terça-feira, 26 de julho de 2011

OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO (Part 5)

“Ao contrário do que foi escolhido nessa antologia, tem sido efervescente nos últimos anos, dentro de algumas universidades, a quantidade de estudos do resgate da literatura de negros, de autoria feminina, de homossexuais e de regiões distantes e esquecidas do Brasil.”

Por Elenilson Nascimento

A literatura ainda exerce algum tipo de papel catalisador na cultura e no espaço público nos dias de hoje, visto os últimos lançamentos de autores considerados “muitos bons”? Esta foi a pergunta que me veio à cabeça depois de ter mergulhado no quinto capítulo sobre os anos 80 da antologia "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", organizado por Ítalo Moriconi.

Tantas polêmicas foram causadas há tempos atrás no circuito literário, pela agressividade irônica com que alguns desses autores se posicionaram. Se nos anos 80, houve um certo retorno do romance, os contos não deveram nada. Mas é justamente nesta época que saltaram às prateleiras produções como as do maravilhoso Caio Fernando Abreu e Sérgio Sant`Anna, pois, logo a partir do início dos anos 80, verificou-se um começo de “normalização” na vida democrática do país. No entanto, essas condições adversas não serviram para mergulhar o Brasil numa calmaria cultural, muito pelo contrário, os anos 60 e 70 foram de farta produção cultural em todos os setores.

Segundo Moriconi, na apresentação do capítulo: “Forças liberadas desde os anos 60 encontram aqui seu momento paradoxal de clímax e crise. A geração que fez a revolução sexual agora coloca no papel suas histórias. Explode o erotismo feminino. As grandes metrópoles fornecem cenários para as aventuras do corpo. As trocas sociais, no contexto totalmente urbanizado e erotizado, são roteirizadas pela cultura da mídia, cuja língua internacional é o inglês. Emerge a problemática homossexual. Mas a década que começou eufórica termina cética e deprimida por causa da Aids e da crise dos ideais coletivistas. Sensações de fracasso e vazio parecem anunciar um fim de século melancólico”.

Até hoje muitas listinhas andam criticando livros lançados por nomes respeitáveis da nossa ficção e poesia deste período, talvez porque nunca se gritou tanto por liberdade. Senti muita falta nessa antologia de nomes como Sebastião Uchoa Leite, João Gilberto Noll, Nicolás Guillén, além de vários autores que foram imortalizados na coleção de livros da “Série Vaga-Lume”.

Outra coisa que me chamou a atenção nessa antologia “encomendada” foi que desde a década de 50 um problema que permanece vivo até hoje no Brasil: o desequilíbrio em todos os aspectos entre os centros culturais e as regiões mais longínquas do país. Ou seja, aquilo que os “editores” e “críticos” consideram como coisas boas geralmente são produzidos na ponte Rio-São Paulo. Mas, felizmente, ao contrário do que foi escolhido nessa antologia do Moriconi, tem sido efervescente nos últimos anos, dentro de algumas poucas universidades brasileiras, a quantidade de estudos e pesquisas de resgate da literatura de negros, de autoria feminina, de homossexuais, de regiões distantes e esquecidas do Brasil, como Acre, Roraima, Minas Gerais, Bahia e Rondônia, por exemplo. E um grande erro dessa antologia foi não ter feito nenhuma menção para a Carolina Maria de Jesus, uma catadora de papel que viu escritora muito famosa – já resenhamos um livro seu aqui.

E é bem verdade que A literatura no Brasil não contempla e nem registra a literatura desses estados, e essa antologia, "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", não é a primeira a omitir muita gente bacana, sem um estudo mais apurado de autores de estados fora do eixo base, desde os tempos mais remotos. A literatura no Brasil, mesmo que ainda bastante inserida numa visão homocêntrica, etnocêntrica e elitista tradicionais, ainda é em escala bem menor que as historiografias anteriores e mesmo posteriores como as obras de Massaud Moisés, José Aderaldo Castello, Luciana Stegagno Picchio e Luiz Roncari.

