Por Anna Carvalho
Esse documentário de João Moreira Salles abre as perspectivas da cena política naquilo que se parece com um ato de teatro, cênica, com passos marcados, com um candidato “dublê de ator”, um staff de pessoas responsáveis para a maquiagem do candidato, no caso Lula, e a sua patota petista (*muitos deles condenados pelo esquema do mensalão, José Dirceu, que merece depois uma análise a parte, Palocci, Guschiken e outros), todos muito a vontade com a campanha. Aí me pergunto: mas como o Lula não sabia do mensalão?
Por outro lado, o documentário serviu para exibir o “bastidor previamente autorizado” de um cidadão que ainda se apresenta sob prerrogativa do trabalhador, tão conveniente para uma massa que precisava colocar alguém da sua carne no poder, afinal essa era a “revolução”, gerando nesse bastidor um acúmulo político diante do povo que o elege como extensão da sua massa, da sua anistia por uma liberdade devassada e que se representada por alguém que venha dessa realidade, contudo esse alguém confidencia que não se acostumava a trabalhar de macacão, mas que adorava andar de terno, claro que numa evocação ao pai, enfim, blindar esse pensamento elitista ou elitizado diante de raízes afetivas.
Juntam-se, pois, no documentário alguém que, atuando a luz da câmera que está vermelha, se apresenta como alguém que está sendo o “companheiro”, que se ressente, por exemplo, de não ter andado na orla de Natal, que tomava gorós, muito distante da figura petista unilateral que se exibiu no fim do seu ato, ou seja, nessa “festa pobre” os convidados só são convidados entreatos.
Na verdade, me preocupa muito como esse povo que vê os bastidores da política do PT, não se afetar com algumas peças que já se provou serem executoras do esquema político mais sórdido do país: o mensalão, cabendo um adendo a José Dirceu, indiciado recentemente. Dirceu, na gravação de Moreira Salles, aparece como um cacique até tirano, desconfiando da equipe que gravava o documentário, cheio de reservas, insípido e braço direito do staff de Lula, o povo, esse ser convenientemente representado, mas como entidade ou como população que acompanha novela e fica acostumado a amenizar as coisas, viciado a não ser consciente e elegendo heróis, filhos do Brasil para representá-los.
Não falei da excelência incógnita da metalinguagem de um bastidor de eleição, Duda Mendonça, que dava passos para que, tal qual num Projac, as cenas ficassem convincentes, maquiadas, e me estendo à política, como o povo se costumou a ver o ato, e onde o “Entreatos” fica despretensioso em sua objetividade de demonstrar com lisura o bastidor da política desde a escolha da gravata de um candidato até o fechar das portas quando um José Dirceu tirânico se apossa de cuidados, sigilos, vergonha ou excesso de temor em lidar com bastidores, uma vez que nem tudo tem que ser demonstrado no ato, afinal filmava-se o bastidor da política.
Mas, o país caiu subordinado como moinhos de vento diante do herói meio Quixote, um filho do Brasil meio torto, onde dirigiu até gauche da existência de um povo acostumado a viver nas sombras, a não ser elegante, a ter uma atitude nada boçal diante do poder, despretensiosa, sem arrogância, mas tudo aquilo filmado quando a luz vermelha estava acesa: está gravando?
O documentário foi muito bom porque foi isento, sem qualquer parafernália clichê, onde mostra o quanto é grave a situação política do país (*leitura minha patenteada pela minha descrença na “Revolução Vermelha”), uma vez que, um partido se apresenta único, arrogante, unilateral, com ditaduras e conveniências, mas sob a conveniência de um representante audaz do povo e que parece autorizado por essa entidade a ser tirânico quando quis e bem entendeu. Essa licença dada pelo povo se estendeu no ato de uma Dilma representada para ser outra representante do povo.
Para finalizar, uma frase de Voltaire: “A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano”. A política enigmática daqueles que tiranizam com um toque populista, faz vítimas que até acreditam que Lula deixa o poder como pai dos pobres, mas a mãe dessa causa é uma pátria que vive esquecida sob uma democracia débil quando ela e ajuizada em nome da unanimidade de um povo descrente do “Entreatos”. (“ENTREATOS”, de João Moreira Salles, documentário, 117 min., Videofilmes – 2004). Abaixo, o Moreira Salles em entrevista conta sobre esse documentário ao jornalista Pedro Bial:
"Entreatos" é um documentário de 2004, dirigido pelo cineasta brasileiro João Moreira Salles, sobre os bastidores da campanha política de Lula em 2002. O filme mostra os últimos dois meses, ou melhor, os últimos 40 dias do Lula antes de ser presidente do Brasil, ou seja, a disputa já estava bem definida quando o João chegou para filmar. E como havia possibilidade dele ganhar no primeiro turno, as filmagens foram adiantadas. Apesar das autorizações prévias, a equipe ainda tinha que negociar diariamente nova autorização para as filmagens. Difícil acreditar que isso não aconteceria. Logo, temos apenas imagens que não comprometeriam a imagem do Lula, muito mais difícil é acreditar que a liberdade seria tanta, que não precisariam ter uma acessória de imprensa que “filtrariam” as imagens depois. Mesmo que o João diga o contrário, como ele já disse.
>>> Agora, aproveite e baixe esse filme/documentário “encomendado” que revela os bastidores de um momento histórico através de material exclusivo e policiado, como conversas privadas, encontros familiares, reuniões estratégicas, telefonemas, traslados e gravação de programas eleitorais. Foram 240 horas de registro em vídeo. Todo material filmado era imediatamente guardado em cofres; nenhum fragmento foi divulgado até a finalização do filme, já em 2004. Na edição, os realizadores concentraram-se nas cenas mais reservadas da campanha, aquelas testemunhadas apenas pela equipe do filme. Dados do arquivo - diretor: João Moreira Salles; áudio: português; duração: 117 min.; qualidade: DVDRip; tamanho: 700 MB/700 MB e servidor: Rapidshare/Megaupload (8 partes/1 parte):
fonte do download: Neo/V. veja/Laranja Psicodélica
fotos: divulgação


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