Por Elenilson Nascimento
Ganhei o livro em 2003 e de muitas maneiras (e com o pé atrás) li o que Chico Buarque conta em "Budapeste" e, sendo eu muito observador, titubeio diante da tentação de resumir tudo nesse pequeno post aqui no meu espaço de todos os dias. Estranheza minha talvez. Senti-me desconfortável em minha própria pele, não importa aonde eu vou e com quem estou, pois é assim que ele (o Chico) questiona alguns valores – valores que tantas vezes eu também já questionei.E no afã de comunicar essa sensação, o autor de "A Rita" (adoro essa música!) acabou contando muitas outras histórias que eu li de um só tempo tomando Coca-Cola, ouvindo a sua discografia que baixei em Mp3 e que ainda não passei toda para CDs, mergulhando... mergulhado... devagar... bem devagarzinho... nesta sensação praticamente indescritível.
Mas, com toda essa minha introspecção, achei o livro muito fraco. E me perdoem os fãs de carteirinha do Chico, mas o livro do homem não é muito ruim, péssimo ou nojento. É apenas fraco para o quilate de alguém que já escreveu coisas como "Pedro Pedreiro" e "Sonho de um Carnaval" ou que em 1965 musicou o poema "Morte e Vida Severina" do João Cabral de Melo Neto.
Contudo, para falar bem dele, diria que é o melhor livro do grande compositor e músico (o que não quer dizer muito, a se levar em conta seus romances anteriores – que até hoje tenho preguiça de ler). Diria mais: o livro tem uma boa fluência de leitura, mas é um porre assim mesmo. E o fato de ser relativamente curto (menos de 200 páginas) ajuda (caso você ache muito ruim, dá pra ler até o final).Não acho, porém, que você deva deixar de ler esse "sucesso de vendas", mas até gostar do livro você terá que passar por alguns perrengues. Um bom exemplo é o seguinte: no enredo temos um escritor-fantasma que se apaixona pela língua húngara e pela cidade de Budapeste. Viaja pra lá, passa uns três meses, volta para cá para a sua esposa e filho, vai pra Budapeste de novo, fica um tempo na Hungria, é deportado para o Brasil, se encontra sem saída alguma, mas recebe um telefonema "salvador" e volta coberto de glórias para Budapeste. Um porre isso tudo! Mas continuei lendo.
Clichê? Alguém aí disse clichê? A escritora baiana Anna Carvalho vivia com essa palavra na boca (além de outras coisas) e dizendo isso pra mim, mesmo eu nem sabendo o que era. E, pela primeira vez, vi algo de literário e sexy nessa palavrinha. Mas no caso do livro do Chico, escrever isso aqui pode até me custar a vida, pois afirmo que, o livro é cheio desses clichês. O narrador é feito em primeira pessoa pela voz de José Costa, o tal escritor-fantasma. A profissão de José só se justifica por um detalhe do final, quando um escritor-fantasma é usado para escrever seu livro, que se chama (ninguém merece!) Budapeste. Meu Deus, que bosta!A família do personagem é apresentada de forma caricata, e tem pouco valor na trama – o que eu achei uma pena. O filho é uma criança com dificuldade de desenvolvimento e a esposa uma típica workaholic (*espero que saibam o que significa isso!). Quando está em Budapeste, não há qualquer relevância das passagens do livro ocorridas no Brasil. E no Brasil não há nada que o leve a Budapeste. Então ele chegou a Budapeste com a força do pensamento positivo de Lair Ribeiro ou Paulo Coelho. Meu Deus, que bosta!
E, o pior (ou melhor) de tudo: concorrendo com mais de 230 livros, esse romance de Chico, recebeu o prêmio de MELHOR ROMANCE EM LÍNGUA PORTUGUESA, ao fim da 11ª Jornada Nacional de Literatura, em 2005. Pelo valor em dinheiro, de 100 mil reais, e pelo nível da concorrência, que reunia nomes como Saramago, Salim Miguel, José Nêumanne e Antonio Torres.