Part 5 – Anos 80 (Roteiros do corpo)

65. “O vampiro da Alameda Casabranca”, de Márcia Denser – leia-o aqui. Eu não conhecia essa escritora paulistana que já publicou, entre outros, “Tango Fantasma” (1977), “O Animal dos Motéis” (1981), “Exercícios para o Pecado” (1984) e “Toda Prosa II – Obra Escolhida” (2008). Márcia já foi traduzida na Holanda, Bulgária, Hungria, Estados Unidos, Alemanha, Suíça, Argentina e Espanha (catalão e galaico-português), e eu, aqui, nunca tinha ouvido falar nela. Além de “O vampiro da Alameda Casabranca”, o conto “Hell’s Angel” também foi incluso nessa antologia organizada pelo Moriconi, sendo que o segundo está também entre os “Cem Melhores Contos Eróticos Universais”. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, a autora é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura, até outubro de 2010, da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo. Esse conto do vampiro, escritor em 1ª pessoa, conta a estória de uma moça linda que numa noite regada a álcool, drogas, sexo, falsos intelectuais e frustração, vai ao cinema com um poeta “metido a filósofo” (*existem muitos assim!) e guru espiritual, ela o despreza, mas mesmo assim ao saírem do cinema, vai para o seu apartamento. E depois de submetê-la à leitura de seus poemas péssimos, o poeta tenta levá-la para a cama, entretanto ela recusa. Vão então para uma festa no apartamento de um amigo do poeta chamado Klaus. A menina descreve as pessoas que encontra com desprezo e ironia. No final da noite, a narradora “chapada” vai ao banheiro, vomita e sente uma tristeza secreta por se saber mole, dobrável, e ainda uma vez voltar a fazer coisas que não queria, não precisava, não desejava, todavia o álcool e a droga levavam a fazê-las. O poeta metido, enfim, a leva para a cama, mas “pobre animal sonâmbulo, se esvaindo entre minhas nádegas numa tortura aplicada de movimentos ineficientes, uma vez que não conseguia”. Mas ela adormece e quando acorda Klaus está entre suas pernas, ela pula da cama vestindo a roupa e vomitando. “A boca entreaberta não ousava protestar, articular nenhum som, com aquele ar de bagre estúpido...” Vai para a rua, come um sanduíche, tenta ir a pé para casa, mas acaba dormindo num banco de praça. Horas mais tarde é acordada pelo vigia dizendo que haviam roubado seu casaco e sua bolsa. Pensa em voltar para casa e então lembra: estavam todos viajando. Todos os amigos, todos os sujeitos, todas as amigas etc. Estava sem a bolsa, sem as chaves, com frio, fome e precisando de um banho. No táxi, suspirando, deu o endereço de Klaus. Um conto bem bacana!

66. “Um discurso sobre o método”, de Sérgio Sant’Anna. O autor descreve um cara que se vê confundido com um suicida, por estar descansando na beira de um andar alto de um prédio do qual limpava as janelas. O autor que tem como preferência ambientar suas personagens nos andares mais altos dos prédios, de onde só saem para “tentar” viver aquilo que não conseguem, quer ver a cidade de cima, contemplar, à distância, suas luzes. Suas personas observam o espaço urbano “com um olhar periférico”, que tanto pode partir da janela dos hotéis quanto de dentro de um automóvel com o vidro fechado. Elas estão exaustas de pesquisa, exaustas do que lhes é proposto como realidade. A única viagem que, de fato, lhes interessam é a viagem no imaginário individual, com o intuito de reunir vivências fragmentadas num discurso articulado que lhes confira algum sentido, buscando construir um real particular, a partir do próprio verbo. A narrativa do Sant'Anna me agradou muito porque mistura reflexões filosóficas com uma poética do cotidiano que coloca as personagens em conflito com situações nas quais reproduzem as demandas sociais vigentes. Até uma crítica sutil aos editores ele fez: “E louco era uma palavra que os editores, a não ser os dos jornais populares, consideravam um tanto vaga”. Em outras palavras, o autor utiliza a narração para repensar as “cristalizações comportamentais” das pessoas comuns, cada vez mais comuns e chatas, dentre outros temas. A ironia corre nas veias do texto, junto com a sofisticação da linguagem. Sant'Anna arrasta o enredo de forma competente, enquanto usa a narrativa para refletir criticamente diversas questões. Ficamos esperando o desfecho, e, no caminho, coçamos a cachola com temas fundamentais da vida humana, como a arte, a política, o amor, o trabalho e a própria filosofia. “Se pulasse transformar-se-ia numa personagem de jornal, um mártir da crise. (...) Um cordão de isolamento já fora estendido para que ele não caísse em cima das pessoas. (...) Não era belo. Era um rapaz de vinte e cinco anos, embora não parecesse.”

