domingo, 8 de novembro de 2009

O VELHO E O MAR

"Encontrei até um certo professor na UCSAL que disse em aula que “as viadagens de Hemingway foram uma bandeira para os movimentos gays em todo o mundo.”
Enquanto você gasta seus trocados para comprar biografia “encomendada” de líder de igreja evangélica e dono de rede de televisão (com direito a declarações de famosos em sua emissora elogiando – lógico – o tal livro mais vendido do ano em apenas três dias), enquanto você bebe leite contaminado com água oxigenada, cocô e sei lá mais o quê e, pasmem, enquanto o presidente da República das Bananas dá entrevista dizendo que a aprovação da CPMF é mais um benefício aos pobres (mas de que pobres ele tá falando?), eu, no entanto, prefiro outras festas, outros bares, outros ares e outras leituras.
Vou logo dizendo que existem duas atitudes a tomar em relação ao excelente Ernest Hemingway (1896-1961) cuja obra – graças a Deus – foi relançada tempos atrás no país pela Bertrand Brasil. A primeira é participar do folclore cada vez maior em torno de seu nome. A segunda, muito mais proveitosa, é ler os cinco melhores livros da vasta obra que o cara produziu.
No primeiro caso, você pode, por exemplo, se divertir com as polêmicas que circulam em muitos sites na internet produzidas por acadêmicos, professores e freudianos desocupados, loucos para denegrir ora a sua masculinidade (*encontrei até um certo professor na UCSAL que disse em aula que “as viadagens de Hemingway foram uma bandeira para os movimentos gays em todo o mundo” – que estúpido), ora a sua literatura (coisa de quem não produz nada – nem mesmo um artigo para o seu blog que ninguém lê).
Ainda no item folclore, há os curiosos “Festivais Hemingway” ao redor do mundo, o mais famoso fica na Flórida, onde fãs do escritor realizam anualmente um concurso de rimas obscenas e uma gincana que é vencida por aquele que fisgar a maior quantidade de peixe-espada. Porém, em matéria de boa literatura o livro “O Velho e o Mar” fica em primeiro plano.
Neste livro, o escritor conta a dramática estória de um velho pescador chamado Santiago que há 84 dias não fisga um único peixe, mas que ainda guarda nos olhos azuis o desejo de pescar o maior deles, qual seja, o verdadeiro sentido da vida. A luta entre Santiago – que durante este tempo se alimenta do que consegue apanhar – e o peixe testa os limites de resistência de ambos.
Mas, finalmente, o velho pescador é bem sucedido. Amarra o espécime ao barco e viaja para terra. Santiago está disposto a mostrar a todos que ainda está vivo, que ainda consegue ser bom na sua profissão. “A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente”, começa Hemingway o seu relato poético, em jeito de profecia.
O pescador, cansado e esfomeado, ainda não ganhou a guerra. Porém, mais pesada e depois de arrastada para uma rota desconhecida, a embarcação está mais lenta na viagem de regresso. Atraídos pelo sangue da conquista de Santiago, os tubarões atacam, transformando o grande peixe em esqueleto. O velho vai ganhando batalhas, mas sabe que a derrota é iminente, porque o sangue atrai mais e mais tubarões vorazes. Esgotado, Santiago chega à praia de onde partiu. Quebrado por dentro, depois de cuspir um líquido estranho. Vai para o pobre casebre onde vive, derrotado. Com o amanhecer, outros pescadores vêem o barco atracado, com o esqueleto do peixe amarrado num dos lados. O comprimento do peixe traz ao velho a admiração de todos.
“O Velho e o Mar”, publicado em 1952, garantiu a Hemingway o Prêmio Pulitzer. Dois anos mais tarde, o escritor norte-americano recebeu o Nobel da Literatura. E mesmo com todo esse sucesso o autor já havia tentando suicídio cinco vezes. Numa delas, tentou se jogar nas hélices de um avião, e por fim, matou-se dando um tiro de espingarda de dois canos na boca, puxando o gatilho com os próprios pés (*leia também nos arquivos a minha resenha sobre o livro “Dicionário dos Suicidas Ilustres”).
Em suma, “O Velho e o Mar” é um grande clássico da ficção contemporânea, um dos livros que nos fica para sempre encravado na “caixa de pensar” (se você não tem uma, não sabe o que está perdendo) e fala de coisas que nunca esquecemos. Uma obra perfeita em todos os seus momentos. Que podemos interpretar de maneira diferente. Talvez por isso mesmo, foi reeditado, mas só falta alguma publicidade para dizer que nas estantes das livrarias existem outras coisas mais interessantes do que livros “encomendados”.
Em boa hora, para quem nunca o leu. O livro é lindo. E para aqueles que querem conferir outros livros do autor, recomendo: “Contos Vols. I e II”, “O Sol Também se Levanta” e, claro, “Adeus às Armas”. (“O VELHO E O MAR” de Ernest Hemingway, 128 págs. Rio de Janeiro, 2000 – Bertrand Brasil)
fonte: E. Nascimento – O Rebate, 28/10/07

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