Por Elenilson Nascimento
Finalista do Prêmio Jab
uti, essa coletânea "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século" (*gigante, de 615 páginas) organizada por Ítalo Moriconi, pautada por critérios não muito definidos, mas que poderíamos induzir que o que contou mesmo foi a fama dos seus autores, mesmo que muitos tenham alto nível e representem muito bem a nossa produção, ainda acho que a repetição de alguns autores demonstrou a falta de pesquisa na inclusão de outros menos famosos, mas valeu por apresentar uma galeria de textos (ficção curta) há muito esquecidos ou ainda não descobertos.
Coube ao professor Moriconi o desafio lançado pela editora Objetiva de garimpar os cem melhores textos do gênero produzidos no Brasil ao longo do século 20. Um trabalho que deixasse de lado os rígidos critérios acadêmicos e fosse pautado somente pela qualidade e sabor dessas pequenas obras-primas. O resultado é interessante: um passeio pela mais deliciosa e contundente ficção curta produzida no Brasil entre 1900 e o fim dos anos 90. “A seleção aqui apresentada reflete um olhar compromissadamente contemporâneo, mesmo quando volta-se para os clássicos do início do século e da fase modernista”, escreveu Moriconi na apresentação de uma antologia que tenta traduzir as mudanças do país e as inquietações de várias gerações de brasileiros, em cem anos de produção literária. A prova de que a arte do gênero não cessa de melhorar em nossa literatura.
O livro é dividido em sete capítulos, por períodos históricos, precedidos de nota introdutória apresentando os traços mais característicos de cada período: os diferentes caminhos da literatura no início do século; a consagração do modernismo nos anos 40 e 50; os conflitos de identidade dos anos 60; a violência da vida urbana dos anos 70; a exploração sem censura do corpo dos anos 80; a criativa irreverência dos anos 90, os quais “tentarei resenhar” todos os cem contos (*é muita coisa viu!), num exercício cuidadoso de aprendizagem e devoção à literatura.
Durante o trabalho de seleção dos contos, Moriconi se deparou com algumas constatações. Entre elas a de que o Brasil produz um dos mais bem acabados contos do mundo, e que eles só melhoram com o passar do tempo. “Tenho a convicção de que a imensa maioria destes cem contos vai vencer o tempo e continuar recebendo o mesmo nível de reconhecimento e aclamação que aqui lhes é conferido”.
Devido ao tamanho desse livro, também vou dividi-lo aqui no COMENDO LIVROS em capítulos, essa divisão em seções permite também que os leitores mexam-se e acompanhe a ordem linear da leitura. Essa primeira parte resenhada reúne contos publicados entre 1900 e a década e 1930. Portanto, vamos ao trabalho:
1. A antologia c
omeça com o fundador da ABL, Machado de Assis, no conto “Pai contra mãe” – leia-o aqui, que narra o drama da escravidão no Brasil. A estória de Cândido Neves, um cara pobre de 30 anos, que não tem uma profissão certa e, por ter que sustentar a jovem esposa grávida, a Clara, passa a trabalhar como “capitão do mato”, caçando escravos fugidos. Depois do nascimento do filho, a tia Mônica sugere ao casal que levem a criança à Roda dos enjeitados. No caminho para a Roda, Cândido vê uma escrava fugida, captura a mulher e recebe uma gorda recompensa, podendo então manter seu filho em casa. Acontece que a escrava capturada estava grávida, e terminou abortou por medo dos castigos que iria receber pelo seu dono. Ficando, então, da amarga ironia de vida do filho de Cândido ter custado a vida do filho da escrava. Nesse final se justifica o título do conto Pai (Cândido) contra a Mãe (escrava fugida).