67. “Idolatria”, de Sérgio Faraco – leia-o aqui. Esse conto relata uma viagem aonde um pai e o seu filho iam para Nhuporã. Em meio à estrada, o caminhão que o pai dirigia derrapou e fica preso em uma valeta. Aceleraram o caminhão para sair da valeta e seguir em frente, mas não conseguiram, só ouviram estalos vindos do motor. Antes da viagem, o filho sentia muita falta do pai que, por ser caminhoneiro, viajava muito. E o medo para o menino de esquecer os traços do pai é muito grande. Mas o pai era demasiadamente rude: “Pai, pai, o caminhão ta afundando! (...) Não vê que é a água que tá subindo, ô pedaço de mula?”. O autor aborda a maneira como o menino tinha seu pai como ídolo. Ele mostra as características que o filho notava e admirava no pai. A mensagem deixada pelo autor é que existem várias formas de se amar e demonstrar o amor.

68. “Hell’s Angels”, de Márcia Denser – leia-o aqui. Neste conto, voltamos aos temas recorrentes de Márcia Denser: as personagens femininas surgem como “aventureiras” da cidade grande e insistem em aplacar sua solidão e suas carências disfarçando-se de mulheres modernas, maduras e resolvidas. “Havia esquecido que deixara o vestido levantar, exibindo as coxas, daí Robi, o motoqueiro, aparecer na minha janela.” E por meio das referências intertextuais, verifica-se a construção do universo cultural e simbólico dessas personagens que revelam uma face marcada ora pelo exacerbado intelectualismo, ora pela cultura popular. “Senti-me desconfortável. Sugeri comermos. Ele disse está bem. (...) Fomos a uma cantina italiana. (...) Ajeitei-me na cadeira, pedi mais vinho, segurei sua mão debaixo da mesa, (...) apalpei suas pernas musculosas debaixo do grosso índigo blue, pedi-lhe para afastar as coxas, mergulhei a mão com segurança. (...) Retirei a mão, voltei ao vinho. (...) Não gostaria de ir para outro lugar? (...) Está bem.” Em especial, nesse conto, a personagem, num primeiro momento, mostra-se decidida, cheia de iniciativa e independente, porém, quando submergem em relacionamentos afetivos ou sexuais, surge por trás da aparente modernidade a face da submissão; elas se mostram incapazes de afrontar o universo masculino. O erotismo se expressa no interior das narrativas e é marcado pela perspectiva histórica das personagens, explicitada pela maneira de articulação de uma pluralidade de referências intertextuais. “O quarto tinha um espelho redondo sobre a cama. (...) Robi respirou fundo e agarrou-me por trás. (...) Eu disse calma e ele me jogou no colchão como uma bola de pingue-pongue. (...) Deitou sobre mim, tentando desabotoar-me. Esta perdendo tempo, eu disse levantando e me despindo. (...) Estava deitada, fumando, quando sua massa rija desabou sobre mim. Procurei seus lábios mas ele disse não, estou resfriado. (...) Ajeitando-me de bruços, abraçava-me com as palmas e dedos gelados, comprimindo minhas costelas, machucando-me, em vez de acariciá-las. A coisa funciona só da cintura para baixo, como um vibrador elétrico, mas é bom, pensei, deixando-me penetrar rijamente pelas costas, usando, por assim dizer, só uma parte do meu corpo, como se o resto estivesse paralisado, ou morto.” Eles têm uma relação sexual (fingida) e ao final do ato, a delicadeza, o romantismo e o desespero: “Virei-me para olhá-lo: havia algo de comovedor (...) no jovem adormecido.”

