segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A ARTE DE ESCREVER

“Quot línguas quis callet, tot homines valet”*
Recentemente livros queimados numa praça pública em São Paulo por “professores” nós remeteram a períodos obscuros na história – e que ainda fazemos de tudo para esquecer. Foi assim na Inquisição, quando obras contrárias à doutrina da Igreja Católica eram queimadas, e foi assim também quando os nazistas carbonizaram milhares de volumes em cerimônias macabras. Agora, como numa regressão e numa manifestação absoluta de ignorância, “professores” na capital paulista gritavam: “Quei-ma, quei-ma, quei-ma!”. Os “professores” protestavam contra o novo currículo escolar produzido pela Secretaria de Educação e, de quebra, tacaram na fogueira apostilas e livros didáticos.
E, depois dessa cena pitoresca, acho que o filósofo alemão Schopenhauer deve ter se revirado no seu túmulo, pois para ele “o mundo nada mais era do que uma representação formada pelo indivíduo”. O cara era tão bom que influenciou Freud, Nietzsche, Bérgson, Machado, Wagner, Tolstói, Sartre, Thomas Mann (*o livro “A Montanha Mágica” é muito bom), entre outros e também foi o responsável por introduzir o budismo na metafísica alemã. Quanto a mim, metido como sempre, só vim conhecê-lo no Instituto de Letras – mesmo assim, com aquele discursozinho forjado pelos professores (típico de quem nunca leu nenhuma linha do cara) de que Schopen era “apenas” um autor pessimista – daí a minha aproximação com a sua obra, pois adoro os pessimistas, os pervertidos e por aí vai.
O PEDANTE MUNDO DAS LETRAS – Na antologia de ensaios “A Arte de Escrever”, o leitor vai encontrar textos que trazem as mais ferinas, entusiasmadas, melancólicas, insensatas, pessimistas, escrachadas e cômicas reflexões acerca do ofício do próprio Schopen, isto é, o ato de pensar, a escrita, a leitura, a avaliação de obras de outras pessoas, o mundo erudito como um todo. O título, inclusive, poderia ser mudado para ”Sobre o ofício de não-ser-escritor”, ou, mais inteligivelmente, para “Sobre como não escrever” ou apenas “Como não escrever”, mais enxuto e direto. Um livro que, embora escrito na primeira metade do século 19, todo escritor “de verdade” deveria ler uma vez na vida, antes de morrer.
Estes ensaios tratam sobre o vaidoso e pedante mundo das letras, os vícios do pensamento, as armadilhas da escrita e da crítica que continuam válidos hoje, mais do que nunca. Schopen mira e atira de alto a baixo, atingindo boa parte do grand monde intelectual europeu e principalmente alemão. E, marca personalíssima do autor, estes textos são modernos, pulsantes de inteligência e humor. Schopen critica o estilo dos escritores, as preferências dos leitores por listas prontas, as recomendações dos críticos, a maneira de pensar dos filósofos e a qualidade e variedade dos estabelecimentos de ensino (isso porque ele não conheceu a quantidade de faculdades no Brasil). ”Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimentos, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes”, escreveu o filosofo. E complementa: “Para que existem essas academias que se tornam tão amplas e abrigam tantos imbecis sempre a se vangloriar?”
O livrinho é dividido em cinco capítulos: "Sobre a erudição e os eruditos" – onde o autor critica os pretensos eruditos, dizendo que quem lê muito pensa pouco. Critica ainda a abolição do latim como língua erudita; chama a juventude de preguiçosa, ignorante e bárbara; diz que os críticos estão mancomunados com os editores; chama os advogados, médicos, juízes e professores de charlatões e usa o personagem Quasímodo de Victor Hugo para exemplificar as pessoas que só conhecem o que lhes são convenientes.
O segundo capítulo chama-se "Pensar por si mesmo" – onde Schopen afirma que a organização dos pensamentos é fundamental. “Mentes assim são muito raras, por isso não se encontram muitas delas em meio aos eruditos”. E loucamente afirma que ler demais é prejudicial: “O excesso de leitura tira do espírito toda a elasticidade”, como se quisesse dizer que tanto a leitura excessiva quanto a experiência não substituem a arte de pensar. Mas pensar para Schopen requeria mais esforço que só com leituras (*e eu contínuo não concordando, pois a leitura é uma coisa necessária para o desenvolvimento intelectual e crítico. E, se fosse assim, como é que um analfabeto evoluiria?). Mas para Schopen o pensador deve ruminar suas próprias idéias para chegar a conclusões por si e assim desenvolver o seu raciocínio sozinho. “Muitos livros servem apenas para mostrar quantos caminhos falsos existem”. Será mesmo?
O terceiro capitulo chamado de "Sobre a escrita e o estilo", onde o pessimismo do alemão extravasa e ele diz que há escritores - e livros - bons e ruins e que também há ricos que são ignorantes, pois vivem apenas em função de seus prazeres e se assemelham ao gado. O autor afirma que o escritor é ruim quando escreve por dinheiro, que os livros mais recentes não são os melhores e que "o público é tão simplório que prefere ler o novo a ler o que é bom". E, como a maioria dos livros é ruim, devemos desmerecer os ruins para valorizar os bons.