2. O segundo conto é “O bebê de tarlatana rosa”, de João do Rio – leia-o aqui. O autor narra uma conversa informal entre Heitor de Alencar, o barão Belfort, Maria de Flor e o doce Anatólio sobre o Carnaval. “Não há quem não saia no Carnaval disposto no excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias”. E, com esse pensamento, Heitor confessa ter ficado atraído por “um bebê rosa, de nariz postiço” que, antes que alguém acuse o “autor defunto” de pedofilia, numa época em que essa palavra nem existia, vou logo explicando: na verdade, o tal bebê era uma anã sem nariz, com a qual o pobre Heitor quase chegou aos finalmente, em plena algazarra da festa momesca, onde os homens se fantasiavam de mulheres para “acanalha-se”. “Por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes...”. Heitor leva a anã para uma rua escura e começa a beijá-la, sente que ela tem um nariz postiço da fantasia, pede para tirá-lo e o “bebê” diz não. Mas Heitor insiste e, enquanto a beija vorazmente, arranca o nariz postiço e vê “uma cabeça estranha, cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma caveira com carne...”. Quando chega em casa percebe em sua mão “uma pasta oleosa e sangrenta”. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa. Achei esse conto bizarro!
3. “A nova Califórnia”, do excelente Lima Barreto – leia-o aqui, é uma crítica à ganância, uma deliciosa narrativa satírica em que a cupidez, a ignorância e o ridículo do comportamento nacional andam lado a lado. Lima Barreto, excelente como sempre, parodia o enredo dos antigos relatos sobre a "corrida do ouro", nos Estados Unidos do final do século XIX. O autor monta um cenário em que, além da crítica universal ao comportamento humano, ressalta a pobreza de imaginação e falta de criatividade do homo brasilicus. Um químico misterioso chamado Raimundo Flamel aparece na cidade de Tubiacanga e faz uma experiência na qual transforma ossos humanos em ouro. Ele convida três testemunhas (um farmacêutico, um fazendeiro e o coletor) para o ato, e depois desaparece da cidade. Então, os túmulos do cemitério da Tubiacanga começam a ser violados. Quando depois de um escândalo prendem dois violadores (*o fazendeiro e o coletor), duas das testemunhas da experiência alquímica, os dois revelam que havia um terceiro violador: o farmacêutico. Revelado o tal mistério, as pessoas vão para suas casas, cada uma delas com o pensamento voltado para um só objetivo: a riqueza fácil que resolveria de imediato todos os problemas. Sorrateiramente os habitantes dirigem-se ao cemitério e buscam reunir a maior quantidade possível de ossos para produzir ouro. As
máscaras são desvendadas, cada um com sua essência desprezível, reprovável e nem sequer sonhada pelos demais. O que acontece é uma carnificina que deixa no cemitério, em uma noite, mais mortos que nos 30 anos anteriores. O tumulto termina em baderna, agressão e mortes. O único a escapar do ridículo da situação é o bêbado contumaz de Tubiacanga que, embriagado com o álcool, não se dá conta ou não quer se envolver em algo tão mesquinho e rigorosamente material. O farmacêutico foge sem revelar o segredo de se transformar ossos em ouro. Lima Barreto antecipava a postura jocosa e irreverente do início do movimento modernista e escreve um texto atraente, bem urdido e com uma fabulação que prende o leitor do princípio ao fim, numa linguagem corrente e de fácil assimilação. P.S. Eu acho que com tantos contos maravilhosos do Lima, esse foi o escolhido porque a novela global “Fera Ferida” foi “inspirada” nele, além dos livros “Clara dos Anjos” e “O Homem que sabia javanês”, todos baseados em tramas e personagens do Lima. A novela foi exibida de 15 de novembro de 1993 a 16 de julho de 1994, teve 221 capítulos e foi dirigida por novela de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares.