69. “Bar”, de Ivan Ângelo – leia-o aqui. Narrado em 3ª pessoa, onde uma moça entra num bar em que estavam três homens. Um no caixa, um funcionário no balcão e um freguês. A moça pede para telefonar, e enquanto os homens ouvem a conversa, ela marca um encontro com o namorado e em seguida faz mais uma ligação para sua mãe dizendo que vai ao cinema com uma amiga e que depois vai dormir na casa dessa tal amiga. Depois de se despedir da mãe, a moça ergueu-se, desligou o telefone e perguntou quanto é. O homem do caixa falou: “Pra você não é nada, gostosa”. A moça voltou-se rápida e viu que todas as portas do bar estavam fechadas. Os três homens, narinas dilatadas, formavam um meio círculo em torno dela. O autor sugere um estupro. “A moça enrubesceu e se tocou rápida procurando o botão aberto que nem havia e protegeu-se expirando o ar com o diafragma e avançando os ombros para disfarçar o volume do peito. A caixa registradora fez tlin, um carro freou rangendo pneus e uma voz forte gritou filha da puta com um u muito longo. O homem da caixa deu o troco ao homem que comprara cigarros e falou faz de conta que não ouviu nada menina isso aqui é assim mesmo.”

70. “Aqueles dois”, de Caio Fernando Abreu – leia-o aqui. Sem dúvida o melhor texto do livro. Inteligente, sutil, elegante e trata de um tema ainda muito polemico: o homoerotismo. No conto, Raul e Saul, dois homens jovens, altos e bonitos, se conhecem numa repartição e vão, aos poucos, um se afeiçoando ao outro. “Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.” Lentamente começam a se aproximar, visitando-se aos domingos, indo a festas, posando juntos, há entre ambos a revelação gradual de um sentimento maior, de uma relação homossexual. Até que um dia os dois são chamados pelo chefe da repartição que os despede por causa da “moral” do escritório. No fim ambos “altivamente” saem da repartição sendo observados pelos colegas hipócritas. “Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio. Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina. Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.” O conto trabalha tão bem as personagens que, em momento algum, não explora o lado psicológico e sexual, pois o intuito maior é justamente a visualização desse “querer/negar” que emerge de dentro dos seres, mas que Raul e Saul a todo custo tentam bloquear, para continuarem dentro dos padrões “normais”. Assim a homossexualidade que banha ambos, transita sobre o véu do medo, da incerteza, do faz-de-conta. Os diálogos nulos e as cenas de intimidades são acariciados pelos detalhes, olhares, falas distantes, que no intimo faz-se perceber a chama que aflora no interior humano. São feitas também referências às músicas de Carlos Gardel. Um conto lindo para falar da maldade dos seres humanos em julgar os outros. Adorei esse!

71. “Intimidade, de Edla Van Steen – leia-o aqui. Aqui no Brasil, o desejo lesbiano aparece na literatura escrita por mulheres desde, pelo menos, as primeiras décadas do século XX. A tradição de uma literatura sobre personagens lésbicas, no entanto, teria que já ter sido estabelecida, aos olhos da crítica de hoje, quando já há um certo espaço para esse tipo de leitura como a que sugere Edla Van Steen. Mas não é o que acontece. Mas é possível verificar a representação do desejo lesbiano em obras, por exemplo, da poeta Gilka Machado, de Raquel de Queiroz, Ana Cristina Cesar, Nélida Piñon, Anna Carvalho ou de Clarice Lispector. No contexto de sociedade contemporânea e da cultura brasileira, que frequentemente rejeitam rótulos rígidos, nem todas as personagens desses contos se identificariam como homossexuais. Por exemplo, em "Intimidade" de Van Steen, temos personagens casadas vivenciando um momento de desejo homossexual. Este conto seria um exemplo do fenômeno histórico da "amizade romântica" entre mulheres casadas, entretanto, lançam mão da sugestão, da ambiguidade e, no caso desse conto, de uma imagética forte, para criar situações de inequívoca carga erótica, que permite lê como expressão de um desejo lesbiano. “Ema e Bárbara eram tão inseparáveis quanto seus maridos, colegas de escritório. (...) No momento em que Ema depositava o refresco na mesa, ouviu-se um estalo. - Porcaria, meu sutiã arrebentou. - A alça? - Deve ter sido o fecho – ergueu a blusa – veja”.

