sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A BATALHA DO APOCALIPSE

“Uma nova série de livros traz uma poderosa ameaça ao domínio da turma de Drácula.”
Por Danilo Venticinque & Mariana Shirai*
Eles estão entre nós – pelo menos é o que dizem. Com a discrição que lhes é peculiar, esforçando-se ao máximo para não serem notados, os anjos participaram de momentos cruciais da história da humanidade. Fazem questão de proteger os mortais enquanto aguardam pelo momento em que anunciarão o fim dos tempos. Antes disso, porém, têm outra missão pela frente: quebrar a hegemonia dos vampiros nas livrarias. O livro “A Batalha do Apocalipse”, do escritor carioca Eduardo Spohr, provou que os anjos podem vencer essa briga. E ele não está sozinho.
Na década de 90, os anjos abençoaram as prateleiras de autoajuda e esoterismo. Agora, evoluíram para os títulos de ficção. A julgar por seu desempenho recente, tanto no Brasil quanto em outros países, a mudança fez sucesso. “A Batalha do Apocalipse”, de Spohr, já vendeu mais de 10 mil exemplares e está há três semanas na lista de mais vendidos de ficção. Antes dele, o romance “Sussurro”, da americana Becca Fitzpatrick, chegou à marca de 20 mil livros vendidos no país e mais de 600 mil em todo o mundo. Nos próximos meses, mais títulos sobre anjos deverão chegar às livrarias. Caso repitam o sucesso de seus predecessores, os anjos poderão se consolidar como um fenômeno editorial.
Desde a consagração da saga “Crepúsculo”, vários seres fantásticos tentaram se aproveitar do sucesso dos vampiros para conquistar a atenção do público. Embora tenham vendido alguns milhares de exemplares, não chegaram a balançar o coração dos leitores – e muito menos das leitoras. Afinal, não há autor capaz de convencer uma fã de Edward Cullen a trocar seu vampiro favorito por um zumbi ou outro monstro qualquer.
Com os anjos é diferente. Embora seja natural desconfiar que eles terão o mesmo destino das outras criaturas que ousaram desafiar os vampiros, há motivos para acreditar que podem ter sucesso em sua empreitada. Mais do que os zumbis, lobisomens e até vampiros, os anjos têm um lugar de grande destaque na história da arte e na cultura popular. Para contar a origem de suas diferentes representações é necessário voltar os olhos para a Antiguidade. Com a expansão do mercado de livros juvenis e a transformação de seres fantásticos em grandes franquias literárias, era de esperar que as criaturas aladas encontrassem seu espaço.
Para vencer os vampiros não basta imitá-los. É preciso criar novas fórmulas.
Outro ponto forte dos anjos é a religiosidade. Por mais que os vampiros sejam admirados, é improvável que alguém acredite neles hoje em dia. Já em anjos... “A ideia de que todos nós temos proteção espiritual vem das origens do homem”, afirma o teólogo Fernando Altemeyer, professor de ciências da religião na PUC-SP. “A humanidade se sente órfã sem ter ninguém para ajudá-la, e em muitas culturas os protetores são descritos como homens alados.”
O apelo universal dos anjos faz com que eles se tornem personagens versáteis, capazes de agradar não apenas aos adolescentes, mas também a outros públicos, como os nerds ou os fãs de suspense. Enquanto os vampiros são definidos por sua sede de sangue (e, às vezes, seus esforços para contê-la), os anjos são criaturas mais complexas, cuja personalidade pode oscilar entre a bondade extrema – os anjos da guarda – e o ápice da maldade – os anjos caídos.
A riqueza da hierarquia angelical é explorada à exaustão por Spohr em seu livro. “A Batalha do Apocalipse” narra o confronto entre os anjos caídos e os exércitos celestiais durante o Apocalipse, desencadeado no ano de 2012. O protagonista é Ablon, um anjo renegado que não pode se juntar às tropas celestes, mas se recusa a servir a Lúcifer. A história é a premissa para uma série de batalhas e revelações em cenários conhecidos dos cariocas, como o Cristo Redentor e a Ponte Rio-Niterói. “Quis colocar o Rio de Janeiro no livro para me aproximar de meus leitores”, diz Spohr. “Achei que poderiam estranhar as paisagens cariocas em um livro de literatura fantástica, mas as pessoas gostaram.” O livro tornou-se um sucesso entre o público nerd, que chegou a ver semelhanças entre a trama de Spohr e obras como “O Senhor dos Anéis” e o filme “Highlander”. Antes de ser lançado, em julho deste ano, pela editora Verus, um selo que pertence ao gigante Record, o livro já havia vendido 4.500 exemplares pela internet, em uma loja on-line destinada ao público nerd. A história é semelhante à de Stephenie Meyer, autora de “Crepúsculo”, que lançou seu livro de forma independente antes de atrair a atenção das grandes editoras.
Os outros livros sobre anjos não ousam tanto. A maioria prefere seguir os passos de “Crepúsculo”, com tramas em que garotas se apaixonam por seus zelosos guardadores. Naturalmente, encontraram adeptas entre as fãs de “Crepúsculo”. “Depois de ler a série, elas acabam migrando para outros livros”, diz Laís Scrivani, dona de um fã-clube de “Sussurro”. Ela é uma entre milhares de garotas fisgadas pelo anjo Patch, personagem principal do livro. “Ele é um anjo, mas ao mesmo tempo é um bad boy. Não é antiquado como os vampiros.” Quem é mesmo Edward Cullen?
Embora a imitação tenha dado certo nesse caso, é uma estratégia perigosa: a fórmula previsível corre o risco de se esgotar, e é pouco provável que conquiste leitores que já não sejam fãs de “Crepúsculo”. Para que os anjos vençam os vampiros, é necessário criar novas histórias, como a de Spohr. Pela primeira vez desde que os seres fantásticos entraram na moda, os brasileiros estão na frente. (“A BATALHA DO APOCALIPSE - Da Queda dos Anjos ao Crepúsculo do Mundo” de Eduardo Spohr, romance, 586 págs, Verus Editora – 2010)