4. Um segundo conto de João do Rio escolhido para o livro foi o “Dentro da noite” – leia-o aqui. Esse, contudo, é extremamente denso. Um diálogo muito confuso entre Rodolfo e Justino sobre uma tal de Clotilde. O segundo pergunta o motivo do rompimento do noivado de Rodolfo com Clotilde, jovem bela que então só vivia chorando. Rodolfo então explica que fora obrigado a terminar o compromisso com a moça depois de os pais descobrirem suas tendências sádicas. O cara era tarado em ficar enfiando agulhas no braço da moça, e ela vendo que a “perturbação mental” do rapaz só diminuía com a satisfação daquela tara, resignada consentia. Depois de descoberto, Rodolfo é obrigado a terminar o noivado e passa a pagar prostitutas para satisfazer seu sadismo (“Dei então para agir livremente, ao acaso, sem dar satisfações, nas desconhecidas.) e ainda conversando com Justino num vagão de metrô revela que ultimamente andava a escolher suas vítimas na rua, e quando uma loura embarcou noutro vagão, Rodolfo deixa-o para persegui-la. Muito confuso esse conto!
5. Em contrapartida, o conto “A caolha”, de Júlia Lopes de Almeida – leia-o aqui, é emocionante. A autora conta a estória de uma mulher repugnante, sem o olho esquerdo e que vivia a soltar pus da cavidade ocular vazia. A caolha tinha um filho – Antonico – que desde cedo sofria humilhações por causa do defeito da mãe – era chamado “o filho da caolha”. Quando criança Antonico abraçava e beijava a mãe, mas com o tempo passou a ter nojo e vergonha dela. Depois de ser muito humilhado na escola (*os coleguinhas viviam gritando: “Lá vem o filho da caolha! Lá vem o filho da caolha! Lá vem o filho da caolha!”) e nos empregos por que passava (*bullying?), acabou indo trabalhar como alfaiate, arranja uma namorada, uma moreninha linda, que lhe impõe como condição para que se casarem que o rapaz abandone sua mãe. Quando Antonico vai comunicar sua saída de casa, inventando uma necessidade de trabalho, a mãe o expulsa dizendo saber que ele tem vergonha dela. Arrependido, no dia seguinte, Antonico procura a madrinha, única amiga da caolha, para que interceda em seu favor junto à mãe. A madrinha o leva à casa da caolha e revela o que sempre a mãe ocultava ao filho. Não vou contar aqui! Mas, ao saber, o Antonico desmaia e a mãe lamenta. Emocionante!
6. “O homem que sabia javanês” – leia-o aqui – foi um outro conto de Lima Barreto escolhido para essa antologia. Um relato satírico sobre o “Brasil imbecil e burocrático”, uma medida exemplar do extraordinário talento (*pouco ovacionado nas escolas e na própria ABL – seria por causa da cor da pele?) de Lima como contista. E também de sua modernidade, apesar de ser um trabalho datado, o tema continua atualíssimo. O conto é um relato do Castro a um amigo “embevecido” sobre uma das espertezas que usou para sobreviver: fingir saber javanês e ensiná-lo. Mas um brasileiro, este nascido em Canavieiras, Bahia, levando vantagens em cima da ignorância dos outros. Mas, afinal, quantos de nós já não nos deixamos impressionar pelo difícil palavreado de um médico, que parece guardar nossa salvação ou condenação? Ou por um advogado que, por mais que essa classe seja repleta de seres repugnantes, acha que detém a sabedoria do universo? E o que dizer da estranha língua em que os economistas, psicólogos, sociólogos, evangélicos e demais grupinhos tentam justificar a pobreza do país? Político tem de falar bonito, o que muitas vezes equivale a falar difícil. E muita gente não entende, mas respeita. Principalmente porque não entende. E é exatamente isso que o Lima trabalha num dos seus melhores contos. Castro, respondendo a um anúncio de emprego, logo aprende o alfabeto javanês e meia dúzia de palavras e pôs-se a ensinar a um velho rico Senhor Barão de Jacuecanga, neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou o Pedro I, que o contratou; logo já “lia” em javanês para o velho (que desistira de aprender). E a fama se espalha e Castro acaba até nomeado cônsul e representando o Brasil em uma reunião de sábios; dando palestras e publicando pelo mundo sobre Java. No final do conto ainda estava em cargos consulares por “saber” javanês. Em suma, o conto é uma crítica aos médicos, economistas, políticos e seus "códigos secretos" – quem há de negar que são homens cultos a quem essa sabedoria, embora traduzida de maneira incompreensível à maioria, garante respeito, autoridade, poder? Novamente, é o Lima se superando!