72. “I love my husband”, de Nélida Piñon – leia-o aqui. Este conto, em 1ª pessoa, traz uma senhora de meia-idade que discorre com ironia sobre sua condição de esposa e de mulher. É nítido o desencanto e a frustração com que ela observa sua posição submissa dentro da família e passiva dentro da sociedade. “Ele diz que sou exigente, fico em casa lavando a louça, fazendo compras, e por cima reclamo da vida. Enquanto ele constrói o seu mundo com pequenos tijolos, e ainda que alguns destes muros venham ao chão, os amigos o cumprimentam pelo esforço de criar olarias de barro, todas sólidas e visíveis”. Sua vida limita-se a ser a sombra do marido, que mesmo de forma inconsciente, a trata com o machismo característico da nossa sociedade. O final assim como o título é de uma ironia melancólica: “Não posso reclamar. Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes. Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido”.

73. “Toda Lana Turner tem seu Johnny Stompanato”, de Sonia Coutinho – leia-o aqui. Nesse conto, uma mulher muito comum, Melissa, lê uma reportagem sobre a atriz Lana Turner. Lana, depois da fama em Hollywood, no auge da beleza, se envolve com o mafioso Johnny Stompanato. Depois de um tempo de relação, Johnny a persegue por todos os países nos quais Lana vai fazer seus filmes. Um dia a filha de Lana, Cheryl, durante uma briga do casal, mata Stompanato com uma facada. A menina é julgada e absolvida, enquanto Lana vê sua fama e beleza decaírem. “A reportagem lembra a trajetória gloriosa e sofrida da atriz, seus vários maridos, uma carreira movimentada...” Além da Lana Turner, a autora já escreveu sobre Billie Holiday, Mary Batson, Mary Marvel, Irene, a mulher de meia idade que não sabe o que quer da vida, a já citada Melissa multiplicada em Teresa, Joaquina, Dorotéia, Érica, Dora, Sílvia, Selma, Ingrid, Laura, e o psicanalista dr. Klaus. Estes são alguns dos personagens que a escritora esmiúça no seu livro (muito bom) “O Último Verão de Copacabana” (1985), um apanhado de contos, nos quais uma narrativa puxa a outra, criando uma trama poética cheia de surpresas, com reflexões irônicas sobre os desejos e os dramas da mulher na sociedade brasileira hoje.

74. “King Kong x Mona Lisa”, de Olga Savary – leia-o aqui. Nesse conto, a autora nos fala do universo de paixão entre um homem e uma mulher. Dedicado a Zélia (Gatai?) e Ariano Suassuna, a autora descreve o amor apenas como uma mistura de prazer e perigo. O amor como momento de ardor e devaneio. O amor como objeto sexual e como “amor” sensual, mas a autora esbanja lirismo em um tom reflexivo. “Ela acha que o amou desde esse primeiro momento. (...) Um amor sem quase nada de particular. (...) Então era isso amar? Amor não era. Era paixão. (...) E a paixão é um tanto trágica. Assim a aceitava: com esforço, com dor, mas também com gozo. (...) King Kong – ela pensou –, vou chamá-lo assim, assim vou chamar a fera que me dará vida. (...) Uma vez que lhe dissera o nome que secretamente lhe dava, houve o espanto: mas não combina com você, que é minha Mona Lisa. Ela sorriu sem dizer nada. (...) Um ser amorável essa fera, mas também de aguda crueldade. (...) King Kong: o êxtase e o horror.” O conto reflete como o homem exerce possessão sobre a mulher, transformando-a apenas em objeto do desejo. A tarefa de estabelecer uma relação duradoura homem e mulher passa pela reinvenção do amor todos os dias.

