segunda-feira, 28 de março de 2011

JUDAS, TRAIDOR OU TRAÍDO?

“Vários religiosos – inclusive cientistas – lembram que não seria possível pretender que a ciência, limitada a observar fenômenos materiais, ou a religião usada até os dias de hoje como uma ferramenta de alienação, fossem os instrumentos adequados para avaliar os desígnios de Deus, ou a vida mal contada e forjada de Jesus.”

Por Elenilson Nascimento

Acho muito engraçado quando leio sobre esses ataques de ateus mais radicais que vai direto à base da fé. Eles questionam a existência de Deus, mas vejo que não se dão nem ao trabalho de pesquisar sobre o que estão questionando. Dizem que é uma hipótese. E improvável. E é justamente esse o argumento básico dos livros de autores como Fernando Savater, Daniel Dennett, Sam Harris e Richard Dawkins. Todos que eu adoro. E todos muito fundamentados.

E, agora, eu descobrir um outro livro na casa de uma amiga – dessas pessoas (*e professora) que compra livros para deixá-los em caixas – que questiona bem mais do que a fé cristã, mas toda a história transcrita no Novo Testamento. “Judas, Traidor ou Traído?” (Record) de Danillo Nunes é um livro devastador, instigante e, sobretudo, muito questionador, que vai de encontro a essa “onda” de contar a vida de Cristo de forma diferente, atribuindo-lhe um casamento que, mesmo se realmente aconteceu, em nada altera sua mensagem e presença na civilização ocidental.

E, agora, decifrado um manuscrito que teria sido um evangelho escrito por Judas, retorna como novidade a versão de que Judas não traiu Cristo como a Bíblia conta, pelo contrário, teria sido seu parceiro na história (*ou na lenda) da Redenção da culpa de Adão.

Essa ideia de Judas como “santo” não era tão estranha assim aos homens. Em 1387, o inquisidor Nicolas Eymeric pediu a cabeça de São Vicente Ferrer, por este ter afirmado que o arrependimento de Judas fora sincero e salutar. São Vicente só não foi para a fogueira por ter a proteção de um cardeal. Em 1394, uma vez eleito papa, sob o nome de Bento XIII, Pedro de Luna exigiu de Eymeric a entrega do dossiê e o queimou sem mais cerimônias. Por vias outras que não o arrependimento, Judas começa a fazer carreira como “eleito” do Senhor.

Para quem não sabe, antes mesmo de Renan, no século 19, já havia a teoria de que Judas teria sido necessário ao mistério que forma o eixo da religião cristã. E o autor Danilo Nunes, lançou esse livro em 1989, traduzido para o inglês, analisou com “farta documentação”, antes que os alienados e conformistas religiosos apareçam aqui me lançando direto nas fogueiras dos Inferno, a teoria de que Judas, desiludido com a passividade de Cristo em relação ao jugo de César, teria tramado a sua entrega aos romanos, o que acabaria se tornando um herói da causa nacional judaica.

A tradição de Judas nasceu nos primeiros anos de nossa era e coloca-o como traidor de um homem, ainda que em nome de uma causa. E foi como o pior traidor que passou à história. Traído em seus ideais de libertação de seu povo, ele traiu o homem de quem se fez discípulo. E apesar do título fazer referência ao apóstolo mais odiado de Cristo, Judas Iscariotes, conhecido dessa forma graças aos argumentos inimagináveis usados pela Igreja, condenado à execração eterna por deicídio, crime para o qual jamais haverá perdão, Nunes cita também todos os outros apóstolos e as histórias forjadas pela Igreja para exaltá-los e desqualificar o discípulo mais amado – a quem Jesus concedera o poder de realizar milagres e honrara com a sua confiança atribuindo-lhe a guarda das espórtulas – ao terrível gesto que o estigmatizou como o mais vil dos traidores.