7. “Pílades e Orestes”, mais um conto de Machado de Assis, leia-o aqui. O mais interessante deste trabalho é que eu o achei muito parecido com o livro “Dom Casmurro”. Aquela coisa de triângulo amoroso, mas que, na realidade, aborda sobre uma estória homoerótica, porque ninguém até hoje não me convenceu que Bentinho tinha aquele ciúme todo só por causa da Capitu, uma moça com “longos olhos mortais” (*de ressaca iguais aos de Capitu?). Já em “Pílades e Orestes”, o autor repete-se os mesmos argumentos da sua obra mais conhecida. O Quintanilha e o Gonçalves eram como “carne e unha”, “alma gêmea” (*vide Fábio Jr.), amigos inseparáveis, mas, na verdade, o primeiro travava o segundo como um pai/irmão, ou até mais. Quintanilha (“...era mui sensível a qualquer distinção...”) tinha por Gonçalves verdadeira adoração, brigou com sua família por causa do amigo, emprestava-lhe dinheiro, ajudava-o em seu trabalho, dava-lhe presentes. Até que um dia Quintanilha se apaixona por uma prima chamada Camila. Quando vai revelar isso a Gonçalves, percebe que o amigo também amava Camila (*mais isso, em momento algum no conto, é revelado, mas sugerido) e mesmo sofrendo desiste de seu amor em favor do amigo. Confuso, até se dizer chega! Camila e Gonçalves casam e Quintanilha torna-se padrinho dos filhos do casal. Aparentemente, o autor sugere que os dois amigos passam a ter uma vida dupla. No final, Quintanilha morre, atingido por uma bala perdida (* “O RJ contínua lindo...!”), como se isso fosse uma punição ao personagem por alimentar tal “amizade”, como numa lição (desnecessária) de moral do Machado: “A alma humana é capaz de esforços grandes, no bem como no mal”. Em sua lápide a simples frase: “Orai por ele!” O título remete à mitologia grega (*amor grego?).
8. “Contrabandista”, de João Simões Lopes Neto – leia-o aqui. Esse é um dos textos mais fracos de toda a antologia, e cheio de regionalismo. O autor narra a estória de um capitão de contrabandistas no Rio Grande do Sul, descrevendo a figura de Jango Jorge, um estancieiro com aproximadamente 90 anos, cuja atividade sempre foi a de contrabandista. Narrado em 3ª pessoa, escrito numa linguagem “gaúcha” (*o que o torna, muitas vezes, com uma estrutura incompreensível), marca de seu autor, repleto de coloquialismos, neologismos e expressões regionais. Jango Jorge é um gaucho valente, jogador inveterado, que quando ganhava no jogo distribuía as moedas aos filhos no terreiro. A filha de Jango, uma bela jovem em idade de casar, já estava noiva, e certa madrugada Jango sai para buscar o enxoval da filha, o que não de costume, pois geralmente os enxovais das noivas eram confeccionados em casa. Aí começa um emaranhado de lembranças de fatos históricos ocorridos no Rio Grande do Sul: a tomada das Missões, provocação dos inimigos na fronteira, cavalos e bois que eram trazidos pelos espanhóis, campos desabitados que foram divididos e povoados e que cada estancieiro fazia a sua lei para proteger a sua propriedade. Achei tudo muito confuso! Mas deu para perceber que o gaúcho, o cavalo e o facão faziam a lei de proteção dos pampas ocupados, e quem governava o Rio Grande era um “capitão-general”, encarregado de distribuir as sesmarias e somente ele, tinha o poder de usar armas de fogo, até mesmo o baralho com que os gaúchos jogavam eram produzidos e fiscalizados pelo rei, a quem toda a gauchada devia obediência. E entre flashbacks e referências à história do Brasil e do Rio Grande (*Farrapos, Paraguai) conta-se a estória de Jango Jorge, homem velho e valente que daria uma festa de casamento à sua filha, mas quando todos esperavam no dia seguinte pelo vestido, chega Jango Jorge em seu cavalo, estava baleado. No momento em que tiram-no do cavalo percebem que ele trazia o vestido branco da filha manchado com o seu sangue. “Ninguém perguntou nada, ninguém informou de nada; todos entenderam tudo...; que a festa estava acabada e a tristeza começada...” A festa acabou antes de começar, e vestido da noiva, o véu, os sapatos e as flores de laranjeira haviam se transformado numa plasmada de sangue. 9. Já o conto “N
