terça-feira, 3 de novembro de 2009

CAIM

“Saramago redime Caim em seu novo romance e ataca o catolicismo ao apontar Deus 'como autor intelectual do crime' cometido por Caim.”
Eu adoro Saramago, apesar de algumas divergências que eu tenho com relação a falta de uso de pontuação nos seus textos – mas isso deve ser, provavelmente,mas uma maneira que o autor encontrou de se manifestar. Lembro que já fui chamado à atenção por ter trabalhado com o “Ensaio sobre a Cegueira” numa turma de segundo grau. Babacas hipócritas!
Agora, Saramago acabou de lançar outro livro. E as palavras abaixo em itálico são da Pilar del Rio (esposa do homem) e anunciam, no blog da Fundação José Saramago, esse novo livro: “O seu título é “Caim”, e Caim é um dos protagonistas principais. Outro é Deus, outro ainda é a humanidade nas suas diferentes expressões. Neste livro, tal como nos anteriores, “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, por exemplo, o autor não recua diante de nada nem procura subterfúgios no momento de abordar o que, durante milênios, em todas as culturas e civilizações foi considerado intocável e não numerável: a divindade e o conjunto de normas e preceitos que os homens estabelecem em torno a essa figura para exigir a si mesmos – ou talvez seria melhor dizer para exigir a outros- uma fé inquebrantável e absoluta, em que tudo se justifica, desde negar-se a si mesmo até à extenuação, ou morrer oferecido em sacrifício, ou matar em nome de Deus.”
“Caim”
foi lançado com grande estardalhaço, com a habitual chancela da Editorial Caminho, e o vídeo de apresentação pode ser visto no blog da Fundação (*eu, como sempre, não consigo ‘importá-lo’ para aqui). Há um ano o escritor surpreendeu seus leitores pela ironia e humor que destilam as páginas de “Viagem do Elefante”, e agora volta com “Caim”. No livro, Saramago volta a atacar a religião, redime o protagonista do assassinato de Abel e aponta Deus "como o autor intelectual do crime, ao desprezar o sacrifício que Caim Lhe havia oferecido". Bem bacana esse argumento. Já havia pensado algo semelhante na época que eu estava escrevendo o meu “Clandestinos”.Mas o portuga famoso, que passa o verão em sua casa na ilha espanhola de Lanzarote e prepara as malas para voltar a Lisboa, já falou que o que pretende dizer com Caim é que "Deus não é de se confiar. Que diabo de Deus é esse que, para enaltecer Abel, despreza Caim?” E quase 20 anos depois de seu discutido livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, que foi vetado pelo governo português para competir pelo Prêmio Europeu de Literatura, o Nobel português faz uma irreverente, irônica e mordaz leitura por diversas passagens da Bíblia, mas não teme que voltem a crucificá-lo.
Saramago não considera esse romance seu particular e definitivo ajuste de contas com Deus, porque "as contas com Deus não são definitivas, mas sim com os homens que O inventaram", disse. "Deus, o demônio, o bem, o mal, tudo isso está em nossa cabeça, não no céu ou no inferno, que também inventamos. Não nos damos conta de que, tendo inventado Deus, imediatamente nos tornamos Seus escravos", assinalou o autor. O escritor nega que o fato de ter chegado perto da morte há um ano, quando foi hospitalizado por conta de uma pneumonia, o tenha feito pensar mais em Deus. "Tenho assumido que Deus não existe, portanto não tive de chamá-Lo em uma situação gravíssima na qual me encontrava. Mas se eu o chamasse, e ele aparecesse, que poderia dizer ou pedir a Ele, que prolongasse minha vida?" Saramago diz ainda que "morreremos quando tivermos que morrer. E diz que quem o salvou foram os médicos, Pilar (sua esposa e tradutora) e o excelente coração que tenho, apesar da idade. O resto é literatura, da pior espécie".Para Saramago é um mistério. "Não foi deliberada nem premeditada, a ironia e o humor que aparecem nas primeiras linhas de ambos os livros. Poderia ter usado uma narrativa solene, mas seria uma estupidez rechaçar o que está sendo me oferecido numa bandeja de prata". O escritor começou a pensar em “Caim” há muitos anos, mas começou a escrever o romance em dezembro de 2008, concluindo o texto em menos de quatro meses. "Estava em uma espécie de transe. Nunca havia me sucedido tal coisa, pelo menos com essa intensidade, com essa força", lembra.
Saramago, que uma vez escreveu que "somos contos de contos contando contos, nada" e assim continua. Escreve mais e mais rápido do que nunca (três livros em um ano), talvez a melhor maneira de continuar vivo. "É verdade. Talvez a analogia perfeita seja a da vela que lança uma chama mais alta no momento em que vai se apagar. De toda maneira, não se preocupem, não penso em me apagar tão rapidamente", conclui.
Saramago já admitiu que a publicação de "Caim" suscitou "incompreensões", "resistências" e "ódios velhos". "Há incompreensões, já sabemos que sim, resistências também sabemos que sim, ódios velhos também sabemos que sim", disse Saramago. “Sou uma pessoa que desperta anticorpos em muitas pessoas, mas não me importo com isso, faço o meu trabalho", frisou o escritor, numa reação às polêmicas surgidas com o seu novo livro.E muitas críticas a um livro "que não leram" estão sendo feitas pela imprensa e pela Igreja, como sempre. Porém, na obra, Saramago referiu estranhar que “Caim” seja o livro em que "mais se tem falado, embora não tenha sido lido". "É obra!", disse a propósito, sublinhando que é "magia" e "quase um milagre que certos sectores tenham conseguido dizer tanto em relação a um livro que não leram".
O escritor já afirmou que não escreve para ser polêmico e reafirmou que na Bíblia há "crueldade, há incestos, há violência de todo o tipo, há carnificinas. Isto é indesmentível". "Todo este alvoroço se levantou não por causa do livro, mas por umas quantas palavras que eu disse. O curioso é que não disse nada que as pessoas não saibam", frisou.
Sobre a acusação de ter feito uma interpretação literal do texto bíblico, Saramago comentou: "Aquilo que eles querem e não conseguem é colocar ao lado de cada leitor da Bíblia um teólogo que dissesse à pessoa que aquilo não é assim, que há que fazer uma interpretação simbólica, a isto chamam a exegese. (...) Eu sou suficientemente ingênuo para ler aquilo que esta lá e é sobre aquilo que está lá que eu trabalho", sublinhou. À pergunta sobre se tenciona escrever sobre o Corão, respondeu que não: "Tenho mais que fazer, estou a escrever outro livro. Espero que para o próximo ano haja novo livro de José Saramago". (“CAIM” de José Saramago, romance, 176 págs, Companhia das Letras – 2009)
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CLIQUE AQUI e leia um trecho de “Caim”, de Saramago.
podcast: Rádio Metrópole
fotos: divulgação

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