75. “Flor de cerrado”, de Maria Amélia Mello. Esse conto propõe uma discussão sobre a teia significativa que envolve termos como “estupro”, “violência”, “desejo”, “submissão” e “posse”: um jovem assaltante estupra uma moça em plena rua. Cheio de cenas de violência e um vocabulário pobre do estuprador, a autora propõe uma discussão sobre a violência contra a mulher. Contudo, temos a sensação que a moça também estava desejando o rapaz. “O prazer é uma aventura perto do coração selvagem”. E como a hipocrisia nesse país não tem precedentes, recentemente o Tribunal de Justiça de São Paulo ordenou que o governo paulista deixe de distribuir aos alunos das escolas estaduais o livro "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século". No entender do tribunal, três contos contêm "elevado conteúdo sexual, com descrições de atos obscenos, erotismo e referências a incestos" –inadequados para alunos entre 11 e 17 anos. Esse conto "Flor de Cerrado", de Maria Amélia Mello, por exemplo, contém o seguinte trecho: "Ele passava a mão, esfregava o peito contra o meu, forçava a perna, mordia meu ombro, babava meu rosto todo e me chamava de puta, vaca, vagabunda...". Na analise dos “tidos” entendidos em literatura: “As famílias de estudantes que não gostaram do conteúdo procuraram o Inadec (Instituto Nacional de Defesa do Consumidor), que levou a ação à Justiça, como informou ontem o jornal O Estado de S. Paulo. O Inadec é dirigido pelo deputado Celso Russomanno (PP-SP)”. Ainda segundo o Inadec, os outros contos proibidos são "Olho", de Myriam Campello, e "Obscenidades para uma Dona de Casa", de Ignácio de Loyola Brandão. Me poupe viu! Leia aqui trechos desse conto da Maria Amélia Mello: “Anda logo pra cá e fica quietinha ou te passo fogo. Se eu dissesse que o medo nasce no estômago como uma flor do cerrado, deveria acrescentar que nascia uma plantação bem no meio da minha barriga. (...) Ele me olhava como um menino. (...) Que que tá olhando, hein dona? Nunca viu não, é? (...) Me diz seu nome, diz. Ele se espantou. Que qui há, dona? (...) Por que é que você assalta? Ah! que isso, dona? (...) Tá querendo o quê, hein dona? Fazer uma sacanagenzinha, é? (...) E foi chegando mais perto. (...) Vem cá, vem. (...) Ele beijava sem rancor. (...) Ele balançava o corpo contra o meu. (...) Machucava e eu gostava. (...) Gostosa, faz assim, abre mais. Eu deixava tudo. Ele passava a mão, esfregava o peito contra o meu, forçava a perna, mordia meu ombro, babava meu rosto todo e me chamava de puta, vaca, vagabunda... (...) Ele suava. (...) Estou gozando, gozando. (...) Eu estava aberta, vasculhada, escancarada pra rua. (...) Ainda colado em mim, amparado, ele mandou eu virar. Obedecia. Anda, dá logo essa bunda, senão leva é muita porrada. (...) O prazer alastrava corpo inteiro. (...) Relaxamos. A voz do menino cortou o silêncio. Fica aí quietinha, nada de virar. (...) Ouvi os passos dele se afastando, correndo no asfalto. Minha perna estava bamba. (...) Estranho, ele não levou o relógio. Ficaria tão bem nele. (...) Ele podia ter me matado, eu sei. Ele bem que podia ter me salvado.”

76. “Obscenidades para uma dona-de-casa”, de Ignácio de Loyola Brandão – leia-o aqui. Neste conto, escrito em 1ª pessoa, uma mulher de meia-idade, casada, recebe dia sim dia não cartas obscenas com palavrões referentes a sexo. A senhora que aparentemente demonstra indignação com o teor das cartas, na verdade fica ansiosa por recebê-las. O certo é que ela é uma mulher enrustida, frustrada por não conseguir fazer com o marido tudo o que se descreve nas cartas. Muito comum nos lares domesticados pela Igreja. “Nem dizia gozar, usava ter prazer, atingir o orgasmo. Ficou louca da vida no chá de cozinha de uma amiga, as meninas brincando, morriam de rir quando ouviam a palavra orgasmo”. A mulher fora criada de maneira tradicional para manter a compostura e aparentemente sente aversão a palavras e atos relacionados ao sexo. No fim do conto revela-se que ela escrevia as cartas e as mandava para seu próprio endereço. Maluca! Todas as obscenidades eram escritas por ela mesma.