egrinha” talvez seja o mais polêmico nessa antologia e em toda obra de Monteiro Lobato – leia-o aqui. Recentemente o nome de Lobato foi envolvido em notícias dignas de páginas policiais: após o governo (*inteligente brasileiro), mesmo sem ter lido nada, pedir para o livro "Caçadas de Pedrinho" ser vetado por suposto racismo, o Ministério da Educação decidiu – inacreditavelmente – dar aos professores outro livro ensinando a ler Lobato sem "julgamentos". Ou seja, como vivemos numa época do “politicamente correto”, um autor que cair no pecado de escrever sobre uma “menina negra”, chamando-a de “Negrinha”, quer mesmo que comprar briga com todas as ONGs, além de terminar sendo crucificado pela opinião burra pública. Esse conto do Lobato é narrado em 3ª pessoa, impregnado de uma carga emocional muito forte, cheio de cenas violentas, mas, sem dúvida, um conto invejável: "Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças", começava Lobato. Mas a figura da D. Inácia, uma viúva gorda, rica, dona do mundo, animada dos padres, sem filhos e que não suportava choro de crianças tem uma função importante nesse conto. Se Negrinha, ainda bebezinho, chorava nos braços da mãe, a gorda rica gritava: "Quem é a peste que está chorando aí?" A mãe, desesperada, abafava o choro do bebê, e afastando-se com ela para os fundos da casa, torcia-lhe beliscões desesperados. O choro não era sem razão: era fome, era frio: "Assim cresceu Negrinha magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a ideia dos grandes”. A menina nunca tivera uma palavra sequer de carinho e os apelidos que lhe davam eram os mais diversos: “pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo”. Foi chamada até de “bubônica”, por causa da peste. O pobre corpo da Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam
nele todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Uma vez, uma criada furtou um pedaço de carne do prato de Negrinha e a menina xingou-a com os mesmos nomes com os quais a xingavam todos os dias: “Peste!”. Sabendo do caso, D. Inácia tomou providências: mandou cozinhar um ovo e, tirando-o da água fervente, colocou-o na boca da menina. Não bastasse isso, amordaçou-a com as mãos, o urro abafado da menina saindo pelo nariz... Isso me fez lembrar a minha vó, que também já usou esses artifícios com os meus tios. Mas, num certo dezembro, vieram passar as férias na fazenda duas sobrinhas de D. Inácia: lindas, reconchudas, brancas, louras, "criadas em ninho de plumas". E Negrinha viu-as irromperem pela sala, saltitantes e felizes, viu também D. Inácia sorrir quando as via brincar. Interrogada se nunca havia visto uma boneca, a menina disse que não... e pôde, então, pegar aquele “serzinho angelical” pela primeira vez na vida. Então, Negrinha tomou consciência do mundo e da alegria, deixara de ser uma coisa humana, vibrava e sentia. Mas se foram as meninas brancas, a boneca também se foi e a casa caiu na mesmice de sempre. Sabedora do que tinha sido a vida, a alma desabrochada, Negrinha caiu em tristeza profunda e morreu, assim, de repente: "Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos...” No final da narrativa, Lobato nos alerta: “E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas: ‘-Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?’ Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia: ‘Como era boa para um cocre!...’” É interessante considerar aqui algumas coisas: em primeiro lugar o tema da “caridade azeda e má”, que cria infortúnio para os dela protegidos, um dos temas recorrentes de Monteiro Lobato; o segundo aspecto que poderia ser observado é o fenômeno da epifania, a revelação que, inesperadamente, atinge os seres, mostrando-lhes o mundo e seu esplendor. Um conto maravilhoso de um autor limitado no estigma de apenas “autor infantil”. Em suma: é a epifania que se realiza, mostrando-lhe o mundo do riso e das brincadeiras infantis das quais Negrinha poderia fazer parte, se não houvesse a perversidade das criaturas.
