Os choques entre a crença ingênua e a religião dogmática; a credulidade simples e a armação maliciosa; a sinceridade das intenções e a completa distorção dos fatos; a inocência e a malícia; a verdade e seu falseamento são alguns dos componentes do embate entre a cultura do campo com o seu povo humilde e a da cidade com os corruptos, cuja raiz é a má vontade que coloca a incomunicabilidade como obstáculo intransponível a dividir as pessoas.
O personagem Zé-do-Burro é um homem simples do interior da Bahia, conhecido e querido por todos, principalmente pelo fato de existir entre ele e seu animal uma amizade muito profunda. Onde estivesse, também estaria o burro, em todos os afazeres diários e em todos os lugares que frequentava. Certa vez o animal fora ferido na cabeça por um galho de árvore e Zé, ao ver a situação do animal, fez uma promessa à Santa Bárbara, prometendo que dividiria suas terras entre os necessitados e carregaria uma cruz tão pesada como a de Jesus até à igreja da Santa, em Salvador. Como em sua cidade não havia a tal igreja, fez a promessa em um terreiro de candomblé, onde ela é conhecida pelo nome de Iansan. Saiu de sua terra no interior da Bahia carregando uma cruz, junto ia sua esposa.
Caminharam sete léguas até que chegaram à igreja de Santa Bárbara. E por mais que Rosa (sua esposa – interpretada no filme por uma Glória Menezes irreconhecível) insistisse para que ele deixasse a cruz na porta, Zé mantinha-se firme na ideia de que a promessa só seria cumprida se ele deixasse a cruz na frente do altar como prometera. Chegaram lá no dia da festa de Santa Bárbara de madrugada, exaustos, famintos, pararam para descansar na escadaria da igreja ainda fechada. Muito aborrecida e enfadada Rosa passou a se lamentar. Nessas circunstâncias Rosa se deitava nos degraus da igreja e cochilou. Zé, que estava extremamente cansado da jornada com a cruz, ficou tentando se manter em vigília, mas pegava no sono constantemente.
Enquanto isso, um gigolô Bonitão que retornava do meretrício brigando com a prostituta Marli (no filme sendo interpretada por Norma Bergell). Ela lhe entregou algum dinheiro e ele reclamando do tanto que ela conseguiu, mas o serviço de prostituta não rendia como antes. E retruca o gigolô:

“E desde quando trabalhar dá direito a alguma coisa? Quem lhe meteu na cabeça essas ideias? Está virando comunista?” Mais tarde, quando a mesma prostituta tem um acesso de ciúmes, o gigolô retruca: “Se não for pra casa imediatamente, nunca mais eu deixo você me dar nada!” Os dois acabaram brigando, Marli completamente apaixonada por ele que, no entanto, não se importava, a não ser pela questão financeira. Marli vai embora e Bonitão vai em direção a Rosa e Zé, já com segundas intenções para com Rosa.
Zé lhe explicou a situação, ao que Bonitão aconselhou que ele fosse à porta lateral da sacristia, pois o padre já deveria ter levantado para se preparar para a missa das seis. Zé foi e enquanto isso Rosa e Bonitão conversaram cheios de insinuações. Bonitão ficou muito interessado pela beleza daquela jovem mulher, conseguiu e convenceu Zé a permitir que sua esposa deixasse o local e fosse repousar em um hotel perto dali. Chegando lá, aproveitou-se do fato de Rosa estar desiludida com a vida ao lado do marido e bastante insatisfeita com os últimos acontecimentos, e fez sexo com ela.
Ao amanhecer, quando o padre da igreja viu aquele homem com uma cruz na escadaria da igreja, e tomou conhecimento da promessa feita em um terreiro de candomblé para Iansan, Santa Bárbara, pela cura de um burro, recusou-se a receber Zé e sua cruz, acusando-o de heresia e culto ao demônio. O padre não admitia o sincretismo religioso (intolerância), resolveu fechar as portas e somente abri-las quando aquele homem desistisse e fosse embora. Por sua vez, Zé do Burro decidiu que só sairia quando cumprisse sua promessa integralmente.
Nesse momento, apareceram muitas pessoas na praça de frente para a igreja. O galego dono de uma venda, um poeta, uma baiana e outros, todos se puseram a favor de Zé e ficaram ali a opinar. Nessas circunstâncias, de longe, o amante faz gestos para Rosa, chama para que venha com ele. Ela olha para seu marido, sentado na porta da igreja, consumido por sua promessa. Sim, pode até ser um bom homem, mas quem quer viver assim? Por fim, a tentação vence e, "quase que como atraída por um imã", ela começa a caminhar na direção do amante. O marido percebe o movimento de rabo de olho e interpela:
- Aonde vai, Rosa?
- Vou ali, já volto.
- Ali aonde?
- No hotel onde dormi. Lembrei agora que esqueci lá o meu lenço.
- Rosa!