77. “O santo que não acreditava em Deus”, de João Ubaldo Ribeiro – leia-o aqui. Esse é mais um texto muito bem humorado, irônico e em linguagem coloquial desse baiano de Itaparica. Na estória, um pescador conhece um homem que diz ser Deus. Depois de provar que realmente era Deus, ele pede ao pescador que o leve à feira de Maragogipe, pois precisa convencer Quinca das Mulas a se tornar santo. “Então, explicou Deus, eu vivo procurando um santo aqui, um santo ali, parecendo até que sou eu quem estou precisando de ajuda, mas não sou eu, é vocês, mas tudo bem”. Chegando à feira e encontrando-o, o tal Deus e o pescador vão com o homem a um bar e depois passam a noite num bordel. No outro dia, Deus revela a Quinca sua identidade e o convida a ser santo. Depois de muito brigarem, Quinca termina por não acreditar e não aceitar ser santo. Quando o pescador (que é o narrador) vai levar Deus ao lugar onde o encontrou, o Divino ascende ao céu, dizendo: “Se incomode não, disse ele, nem toda pesca rende peixes.” E então ficou azul, esvoaçou, subiu nos ares e desapareceu no céu.

78. “O japonês dos olhos redondos”, de Zulmira Ribeiro Tavares. A escritora toma como metáfora da construção da tradição familiar a história arquitetada em torno de dois amigos aposentados que discutem sobre o vizinho tintureiro de um deles. Com uma argumentação forte um dos amigos consegue “provar” que apesar de o tintureiro ser loiro e ter olhos azuis, na verdade se tratava de um japonês. O conto é uma sátira àqueles que usam argumentação falsa, mas segura, para tentar provar coisas estapafúrdias. Muito engraçado!

79. “Vadico”, de Edilberto Coutinho. Num chute de primeira, pode-se imaginar que é grande o terreno de interferência entre literatura e futebol no Brasil. Basta pegar um manual de referência como “Gol de Letra” (1967), organizado por Milton Pedrosa, onde ele lista mais autores falando de futebol do que a soma de todos os autores que eu já resenhei aqui. Mesmo assim, vale destacar que nos romances e no teatro é preciso recorrer aos excertos - pois uma obra inteira sobre o tema é mercadoria em falta. Edilberto Coutinho é uma exceção que confirma a regra, com sua reunião de contos “Maracanã, Adeus” (1980). Nesse conto, por exemplo, narrado em 1ª pessoa, o autor conta a estória de um velho, narrador do conto, que vê na televisão de um bar um documentário sobre Vadico, um grande jogador na juventude que agora estava velho, pobre e esquecido. Como muitos! Enquanto o velho assiste ao documentário, senta-se uma mulher ao seu lado e começa a beber conhaque. No final do documentário noticia-se que Vadico havia se suicidado naquele dia, nesse mesmo momento o velho percebe que a mulher ao seu lado tomara um vidro de pílulas com o conhaque e também se suicidara. Um conto triste, mas muito real.

