quarta-feira, 20 de julho de 2011

O REINO MÍSTICO DOS PINHEIRAIS

No cerne de todo o enredo está a terra, identificada misticamente com o coração e suas mais profundas e ancestrais paixões, a luta pela vida, o alimento, o amor, o abrigo, o sexo.”

No livro “De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso”, o escritor uruguaio Eduardo Galeano diz o seguinte: “A desigualdade perante a lei é o que fez e continua fazendo a história real, mas a história oficial não é escrita pela memória e sim pelo esquecimento. Bem o sabemos na América Latina, onde os exterminadores de índios e os traficantes de escravos têm estátuas nas praças das cidades e onde as ruas e as avenidas costumam levar os nomes dos ladrões de terras e dos cofres públicos.”

A Guerra do Contestado é um dos eventos da história brasileira que mais confirmam a velha máxima de que a história é contada pelos vencedores. Não só porque os vencedores deixaram sua versão impressa nos jornais e livros, como também pelo fato que o lado “perdedor” do conflito foi de tal modo calado perseguido e discriminado nas décadas que se seguiram, que o resultado foi um silêncio envergonhado como acontece com tantas vítimas de crimes que acabam se convencendo, de forma distorcida, de que eram os culpados.

Esse conflito, onde mais da metade do exército brasileiro esteve envolvido, onde foram mortas mais de 10 mil pessoas e os revoltosos chegaram a dominar uma área equivalente ao estado de Alagoas, merece uma atenção histórica um pouco maior. Principalmente porque ele representa a guerra de duas formas de pensar e viver em choque, dois mundos, duas metades de um mesmo Brasil se formando, de um mesmo coração. Enquanto o mundo republicano, positivista, científico, rico, urbano e litorâneo se expandia brandindo o mote “Ordem e Progresso”, milhões de caboclos que viviam num mundo ligado à terra, ao ritmo da natureza, ao misticismo e às atividades de subsistência viam sua forma de existir sucumbir sem deixar alternativas.

Sem saída, a civilização cabocla, como aconteceu em Canudos décadas antes, apegou-se às promessas místicas de um novo reino que viria para restaurar seu modo de vida. Os monges sertanejos, as virgens que tinham visões, as rezas, cultos, benzeduras e crendices foram atraindo e juntando esse povo sem perspectiva, espalhado pelo planalto catarinense e o sul do Paraná. Sem ser compreendidos e aceitos pelo novo mundo progressista, acabaram sendo agredidos e a resposta foi o acirramento do fanatismo e a explosão descontrolada da violência.

O romance “O Reino Místico dos Pinheirais” procura contar esse conflito acompanhando tudo pelos olhos de personagens de ficção. São irmãos que, por um acontecimento trágico cercado de misticismo, são obrigados a dividir o mesmo coração. Ainda jovens, a vida os separa e eles acabam tomando lados diferentes na Guerra. Cada um tem sua visão objetiva das razões e argumentos dos diferentes lados envolvidos e eles terão que conviver com todo o processo difícil que virá e ainda resolver os seus conflitos pessoais, naturais ao ser humano.

A alegoria do coração dividido é uma forma também de comparar o coração humano à terra, com seus mistérios, ritmos, riquezas e humores. A terra que dá a vida, que fascina, que faz tudo crescer e que um dia novamente engole tudo para reprocessar e continuar o ciclo. Tanto que hoje vivemos um momento oposto ao que ocorreu no final do Século XIX e início do Século XX. Vivemos um momento de reencontro das coisas da natureza, do misticismo, da compreensão de que a ciência não pode dar, nem podem ser cobradas dela, as respostas para tudo.

É um momento também de refazer caminhos, de oferecer releituras, de tentar restabelecer equilíbrios e buscar Justiça onde grandes crimes foram cometidos no passado.

O “Reino Místico dos Pinheiras” faz essa leitura do que ocorreu naquele período e faz paralelos com o momento que vivemos agora, através dos questionamentos dos personagens que buscam suas próprias respostas possíveis. Respostas que tornem viável a existência num mundo em convulsão, que dêem sentido às buscas a que cada um é impulsionado pelo seu próprio coração. (“O REINO MÍSTICO DOS PINHEIRAIS”, de Wilson Joel Leal Gasino, 212 págs, ficção, Scortecci Editora, 1ª edição – 2011)

* Resenha enviada pelo próprio autor.

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