cega”, de João Alphonsus – leia-o aqui. Dentre os mais diversos animais, parece ser esta ave galiforme, fasianídea, chamada galinha, a preferida dos escritores brasileiros. E este destaque torna-se tão proeminente ao observarmos que dois contos que as têm como personagens centrais estão inseridos nessa antologia. “Uma galinha”, a ser resenhado posteriormente, de Clarice Lispector e “Galinha cega”, de João Alphonsus, tem o galináceo como centro das atenções. Fora que, lendo o segundo conto, não consegui deixar de lembrar da sensacional animação “A fuga das galinhas”, que tem toques do realismo fantástico, narrado em 3ª pessoa, e que conta a estória de um pobre carroceiro que nutria um profundo amor pelos animais. Um dia ele descobre que sua galinha predileta tinha perdido a visão e passa a cuidar da pobre criatura com grande afeição. Tempos depois, o carroceiro passa a dar-lhe de comer e beber pessoalmente. Certo dia, crianças brincam de chutar a galinha e o carroceiro as chicoteia. Um dos meninos é filho do delegado e o dono da galinha é preso. Voltando pra casa, vê que a sua galinha fora estrangulada, pergunta à mulher quem fora e ela diz ter sido um gambá. Após esbofetear a mulher por não ter defendido sua galinha, o carroceiro é preso outra vez. Depois de sair da prisão, o carroceiro arquiteta a sua vingança contra o gambá. Faz uma armadilha deixando cachaça para o animal. À noite quando finalmente está diante do gambá embriagado e pronto para a vingança, o carroceiro deixa o animal ir embora. Podemos concluir que a galinha do Alphonsus é muito resignada, mansa e pacífica. A ela, bastaria a vida que levava, ocasionalmente visitada pelo galo de asas brancas. Era feliz, independente do fim que a aguardasse. Fim comum a tudo e a todos. Escrito em uma linguagem simples e poética, “Galinha cega” fala também de uma amizade sem limites e é considerado um dos mais belos contos da literatura brasileira, mesmo eu tendo as minhas reservas. Mas se essa estória sobre uma ave de alguma forma criou empatia com o organizador da antologia, ressalta como tão necessária ao texto literário, é porque, de algum modo, nela vemos um pouco da nossa própria história, cegos que somos quanto aos desígnios que nos são impostos, postergando indefinidamente a resposta às perguntas que nos atormentam acerca do enigma da vida, seja ela humana ou animal. 11. “Gaetaninho”, de Alcântara Machado – leia-o aqui. Também narrado em 3ª pessoa, onde o autor conta uma estória sobre Gaetaninhio, um jovem que sonhava sempre em ir na frente de um cortejo fúnebre; mas, atropelado por um bonde, acaba realizando, morto, seu sonho. Um conto mórbido, pois o simplório sonho do menino era apenas andar de automóvel ou carro. Sonho de muitos outros meninos pobres; mas isso, ali na rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. Mas em um sonho trágico de Gaetaninho, muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas vendo o enterro, sobretudo admirando o rapaz, que queria ir carregando o chicote. Contudo, o desgraçado do cocheiro não queria deixar. Quando Gaetaninho pensa em reagir é acordado com os gritos da tia Filomena. Isso o deixa desapontado. A tia teve um ataque de nervos. Este sentiu remorsos. Os irmãos revolveram jogar no elefante. Deu vaca. E observamos na obra do Alcântara Machado, como traço mais característico o uso de expressões italianas para marcar a influência da imigração e da miscigenação racial na constituição da sociedade paulistana. Ainda neste conto, notamos um certo valor social presente no desejo de Gaetaninho de andar de automóvel e ser admirado pelas pessoas, valor que talvez fosse associado como representação da elite, do status econômico. O final do conto é surpreendente, tanto pela rapidez com que se dá a morte de Gaetaninho, quanto pela ambiguidade, o que garante, para um final que parecia ser trágico, um caráter cômico. “No dia seguinte, às dezesseis horas, saiu o enterro. E Gaetaninho ia na boléia do carro da frente, dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima.”
