A primeira vez que eu ouvi falar neste livro foi no segundo grau, quando uma professora disse que teve que devorá-lo escondido da família e da escola. Achei estranho, mas talvez na época de Cabral as pessoas fizessem isso. “O Crime do Padre Amaro”, fantástica obra do nosso escritor Eça de Queiroz, foi imortalizado no excelente e fantástico filme de Carlos Coelho Silva.
No livro, o jovem padre Amaro conhece o cinismo dos seus colegas, que em nada estranham a sua relação com uma jovem da comunidade. Amaro é um fraco tanto fisicamente quanto psicologicamente. Aceita o sacerdócio passivamente. Por influência do conde de Ribamar, obtém a paróquia de Leiria, onde se hospeda na casa da Sra. Joaneira. Lá conhece Amélia, filha de sua hospedeira, e ela torna-se sua amante. E foi justamente o ambiente da casa da marquesa, onde fora criado, e o seminário moldaram o caráter de Amaro.
Já sacerdote em Leiria, espanta-se, no início, com o cinismo explícito dos seus colegas de batina, mas todas essas situações, somadas ao ambiente de servilismo beato da casa onde está hospedado, fazem com que ele se atole em ações desonrosas, como entregar seu filho a uma "tecedeira de anjos" e a criança acaba por morrer.

No final do romance, ele tornou-se idêntico aos seus pares. Uma conversa entre Amaro e o cônego Dias, mostra, de forma clara, como Amaro e os outros eclesiásticos representam o clero sem vocação e hipócrita. Os dois estão refletindo sobre os excessos da Comuna, afirmam que seus seguidores merecem a masmorra e a forca porque não respeitam o clero e "destroem no povo a veneração pelo sacerdócio", caluniando a Igreja. Então, uma mulher provocante passa diante deles e ambos trocam olhares cúmplices. O cônego exclama: "- Hem, seu Padre Amaro?... Aquilo é que você queria confessar" E Amaro responde: " - Já lá vai o tempo, padre-mestre - disse o pároco rindo - já as não confesso senão casadas!"
O padre Amaro chega cheio de boas ideias, cheio de vontade de mudar as histórias de vida dalguns daqueles jovens que á partida não têm um futuro promissor. O problema começa quando ele é alojado na casa da Srª. Joaneira, por intermédio do seu mestre e amigo cónego Dias, e encontra a tentação em pessoa ao conhecer a filha, Amélia.
Amélia é uma rapariga bonita e capaz de virar a cabeça de qualquer homem, incluindo a de um jovem padre. Grávida, Amélia acaba por morrer no parto e Amaro entrega a criança a uma "tecedeira de anjos". Morta também a criança, Amaro, agora um cínico descarado, prossegue com a sua carreira. O romance, que critica violentamente a vida provinciana e o comportamento do clero, foi, durante décadas, leitura proibida em muitas escolas de Portugal e do Brasil, como foi no caso da minha professora.
No desenrolar da história, descobrimos uma igreja que alberga, o materialismo, pedofilia, sexo e uma sociedade cheia de zonas problemáticas, onde jovens que fazem face a todo o tipo de situações das mais degradadas como o crime, roubo, aborto, etc. Levantam-se aqui então questões importantes que a ver de muitos deveriam ser seriamente pensadas, como por exemplo, a vida sexual dos padres, permitindo assim talvez o casamento destes, a fim de evitar escândalos muitas das vezes abafados pela própria igreja.

O excelente ator Gael Garcia Bernal, como Amaro.
Acho que é importante salientar dois pontos, o primeiro é que apesar de imoral, o padre Amaro tenta transformar a sua paróquia em algo de melhor e prestável á sociedade, ajudando os jovens e levando-os á igreja para assim os poder encaminhar, coisa que a corja de padres que o rodeiam não pretende de maneira nenhuma fazer, desculpando-se com a sociedade marginal que os rodeiam, e a qual não será merecedora de tal esforço. O segundo ponto é que acho que a igreja ficou realmente muito mal vista, a meu ver, não podemos imaginar que toda a igreja é realmente tão sórdida como a que aqui foi retratada, senão deixamos simplesmente de acreditar… (“O CRIME DO PA
DRE AMARO” de Eça de Queiroz, Martin Claret, 417 págs – 2002). Não fosse a obra em questão já um excelente livro, ficamos agora também com um excelente filme, que conta com a participação de um elenco brilhante de atores portugueses, que mesmo já tendo provado o seu excelente trabalho diversas vezes, vão aqui também fazer um trabalho extraordinário. O filme, assim como o livro, pretende retratar uma sociedade podre, em que a igreja é tudo menos aquilo que transparece, é uma organização cheia de pessoas corruptas e de falsas moralidades.
O filme é adaptado, e muito bem, à nossa época, mais precisamente finais do sec. XIX, e é passado basicamente em Ventoso, Lisboa. A história passa-se então neste bairro problemático, com grupos de varias raças que sobrevivem debaixo de uma bomba prestes a explodir em problemas de droga, armas, álcool, etc. O padre Amaro Vieira chega aquela paróquia após a morte do padre local. É muito bem acolhido pelos padres das paróquias vizinhas e logo aqui, encontramos o retrato de uma igreja velha e cheia de vícios, uma vez que os padres que o acolhem mostram ser homens nada pouco interessados em tentar ajudar os seus paroquianos, e sim em passarem o seu tempo na tasca a comentar os podres que os rodeiam. Agora, baixe o filme nessa produção mexicana de 2002, formato: rmvb, áudio em inglês, legendas em português/BR, duração de 118 min e servidor: Rapidshare (4 partes). Para baixar clique abaixo e se cadastre gratuitamente:
Mas já saiu também uma produção portuguesa de "O Crime do Padre Amaro" há algum tempo, e por isso fui ao YouTube ver o trailer desse outro filme, e as minhas teorias comprovaram-se: as cenas de sexo explicito e a linguagem usadas nessa versão cinematográfica, nada têm a haver com o que tenho lido, mas valeu a pena também. Mas uma coisa é certa: a escolha dos actores foi estupenda (Jorge Corrula e Soraia Chaves). Não só por serem ótimos atores, mas também por serem tão parecidos fisicamente com a descrição que o escritor faz das personagens. Confira o vídeo abaixo:
download do filme: Laranja Psicodélica
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