muitas aventuras eróticas com todos os tipos de figuras.
Achei muito divertido, por exemplo, onde ele cita uma violenta cena de sexo entre animais: “Uma vez, minha mãe e eu estávamos indo para o centro espírita numa égua pertencente à minha tia. De repente, apareceu um cavalo no meio daquele campo; veio por trás, com sinais de um erotismo implacável. Minha mãe chicoteava a égua, mas esta não deu um passo à frente; obviamente, preferia ter a pele arrebentada para não perder a chance de ser possuída. Tivemos então que saltar e deixar que ali mesmo, diante de nós, se realizasse o ato sexual”.
As semelhanças entre o ator Javier Bardem e o Reinado são incríveis.
PERSEGUIÇÃO – Mas nem só de sexo se fez a vida do escritor, Reinaldo é uma das maiores figuras da literatura cubana, ao lado de Lydia Cabrera, Carlos Montenegro e Enrique Labrador Ruiz – os quais também são citados no livro. O primeiro romance do Reinaldo, "Celestino Antes del Alba", obteve uma menção honrosa num dos mais prestigiados prêmios cubanos de literatura. Mesmo assim, seus livros viriam a tornar-se proibidos por Fidel por serem considerados contra-revolucionários.
Perseguido, viu o manuscrito de "Otra Vez el Mar" ser três vezes destruído e três vezes reescrito. Nos anos 60 e 70, tentou várias vezes, a fuga para os EUA, acabando por ser preso durante cinco longos anos. Para além da sua palavra, considerada perigosa pelo regime castrista, foi também perseguido por ser homossexual (considerado escória por Fidel). Numa das suas fugas da cadeia, esteve dois meses escondido num parque no centro de Havana. Foi aí que começou a escrever "Antes que Anoiteça", uma obra cativante pela força com que o autor descreve a sua luta pela liberdade de criar e de se exprimir. O livro aborda a política, a violência, a Revolução, o amor à literatura, a detenção, a fuga, a captura, a prostituição de uma juventude sem futuro e todas as loucuras cometidas naquele período (e que ainda são cometidas) contra o povo cubano. Fidel é descrito como um ditador implacável, arrogante e assassino – onde jovens eram arrancados de suas famílias para servirem ao exercito castrista entoando os hinos com os quais haviam sido doutrinados.
Manuscrito de Reinado Arenas.
CURIOSIDADE – Reinaldo cita o Gabriel García Márquez como um puxa-saco de Fidel, enquanto coloca o Jorge Luis Borges como o maior intelectual do século, escrevendo que este último foi vítima de um dos mais notórios casos de injustiça intelectual de todos os tempos, a quem negaram sistematicamente o Prêmio Nobel, por causa da sua postura política, mesmo sendo Borges um dos escritores latino-americanos mais importantes, mas entretanto deram o Nobel ao Márquez, o qual ainda o acusa de plagiador de Faulkner, amigo pessoal de Fidel e oportunista nato. Porém, o livro ficaria incompleto durante longos anos.
Novamente encarcerado, o autor apenas voltaria a pegar neste impressionante testemunho pessoal quando já conseguira fugir para Miami. No final dos anos 80, com Aids, "escreveu" grande parte deste livro gravando a sua voz em inumeráveis fitas cassetes, sendo as suas palavras posteriormente convertidas à forma escrita.
Em 7 de dezembro de 1990, em Nova Iorque, aos 47 anos, Reinaldo suicidou-se, deixando este impressionante testemunho pessoal e político, concluído poucos dias antes de sua morte (*leia também nos arquivos a minha resenha sobre o livro “Dicionário dos Suicidas Ilustres”). Morreu "antes que se fizesse noite na sua alma" e responsabilizando Fidel Castro por todos os seus sofrimentos. O livro é divertido, triste, erótico, estimulante e um tributo à vida e à literatura, por fim, simplesmente excelente! (“ANTES QUE ANOITEÇA” de Reinaldo Arenas, 351 págs. Rio de Janeiro, 1993 – Record)
+ Outro texto de Elenilson sobre Reinaldo Arenas no portal GLX. CLIQUE AQUI.
>>> Em 2000, o atento diretor atento Julian Schnabel (do filme “Basquiat”) trouxe às telas a cinebiografia de Reinaldo Arenas. No filme, após ser educado com a Revolução Cubana e premiado nacionalmente por seu trabalho, o escritor termina sendo preso e, posteriormente, exilado de seu país-natal. Conheça a vida de Reinaldo, desde sua infância pobre até seu exílio em Nova York, passando pelo horror e preconceito sofrido ainda em Cuba, pelo fato de ser homossexual. Com o exelente Javier Bardem, Johnny Depp, Sean Penn e até o Hector Babenco no elenco. O filme recebeu uma indicação ao Oscar.
Declaração de Reinado contra Fidel Castro.
Em 2001, Javier Bardem foi indicado a Oscar de melhor ator, mas perdeu para Russell Crowe em “Gladiador”. Portanto, dar a ele o Oscar, apesar de ter sido favorito e muito elogiado, soou como consolar a perda de sete anos atrás.
Johnny Depp de travesti no filme.
Baixe aqui o filme inteiro (formato: rmvb, áudio: inglês/espanhol, legendas: português/BR (embutidas), duração: 125 min, servidor: Rapidshare (6 partes):
DVD 1 (o filme)
>>> Parte 1 <<<
>>> Parte 2 <<<
>>> Parte 3 <<<
DVD 2 (making of)
>>> Parte 1 <<<
>>> Parte 2 <<<
>>> Parte 3 <<<
fonte: E. Nascimento – O Rebate, 13/11/07
download: Laranja Psicodélica

0 comentários: