Em 1938, ninguém pediu a Virginia Woolf que escrevesse sobre o Acordo de Munique que, sob a tutela do nazismo, repartiu a Tchecoslováquia. Naquele momento, indiferente às fortes circunstâncias da história, ela trabalhava, silenciosa, em Entre os atos, seu último romance. Em 1964, ninguém reclamou que Clarice Lispector, no frenesi do golpe militar, publicasse um livro tão introspectivo quanto "A paixão segundo G.H.". O que não a impediu, quatro anos depois, de estar na primeira fila da Passeata dos 100 mil.Logo, não deve surpreender que o mais importante e engajado escritor israelense vivo, Amós Oz, de 70 anos, se dedique, em suas narrativas, a temas banais do cotidiano, questões “menores” se comparadas às disputas que, bem perto de sua casa, no Deserto do Neguev, fervem entre israelenses e palestinos. Sua opção por uma “literatura menor” se confirma na coletânea de contos “Cenas da Vida na Aldeia”. Oz é um pacifista. Foi um dos fundadores do Movimento Paz Agora. Sempre defendeu uma solução negociada para o conflito do Oriente Médio.
Como era hábito, ele trocou o sobrenome de família, Klausner, para adotar Oz, que em hebraico significa “coragem”. Na literatura, porém, seu engajamento político assume outra forma – mais essencial. Oz trata os conflitos do país por meio de seus reflexos mais comezinhos, e cotidianos. Consegue, assim, retratar a psicologia da guerra pelas características de seus personagens. Isso faz dele um escritor extraordinário.
Não há, em seus relatos, menção aos “grandes problemas”. Mas eles estão lá, traduzidos como um ruído de fundo que impregna a vida de todos. O mesmo ruído que incomoda o ex-deputado Pessach Kedem no conto “Os que cavam”. Viúvo e rabugento, ele vive com a filha Rachel. Está sempre às turras com Adel, estudante palestino para quem a filha aluga um quarto, na aldeia de Tel Ilan, nas montanhas de Menashé. Tudo separa o irascível Pessach de seu hóspede. Contudo, só os dois conseguem ouvir, à noite, os ruídos sinistros de uma escavação no subsolo da casa. Rachel os atribui à demência senil do pai e à imaginação do jovem. No dia em que os dois descobrem que, apesar de suas diferenças, estão ligados pelo mesmo horror, algo se transforma.
Nos relatos de Oz, sensações imprecisas atordoam os personagens. Eles se entrecruzam nas várias histórias. A doutora Guili Steiner, protagonista de “Os que são próximos”, é chamada para atender um agonizante em “Os que cavam”; personagem de “Os que herdam”, o velho Arie Tselnik cruza com Guili no ponto de ônibus em “Os que são próximos”. Apesar disso, quase nada sabem uns dos outros. Vivem imersos em uma bruma de indiferença na qual, como diz Pessach Kedem, “todos os corações já morreram”.
Oz escreve como um arqueólogo que, ciente da impossibilidade de capturar a história por inteiro, nela aplica delicados golpes de luz. Em suas mãos, seres escorregadios e estranhos, como o advogado Wolf Maftzir, não são tão estranhos assim. A solidão é o grande tema de Oz. Ela se encarna na doutora Guili Steiner, médica da aldeia, que espera a visita de um sobrinho adoentado, o soldado Guid’on Gat, que nunca chega. Réplica do Godot de Samuel Beckett, o rapaz a faz entender que é impossível viver sem aceitar o inconcluso. Em linguagem límpida, Oz nos recorda que, nos subterrâneos da vida, se guarda sempre um segredo. Nada que vá mudar a face do planeta. Pequeno tesouro que, no entanto, nos constitui como homens. (“CENAS DA VIDA NA ALDEIA de Amós Oz, 184 páginas, tradução do hebraico de Paulo Geiger, Companhia das Letras - 2009)
» Confira um trecho do livro Cenas da vida na aldeia, de Amós Oz.
fonte: José Castello/Época
3 comentários:
Olá, andei dando uma olhada nos posts anteriores, e achei as indicações excelentes! Parabéns pelo trabalho e pela capacidade de síntese!
Abraços
Valeu Renato, venha mais vezes aqui. Abraço.
Eu amei esse livro! Sua resenha ficou muito, muito boa. Abraço
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