- O que é? (*Num apelo e numa advertência que é quase uma súplica)
- Deixe esse lenço pra lá. (*Hesita ainda um pouco)
- Não posso, Zé. Eu preciso dele.
- Compro outro pra você, Rosa!
- Pra quê, Zé, gastar dinheiro a toa... É daquele que eu gosto!
Ela sobe a ladeira, o amante passa o braço por sua cintura e ambos saem de cena abraçados. Tempos depois, Rosa volta já arrependida de sua traição.
Logo mais um repórter (*eu acho que o Dias Gomes fez uma crítica diretamente ao jornal A Tarde) aparece para fazer uma matéria sensacionalista, distorcendo os fatos e transmitindo a notícia de acordo com as próprias tendências políticas, fazendo frente ao sistema do País mergulhado numa ditadura militar e classifica Zé como o novo Messias, apoiador da reforma agrária e cria envolta da promessa dele uma campanha política. Um guarda apareceu e tentou convencer Zé a ir embora e depois intercedeu a favor dele junto ao padre, mas ele não aceitou. Com isso, apostas foram feitas quanto ao dia da entrada ou não de Zé e a cruz na igreja. O superior do padre foi à igreja, ficou a par da historia, propôs que Zé pedisse perdão por seu pecado e fosse embora abandonando a cruz, mas ele não aceitou.As pessoas que chegavam para a procissão eram atraídas por aquela cena e a notícia se espalhava entre o povo, enquanto isso, Bonitão, como era conhecido o gigolô, entrou em contato com a polícia e levantou suspeitas sobre Zé do Burro, em uma trama para prendê-lo e deixar o caminho livre, podendo assim agenciar Rosa na prostituição. E com a contribuição de Bonitão, apareceu na praça um policial que ficou a observar Zé, buscando indícios para condená-lo. Rosa, de certa forma ciente quanto à situação do marido, voltou a suplicar para irem embora, mas ele estava irredutível. Chegou ao local o delegado com alguns policiais e após muitos questionamentos sobre a dignidade da promessa e da proibição de sua entrada na igreja, foi anunciada a detenção do pagador de promessa que, profundamente consternado, resistiu à prisão e foi morto pela polícia na presença de todos, mas ele se declarando inocente e sem nada a temer afirmou que dali só sairia morto. Logo uma confusão aconteceu e um tiro feriu Zé mortalmente. Os policiais foram embora, o padre se sentiu culpado e os capoeiristas que estavam na praça pegaram o corpo dele e colocaram sobre a cruz levando para dentro da igreja - cena maravilhosa
! (“O PAGADOR DE PROMESSAS” de Dias Gomes, 174 págs. Ediouro – 1960)Essa obra foi encenada pela primeira vez em São Paulo, em 1960. Menos de dois anos depois, o filme baseado na peça já ganhava Palma de Ouro em Cannes. O filme é muito bonito e mosta uma Bahia que não existe mais: interessante, emocionante. Dias Gomes tem um impressionante ouvido para diálogo: não é à toa que seu “O Bem Amado” ainda é uma das melhores coisas que a TV já viu. Apesar disso, a estrutura maniqueísta da peça me pareceu mais velha do que andar pra frente: herói absolutamente sem máculas, puro, honrado, casto, etc etc, é brutalmente destruído por uma sociedade corrupta, gananciosa, mentirosa.
Em uma única frase, Dias Gomes delineou perfeitamente o enorme fosso que separava seus heróis sertanejos dos habitantes da moderna Salvador - e da massa dos seus leitores. Mais tarde na peça, Dias Gomes ainda tem a gentileza de solucionar nossa dúvida, através da boca do repórter que cobre o caso e faz a conversão das medidas, para melhor informar seus leitores: quarenta e dois quilômetros. Zé é a vítima-símbolo do criminoso, agressivo, massacrante e cruel sistema social e político de que até a religião se torna instrumento. Baixei esse filme ontem e até agora estou aqui emocionado: um filmaço! Mas esse trabalho de Dias Gomes, na verdade, é uma peça de teatro ganhadora de inúmeros prêmios e que, transformada em filme, recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes. Agora, baixe esse filme de 1962, de tamanho 546, áudio em português e formato avi, com o excelente Leonardo Villar, Glória Menezes (irreconhecível), Norma Bengell e também o Antônio Pitanga, pai da Camila e do Rocco, novinho:
fonte do download : Só Filmaço
fotos: divulgação
2 comentários:
Só uma ressalva,
O filme ganhador do maior prêmio internacional de cinema que o Brasil já conquistou a Palma de Ouro em Cannes, foi dirigido brilhantemente por ANSELMO DUARTE cineasta Saltense. Acredito que ele mereça ser citado com letras negritas em seu artigo. Lembrando que será uma homenagem póstuma.
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Grande abraço, está fazendo um ótimo trabalho.
Que bom q está gostando Michel, volte mais vezes e mande sinais de fumaça pra cá. E obrigado pela observação.
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