80. “Linda, uma história horrível”, de Caio Fernando Abreu – leia-o aqui. Apesar de ter gostando muito do outro conto do Caio, incluso nessa antologia, esse não me apeteceu muito. Narrado em 3ª pessoa, o autor inicia o texto com uma frase de Cazuza e conta a estória de um cara que chega na casa da mãe, depois de muitos anos de ausência. “Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos. Afundou tonto, rápido, naquele cheiro conhecido — cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme de beleza e carne velha, sozinha há anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como de costume, ela o beijou na testa. Depois foi puxando-o pela mão, para dentro”. Mãe e filho conversam muito até que a mulher decide dormir. Quando fica só o filho olha para a velha cadela da família, chamada Linda. A cachorra está doente com manchas rosadas sob o pêlo. Nesse momento ele tira a camisa e vê no espelho seu próprio peito, também coberto por manchas rosadas sob os pêlos. Subentende-se que o rapaz era aidético. Mas não apenas no vermelho das manchas pelo corpo do animal e do narrador podemos perceber a morte. O amarelo que se evidencia nas mãos de fumante da mãe também lembrar doença/morte. No entanto, o atributo que melhor se encaixa ao amarelo dentro do conto é seu caráter anunciativo da própria degeneração humana, ou seja, a velhice próxima ao fim da vida, o que demonstra que o autor não está preocupado exclusivamente com o que pode causar a morte – a doença, a velhice, o suicídio – mas com o fato de que ela é algo inerente ao homem. A possibilidade da morte que circunda as principais personagens (mãe, filho e cadela e também o próprio autor) não é algo explícito até o momento em que o autor se utiliza do verde para fazê-lo, como demonstrado no seguinte trecho: “Ela ergueu o isqueiro contra a luz. Reflexos de ouro, o líquido verde brilhou. A cadela entrou por baixo da mesa, ganindo baixinho. Ela pareceu não notar, encantada com o por trás do verde, líquido dourado”.

81. “Os mínimos carapinas do nada”, de Autran Dourado – leia-o aqui. Se não ficou muito claro o significado da palavra “carapina”, explico: “carapinas do nada” são aqueles artistas manuais que ficam horas e horas a esculpir uma matéria prima, até convertê-la em coisa que tenha valor nenhum. Dividamos a expressão: carapinas são os que talham madeira e nada é nada mesmo, essa coisa nenhuma. Na explicação do autor, agora em entrevista à Folha de S. Paulo: “São os velhos que ficavam na janela de casa, esculpindo, tirando pequenas aparas de madeira, fazendo caracóis. Procurando o nada”. Nesse conto, na cidadezinha de Duas Pontes, os homens ricos, os coronéis fazendeiros tinham um passatempo: trabalhar pedaços de pau com canivete. Era uma forma de usar o tempo livre para não fazer nada. Havia três grupos desses carapinas (carpinteiros) do nada. O primeiro grupo era dos que fazia carrinhos, caminhões, presépios que eram dados de presente, pois quem se dedicava a este “ofício” eram os coronéis abastados, assim como o 2º e o 3º grupo. Mas a segunda categoria era dos fazendeiros que moldavam a madeira com canivete para fazer colher de pau, algo de grande inutilidade. A terceira e mais “sublime” categoria era dos coronéis que passavam boa hora do dia moldando pedaços de pau com seus canivetes até virarem: nada. Um dos representantes deste grupo é o avô do narrador do conto, vovô Tomé, que morre com o canivete na mão fazendo caracóis na madeira.

82. “Conto (não conto)”, de Sérgio Sant’Anna. Outro texto do autor no livro. Esse conto metalinguístico versa sobre a arte da escrita: o que, quem e como narrar uma história. E essa característica é percebida desde o próprio título, que nada mais é do que uma provocação, feita pelo autor aos leitores, com o intuito de questionar a estruturação, forma e regras prescritas desse tipo de texto. Este questionamento segue durante toda narrativa, perpassado pelo exercício da metalinguagem que segundo o autor é o momento em que o texto literário volta-se sobre si mesmo, enquanto linguagem ou enquanto processo: passa a importar mais o fazer da obra do que os conteúdos de vida que possa revelar, na qual a linguagem fala por si mesma, ou seja, o texto fala do próprio texto, o narrador se posiciona, é consciente, dialoga e dirige-se o tempo todo ao leitor. “Mas digam-me: se não há ninguém, como pode alguém contar esta história? Mas isto não é uma história, amigos. Não existe história onde nada acontece. E uma coisa que não é uma história talvez não precise de alguém para contá-la. Talvez ela se conte sozinha. Mas contar o que, se não há o que contar? Então está certo: se não há o que contar, não se conta. Ou então se conta o que não há para contar.”

fotos: divulgação

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