E ainda, em 2004, "Budapeste" havia conseguido o Prêmio Jabuti de Livro de Ficção do Ano. No exterior, a sua corrida também não é menor. Boas críticas na França, na Itália e na Inglaterra e, além disso, esteve entre os seis finalistas de melhor ficção estrangeira. Mas tudo isso por quê? Por que o livro é de Chico.
Um livro, enfim, que se em lugar de prêmios e boas críticas recebesse medalhas, teria mais condecorações que um general de caricatura. Desta sua última premiação, disse um dos membros da comissão julgadora: "Além de ser um romance muito bem escrito, é gostoso, cativante. Parte de uma situação um tanto quanto inverossímil e consegue dar verossimilhança a essa história. E o final é surpreendente".
Provavelmente esse cara ou estava drogado ou não leu uma única página. E é assim que são feitos os bons(?) livros e a mentalidade dos leitores.Visto com os olhos de hoje, depois de tantos "esclarecedores" prêmios e em nome da "dignidade artística" de um dos melhores compositores de música popular do Brasil, eu deveria dizer que "Budapeste" é um livro excepcional – e seja lá o que for o sentido que se queira dar à palavra -, mas infelizmente é mais um livro escrito por um medíocre ghost-writer para receber a assinatura de Chico Buarque de Holanda.
Que o livro se venda e seja reconhecido como escrito pelo genial compositor é cômico, ou tragicômico. Porque ele, ao escrever livros como "Budapeste", repete à sua maneira o destino do compositor de "Roda-Viva": a máquina o engole.
Para o mercado, Chico Buarque é uma grife. Não existe o romance "Budapeste" – existe apenas um produto Chico Buarque de Holanda para vender livros. O que ele fizer, melhor dizendo, o que ele assinar traz a marca do "gênio".
Alguma dúvida? Tente esculpir, tente pintar, tente a produção de cerâmicas, tente fazer um vídeo pornô. Faça obras vulgares de barro, pinte-as e ponha nelas a marca CBH, Chico Buarque de Holanda – e terá uma obra prima, mesmo sendo uma bosta. Mas quero, antes de tudo, à minha maneira, aqui e ali ou em qualquer outro lugar desafinado, em meio ao coro geral de elogios dos fãs babões, que no peito desse desafinado nem sempre bate um invejoso coração.Então, por compaixão ou por brincadeira, como o escritor-fantasma de "Budapeste", Chico acabou escrevendo um livro para agradar os babões, que mesmo não tendo "viajado" no trabalho, ainda assim assumem suas posturas de vassalos, exatamente como a suposta autoria de Fecske (o nome do poeta no livro), que assina as poesias de José Costa, ou Zsoze Kósta em húngaro, transformando-se em sombra. Mas é obsessiva a necessidade com que Fecske esquiva-se da luz dos holofotes ou do sol, como eu. Ou como você também, caro leitor.
Ou talvez como o próprio Chico. Mas talvez Chico não, pois ele é um deus. Por fim, esse livro é maravilhoso, um ótimo presente, pelo menos para quem gosta de livros para ocupar espaço nas estantes. Nunca fui de elogiar muito o Chico – tenho os meus preconceitos com relação ao homem – mas Chico é mesmo f... pois até num livro que é uma bosta o cara sabe ganhar dinheiro. ("BUDAPESTE" de Chico Buarque, romance, 2003, págs. 176 – Cia. das Letras).
P.S. O "excelente" romance "Budapeste" de Chico Buarque de Holanda ganhou uma versão cinematográfica. As filmagens com direção de Walter Carvalho, que após co-dirigir "Cazuza – O Tempo Não Para" com Sandra Werneck, fez o seu primeiro voo solo num filme de ficção. O papel principal ficou com o ator Leonardo Medeiros (“Cabra Cega” e “Lavoura Arcaica” - foto acima), que inclusive teve até aulas intensivas de húngaro para viver o personagem.fotos: divulgação
fonte: O Rebate, 18/06/08
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