O autor também criticou o anonimato, tanto na escrita quanto na crítica e disse que o estilo revela o tipo de escritor que escreveu a obra. Se ele escreve mais palavras do que realmente precisa, ou é confuso e obscuro, só tenta parecer que sabe mais do que realmente sabe. Schopen enumera a partir daí vários vícios que desmascaram os escritores ruins e aproveita para meter o pau em Bulwer, Spindler e Eugène Sue (autores que fizeram sucesso momentâneo no século 19). Mas legal mesmo foi ele ter citado Xerxes (que recentemente foi interpretado por Rodrigo Santoro em “300” – foto ao lado), no episódio em que o mitológico rei da Persa chorou ao contemplar seu exercito inumerável, pensando que em cem anos nenhum daqueles homens estaria vivo – para comparar com a vontade de chorar à vista dos grossos catálogos editorias e da quantidade de livros ruins. Pois é, o cara era muito irônico. “Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados”. E, para completar, ainda disse: “Os grandes espíritos descansam nas prateleiras de livros”. Isso porque ele não conheceu a internet, onde boa parte dos sites e blogs (me encaixo aí!) sobre literatura são freqüentados por pouquíssimos leitores, mas os espaços sobre fofocas e futilidades, aí sim!
No capítulo "Sobre a leitura e os livros", ele faz uma declaração apocalíptica: “Se o ensino das línguas antigas um dia chegar ao fim, como há o risco de acontecer, surgirá uma nova literatura, constituída de escritos tão bárbaros, rasos e sem valor como nunca se viu”. Meu filho, a literatura já está morta. Editores preferem lançar as Brunas Surfistinhas (foto ao lado) da vida e meter todo o dinheiro com as vendas desses livrinhos vagabundos nos próprios monossílabos, ao invés de fomentar CULTURA. Assassinato em massa! Mas, e quem se importa? E para Schopen, “nove décimos de toda a nossa literatura atual não têm nenhum outro objetivo a não ser tirar alguns trocados do bolso do público”. E ainda escreveu uma das coisas mais significativas que eu li nos últimos tempos: “É inacreditável a tolice e a perversidade do público que deixa de ler os espíritos mais nobres e mais raros para ler as besteiras escritas por cabeças banais”.
No último capítulo chamado de "Sobre a linguagem e as palavras", um ensaio demasiadamente técnico e muito chato, onde ele define que as primeiras palavras a existirem foram as interjeções e que o aprendizado de várias línguas não é apenas um meio de formação, mas uma coisa necessária. Schopen continuou metendo o pau nos “puristas pedantes” (palavras dele) e ainda disse que os poemas não podem ser traduzidos, mas apenas recriados poeticamente – mesmo com um resultado duvidoso, pois “toda tradução é uma obra morta”.
Continuou falando da “tagarelice de papagaios” dos críticos, que o estilo dos antigos escritores ultrapassa o nosso em termos de perfeição gramatical, que a pessoa que não sabe latim é semelhante àquela que se encontra numa bela região em tempos nublados (*e eu aprendi a odiar o latim na faculdade) e que as atuais edições são umas verdadeiras insígnias de preguiça e ignorância. Mas, mesmo com todo esse veneno (que eu adoro!), Schopen foi muito rebuscado ao falar sobre a etimologia de algumas palavras em grego, alemão, inglês e em latim. Detestei, talvez por ignorância também, esse capítulo, mesmo que a sua pretensão fosse estimular o estudo dessas línguas. Schopen, que morreu em 1860, obviamente não sabia disso (e, mesmo que soubesse, não se interessaria). Mas, talvez numa crise pessoal, profissional ou de falta de assunto, compusesse “Como convencer Elenilson a abandonar o ofício de escritor”, e seria a sua obra magna.
Em suma, no livrinho Schopen aconselha (entre aspas) todos aqueles que querem se lançar ao ofício de escritor, mesmo sabendo dos percalços, dos desenganos e das frustrações. Vale lembrar que o livro não tem uma conclusão edificante. “O que acontece na literatura não é diferente do que acontece na vida: para onde quer que se volte, depara-se imediatamente com a incorrigível plebe da humanidade, que se encontra por toda parte em legiões, preenchendo todos os espaços e sujando tudo, como as moscas no verão”. Só não concordei muito com as observações que ele fez sobre o ato da leitura, mas ele classificou como escritores distintos aqueles que vivem DA literatura dos que vivem PARA ela (os vendidos). Só para não esquecer: ele também disse que as revistas literárias ao invés de separarem o joio do trigo, tem suas opiniões pagas e passam a indicar livros ruins para os leitores. Pois é, a bichinha era danadinha! (“A ARTE DE ESCREVER” de Arthur Schopenhauer, ensaios, 168 págs. Coleção L&PM Vol. 479, Porto Alegre, 2005 – L&PM Editores).
*P.S. Alguém ao menos se perguntou do significado da primeira frase nessa matéria? Aposto que não! A frase é de Carlos V, imperador do Sacro Império Romano, e a tradução ipsis litteris é a seguinte: “Quantas línguas alguém fala, tantas vezes ele é um homem”.
fonte: E. Nascimento/O Rebate - 04/05/08

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