Ainda hoje, podemos ver que vários estudiosos gastam seus esforços para elucidar outras perspectivas que remodelem a narrativa do texto bíblico. Sejam lá quais forem suas intenções, notamos que, vez ou outra, pesquisas inéditas colocam em xeque a validade de certas histórias que não só povoam a Bíblia, mas também fundamentam a crença de milhares de seguidores do cristianismo. Contudo, vários religiosos – inclusive cientistas – lembram que não seria possível pretender que a ciência, limitada a observar fenômenos materiais, ou a religião usada até os dias de hoje como uma ferramenta de alienação, fossem os instrumentos adequados para avaliar os desígnios de Deus, ou a vida mal contada e forjada de Jesus. E um dos raciocínios do autor para amparar o discurso ateu, adotado principalmente por mim, é que ficaria difícil acreditar num Deus diferente para cada religião. Se um católico acredita num Deus e um muçulmano acredita em outro, então um dos dois estaria errado. Outro argumento, lembrado também por Dawkins e citado no livro de Nunes, é o que ele chama de evolução da complexidade.

Ao fim da leitura do impressionante “Judas, Traidor ou Traído?”, chegamos à conclusão de que a clássica associação de Judas ao ato da traição simplesmente não correspondia aos fatos. Na verdade, Judas Iscariotes seria um importante elemento na execução das ações que transformariam Jesus no salvador da humanidade, como também o autor questiona a ausência de Maria, mãe de Jesus, na crucificação.

E dentro dessa perspectiva, o autor coloca que Judas não teria sido um executor consciente da trama que possibilitou a prisão e o julgamento de Jesus. No livro, o apóstolo aparece como um “servo dedicado”, que vislumbrava a ascensão social sendo um tipo de secretário do salvador, que se aproxima de um influente escriba para arquitetar o retorno seguro de Cristo à Galileia. Contudo, no momento em que beija seu mestre, acaba descobrindo que fora enganado por seus aliados e, dessa forma, viabiliza o posterior calvário do Messias.

Em contraponto a essa narrativa em “Judas, Traidor ou Traído?”, que concede inocência a Judas, o autor chama à atenção, argumentando que essa tradução do evangelho está cercada por erros. Um dos equívocos fundamentais, que desvalidam a versão redentora, gira em torno da tradução da palavra “daimon”. Com base na literatura platônica, este termo significaria espírito. Contudo, na literatura cristã, esse mesmo termo significa “demônio”.

Por meio dessa desambiguação, um trecho bíblico em que Jesus Cristo chama a atenção de Judas poderia ser traduzido das seguintes formas: “Tu, décimo terceiro demônio (ou espírito), por que te esforças tanto?”. Sem dúvida, fica clara a diferença de julgamento sobre a figura do apóstolo por meio desta única palavra. Mas afinal, seria possível dar um julgamento final sobre este debate?

Para o autor, não há como definir uma posição definitiva sobre o papel exercido por Judas na biografia messiânica. Na condição de humano, ele pode assumir posições diferentes que demonstram as incertezas de quem seguia um líder questionado por muitos. A título de comparação, podemos ver que essa mesma postura vacilante pode ser notada em Pedro – o apóstolo que negou a Cristo, mas também foi um dos mais importantes pregadores da fé cristã.

Para o autor, o gesto de Judas foi muito consciente. Quis não só punir Jesus por julgá-lo culpado de impostura, mas porque o julgava prejudicial à causa nacionalista de libertação dos opressores romanos. Se Cristo não tivesse sido condenado, provavelmente Judas o teria matado. Se conhecesse o juízo milenar e unânime da posteridade a seu respeito – conclui Danillo Nunes – quem sabe, tomado de horror, não exclamaria: “Meu Deus, eles julgam-me um traidor!”. Em suma, um livro incrível e merecedor de ficar na minha estante e na sua estante. (“JUDAS, TRAIDOR OU TRAÍDO?”, de Danillo Nunes, biografia, 315 pags., Rio de Janeiro, Record – 1989)

imagens: reprodução

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