12. “Baleia”, de
Graciliano Ramos – leia-o aqui. “Baleia” é um dos capítulos da excelente obra “Vidas Secas”. A estória começa com a fuga de uma família pobre da trágica seca do sertão nordestino: Fabiano, o pai, Sinhá-Vitória, a mãe, os dois filhos (*que não têm nomes no livro) e a cachorra Baleia. Fabiano é um vaqueiro, homem bruto que tem enorme dificuldade em articular palavras e pensamentos, que se sente um bicho e, muitas vezes, age como tal, grunhindo e se portando como um selvagem. Nesse capítulo, o autor narra a morte de
Baleia, onde Fabiano se vê na árdua tarefa de sacrificá-la. Fere o pobre bicho com um tiro, mas não consegue matá-lo, já que este foge para longe. Baleia vem a falecer durante a noite, perto da casa, sonhando com um mundo cheio de lebres: “Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes”. Muito triste esse texto, pois a cachorra parece ter um pensamento mais linear e humano que o resto da família, portando-se não só como um bicho, mas como um ser humano, uma companheira que ajuda Fabiano e sua gente a suportar as péssimas condições.13. “Uma sen
hora”, de Marques Rebelo. Esse é mais um conto sobre Carnaval, anteriormente também publicado na antologia “Histórias de Carnaval”, organizada por Adilson Miguel. O autor narra os preparativos de Dona Quinota, uma empregada doméstica, casada com seu Juca e mãe de Élcio, Élcia e Elcina (* “...o que atesta bem a força do marido...”) . Trabalha o ano todo, junta dinheiro no Banco Popular, para extravasar no Carnaval. A festa é o único momento em que Quinota esbanja e vive intensamente, fantasia a si e à família e aluga até um carro para desfilar. Após o término do baile, o vizinho invejoso, Adalberto, pergunta se os vizinhos se divertiram e Quinota responde “assim, assim”, mas na verdade Quinota apenas esconde sua realização da inveja do vizinho. O conto termina com a indignação de Quinota diante do resultado de um concurso de blocos. Achei esse conto demasiadamente fraco!
fotos: divulgação




1 comentários:
CORREÇÕES:
1. Substituir: “Depois do nascimento do filho, a tia Mônica sugere ao casal que LEVEM a criança à Roda dos enjeitados.” por “...sugere ao casal que LEVE a criança à Roda dos enjeitados.”
Substituir: “Acontece que a escrava capturada estava grávida, e terminou ABORTOU por medo dos castigos que iria receber pelo seu dono.” por “...e terminou ABORTANDO por medo dos castigos que iria receber pelo seu dono.”
3. Substituir: “A novela foi exibida de 15 de novembro de 1993 a 16 de julho de 1994, teve 221 capítulos e foi dirigida por NOVELA DE Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares.” por “...foi dirigida por Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares.”
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