Por Anna Carvalho
Vendo a entrevista de Lázaro Ramos falando sobre um ator negro na primeira novela que apostava num casal interracial e que este ator não beijou a amada, desde o ator Sérgio Cardoso que teve que ser "maquiado" para representar um negro, por exigência dos patrocinadores da época na novela “A Cabana do Pai Tomaz”, numa comparação ao personagem dele, André Gurgel que beijou muito na novela “Insensato Coração” e que interpreta um galã no horário nobre da Globo, analiso o alcance de “As Vítimas Algozes” e de “Cadernos Negros” numa manifestação dos estereótipos para a possível representação do negro e da sua reparação no cenário cultural brasileiro.
Já no prefácio e introdução quase doutrinária do livro feito por Benedito Cintra, há demarcações de uma síntese de cultura massificada em que há referências de análise de uma introdução tendenciosa da sociedade macro brasileira que alija, mesmo num transe desfigurado de democracia, ao MacDonalds, as formas de alienação capital de uma cultura televisiva que precisa localizar as representações que as sociedades querem e a pouca alternância do negro no poder de ilustração do país (*leia-se ilustração como alcance intelectual do país que conta nos dedos os negros que formam ou codificam tal sociedade que deforma), mesmo ilustrando as dissonâncias em “Cadernos Negros” e “As Vítimas Algozes”.O que antes veio pelos pés, na capoeira, no Quilombo, na representação da demarcação de Zumbi, por muitos, deduzida como homossexual, veio pelo papel, pelas mãos de um autor que enuncia o desejo de profanação das marcas históricas de ilustração do negro nos fundos, nas periferias e áreas vicinais da cultura.
Mas a elite nacional que eu demarco como uma elite ilustrada e centrada em manutenções de estigmas e de lugares sociais, onde Cintra divulga ou delata em sua introdução, a importância de uma compilação de textos com temática de reparação e de localização histórica, como uma busca de respostas. Claro que ele também valida que o livro pode não representar nenhuma evolução, mas entra como a dissonância de que o país precisa para, pelo menos, se entender racista.
GARGANTA
Hoje
É preciso que tua garganta
Do existir
Esteja limpa
Para que jorre
Teu negrume.
Uma garganta não é corpo
Flácido
É sangue escorrendo
Em leilão de cais.
RODRIGUES. Abelardo. Garganta In Quilombo Hoje.
O texto que também é registro da compilação estudada traz os limites de uma compreensão temporal do hoje, mas não foge do passado de leilão, de cais, de tristezas, entoando ou conotando as representações fantasmagóricas do passado em que peças eram negociadas num mercantilismo pouco civil, o que mais espanta no poema panfletário é o título como a garganta não sendo um órgão apenas fisiológico, mas sendo um campo conotativo da existência, da resistência de uma etnia que até outro dia era representada anacronicamente sob o estudo da raça (vide a propaganda do Governo Federal do senso, onda a atriz Taís Araújo afirma ser preta).Hoje
É preciso que tua garganta
Do existir
Esteja limpa
Para que jorre
Teu negrume.
Uma garganta não é corpo
Flácido
É sangue escorrendo
Em leilão de cais.
RODRIGUES. Abelardo. Garganta In Quilombo Hoje.
“Garganta não é corpo flácido”. Para mim este verso percorre sintomaticamente por um juízo de pertencimento histórico da voz poemática de renúncia também do corpo que era mais uma violência sumária no passado de negros que eram castigados, onde por vezes o corpo de um escravo era violado por surras, por perícia de feitores em não quebrar partes de um corpo valioso, ou nos estupros históricos das escravas pelos senhores.
Ler “Cadernos Negros” e não se lembrar da Maria da Fé, de João Ubaldo Ribeiro, de Simeão, de Lucinda e de Pai Raiol ou da Escrava Isaura, exótica por ser uma escrava branca, também reflete numa compreensão episódica do Brasil sobre as mazelas do povo negro e a alforria, mas degredou os negros, num racismo sumério e complexo para as palafitas, favelas, subúrbios ou na fuga de homúnculos do Morro do Alemão (não numa justificativa tácita em favor do tráfico, mas numa justificativa tácita da manutenção da escravidão em lugares sociais demarcados, e as UPPS que são resultado da violência descendo dos morros e indo para o asfalto).Sobre a poesia erótica de uma maneira “endógena” como “Eu Mulher” que parte também da exploração do corpo da mulata a partir da sua percepção como gênero, como mulher que sonha, que deseja, mas que também escolhe em seus arremessos, é não involuir na discussão sobre o território da sexualidade, outro grilhão demarcado às mulatas sensuais, a mulher na voz do gênero que se recobre de prazer subjetivo para alastrá-lo na percepção macro de uma sociedade que ainda localiza.
“Discutir as camisas “100% Negro” que circulam em Salvador,cidade conhecida pela sua massa de negros despolitizados.”
Discutir “Cadernos Negros” é também desobstruir os sintomas de uma sociedade doente, adoecida em seus padrões de elite que, no Brasil, aparece como entidade enigmática e que ainda codifica normas, discutir as camisas “100% Negro” que circulam em Salvador, cidade conhecida pela sua massa de negros despolitizados que ainda se concentram em áreas vicinais ou nas praias molhando os pés de turistas em praias locais, e no preconceito na via contrária, também poço de discussões soteropolitanas, inclusive na UFBA que foi a primeira instituição federal a instituir as cotas, necessárias no panorama político e asceta, para não dizer em atavismo, que deixa a sociedade à mercê de outras organizações blindadas e que não reforma em essência as estruturas ainda resistentes no país. (“CADERNOS NEGROS - Os Melhores Poemas”, antologia de poesias, São Paulo – 1998)
Cadernos Negros LITERATO
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fotos: divulgação
2 comentários:
lendo alguns artigos desse blog me lembrei de
Maria carolina de jesus, os criticos da epoca falaram que ela criticava o homem negro... no começo não entendi ela, mas depois percebi que se passava na mente dela...
e que de tanto ver um irmão ou irmã se comportando de uma forma como não force um dos nossos agente fica pu** de raiva. aqui no meu barrio eu aposto que sou o unico negro que trago cultura e postura de um homen de verdade. nunca vejo um casal de pessoas negras. eles achão que é errado. eu sou rapper e não os perdou por isso. não sou um negro racista longe de mim, apenas vejo o errado e não aceito... antigamente as negras eram massacradas fisicamente, e hoje alguns descendentes de senhores de engenho passam desfilando com uma garota negra, isso seria "abusar" novamente.
gostei de te achado esse blog abraços! ass: marcelonwa@live.com
goias entorno de brasilia. se tiver algum luga para baixa o livro me passe... ate eu compra o caderno
Anônimo, eu fiz uma resenha de “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, da Maria carolina de Jesus, que por sinal, é um livro massa! Olhe no blog. Abraço
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