+ ENTREVISTA com a escritora Becca Fitzpatrick – “Os vampiros estão mortos”.
“Para a autora de ‘Sussurro’, os anjos devem muito às sanguessugas – mas vão roubar seu lu
gar mesmo assim.”
Muitos críticos e fãs dizem que "Sussurro" deve muito de sua fama ao sucesso de "Crepúsculo". Você concorda?
Becca Fitzpatrick – Acho que Crepúsculo fez muito pela literatura juvenil como um todo. Há sete anos, nunca conseguiria fazer com que uma amiga minha lesse um livro que estivesse na estante para “jovens adultos” em uma livraria. Agora isso é um lugar-comum, garotas da minha idade vivem lendo romances adolescentes. Já leram Crepúsculo e estão prontas para mais!
Por que você decidiu escrever sobre anjos?
Becca – Quando comecei a escrever Sussurro, sabia que Patch deveria ser um bad boy, mas com uma ressalva – ele não havia sido sempre assim. Queria um personagem que tivesse sido muito bom, mas por algum motivo tivesse mudado sua personalidade. Enquanto ruminava sobre isso, me lembrei da história do
s anjos caídos. Primeiro era uma metáfora, mas depois decidi transformar em algo literal. Achei bem apropriado. Afinal, os anjos caídos foram os primeiros bad boys de toda a história.
Por que as garotas gostam tanto de anjos, vampiros e outros seres paranormais?
Becca – Acho que todas as pessoas são fascinadas pela ideia de que o mundo não é exatamente como o vemos, de que existe algo mais para quem acredita, vai além e decide procurar. Se eu fosse adolescente, tenho certeza de que me apaixonaria pelos romances paranormais de hoje em dia. É uma maneira de escapar da realidade e explorar nossas paixões. Isso sim tem apelo. Nunca pensei especificamente em escrever romance paranormal. Minha ideia era escrever sobre os conflitos da adolescência, as histórias que vivi quando tinha essa idade.
Por que os anjos são os novos vampiros?
Becca – Os vampiros estão mortos! Eu sou do time dos anjos: prefiro que meus garotos estejam bem vivos (risos).


+ Faça download e leia trechos dos livros:
>>> Sussurro <<<
>>> Fallen <<<
fonte: Época

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