Por Elenilson Nascimento
No ano de 2003 uma c
erta polêmica surgiu na mídia tupiniquim quando, em debate com autores no Caderno Ilustrada, do jornal Folha de São Paulo, o escritor Bernardo Carvalho resumiu sua ideia sobre os autores agrupados no livro “Geração 90: Transgressores” (Editora Boitempo): tratava-se mais de um projeto que buscava visibilidade para um grupo de escritores do que efetivamente um movimento ou algo significativo. Concordo plenamente. A reação foi imediata: uns diziam que o que importava não era o rótulo e sim o conteúdo e, por não ter lido os trabalhos, não entenderiam a questão. Outros que propaganda é sempre boa, eles têm mais é que aparecer, que a questão literária surgiria por si só, entre outras milhares de opiniões. E, depois de ter lido essa extensa antologia "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", organizado por Ítalo Moriconi, fiquei com essa mesma impressão: que o livro não passa de um “tapa buraco de caixa” da editora!
Nesse capítulo final, sobre os autores dos anos 90, no qual o Bernardo Carvalho também foi incluso, o rótulo de “Geração 90” e, principalmente “transgressores”, tem muito mais a ver com marketing pessoal do que qualquer outra coisa. Onde eles colocaram os autores da periferia? Cadê Nelson Luiz de Carvalho, Ferréz, Drauzio Varella, Alessandro Buzo, Luiz Alberto Mendes, Sacolinha e Rodrigo Ciríaco? Todos foram esquecidos!
O trabalho de Moriconi é mais um retrato de brodagem literária a serviço da difusão dos interesses de uma editora do que uma compilação de peso que tenha algo mais substancioso a dizer, apesar de alguns textos escolhidos terem sido fenomenais. O que não é ruim; sendo eu também um cara das letras, acredito na necessidade de se utilizar de um recurso interessante para chamar a atenção de um público que, de outra maneira, não seria exposto a trabalhos de autores, apesar de consagrados, esquecidos.
“Os anos 90 descartam o baixo astral e inventam um fim de século rico de imagens e criatividade. É uma década de estranhos e intrusos na festa da cultura: às mulheres somam-se os negros, os gays, os brasileiros em Nova York... Na época que celebra a diferença, nossos contistas produzem alegorias do híbrido. Combinam o humano ao animal, exploram a fusão com o tecnológico. Pelo que deixa entrever a arte de nossos melhores contistas atuais, parece que no futuro próximo vamos viver num país mais heterogêneo, mais plural, embora um pouco hesitante em relação às suas novas metas. A diversidade de estilos aponta para um período de transição, como aconteceu no final do século passado. Mas não há temor nem entusiasmo diante do inesperado, diante do todo outro que pode vir – ou não”, escreveu Ítalo Moriconi no capítulo final dessa antologia.
O problema dessa antologia é que, na verdade, o que mais contou foram os nomes e não as obras, mais do que qualquer outra coisa. Até a polêmica-ignorante-burra proibição judicial da distribuição dos "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século" para alunos da rede estadual de ensino reacendeu a hipocrisia envolvendo sexualidade, censura e educação. Para alguns educadores e escritores, a medida é arcaica e desnecessária. Na visão de alguns alunos e pais, parte do conteúdo da publicação é muito pesada para quem tem entre 11 e 17 anos. Os contos citados com "problemas" são "Obscenidades para uma Dona de Casa", de Ignácio de Loyola Brandão, "Flor de Cerrado", de Maria Amélia Mello e "Olho", de Myriam Campello. Todos os três maravilhosos e inclusos numa polêmica fascista justamente por um povinho que não deve ter nem passado perto da capa do livro.
Mas, talvez o perigo de se pegar títulos de autores pomposos e trazer a luz de uma população que nunca tem tempo de ler um livro pequeno, quanto mais um tijolão com quase setecentas páginas, não faça jus a um livro que poderia ter ficado bem melhor. Talvez os “transgressores” de outrora representam bem mais a continuação da literatura dos anos 20, no que é verdade. Então, o que há de transgressão hoje? Bem, pelo que pude ler “transgressão” para alguns é simplesmente a utilização de um “estilinho” de escrever “diferente”, de escrever palavrões ou dizer que “pica” e “buceta” foram feitos para viverem juntos. Os autores em sua grande maioria demonstram um excelente domínio da língua, sem dúvida. Mas sofrem de uma crise de conteúdo. Alguns, eu estou dizendo “alguns”, usam umas personagens desinteressantes em estórias irrelevantes, onde o mais importante parece ser a força do nome do autor no texto.
Isso sem dizer da sombra de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, que parecem pairar sobre pelo menos 90% dos autores dos anos 90 até hoje. Estórias de uma classe média decadente, drogada, desesperada, falando sobre sexo sujo e, normalmente no final, morrendo em algum crime brutal. Textos curtos, outros nem tanto. E, para piorar, algumas estórias não conseguem a universalidade que um Trevisan ou um Nelson Rodrigues conseguem com facilidade em seus contos: falta-lhes a sutileza, o domínio dos personagens, a capacidade em captar as nuances e situações do dia-a-dia das ruas e colocá-las em situações provocadoras, instigantes. Muitos dos textos em "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século" não conseguiram alcançar esta proeza. Os poucos que conseguem chamar a atenção para algo além do estilo acabam apelando para os clichês de sempre, como já dissemos, morte, putaria ou mesmo um “I don’t care”. Mas acho que as coisas já estão mudando, em especial, com muitos escritores da chamada “Geração Blogger”. E eu, sem humildade nenhuma digo: estou incluso nela!
83. “A Confraria d
os Espadas”, de Rubem Fonseca. Esse é o quarto conto do Rubem Fonseca no livro, aí vale a pergunta: o organizador não poderia ter incluso outros autores? Não que o Rubem não tenha méritos, mas ficou meio demais a quantidade de textos dele no livro. O escritor costuma dizer que, como cineasta, é um fracassado. Mas talvez seja por ter excesso de talento para expor (só) através de seus tantos livros, com uma vulgaridade comovente em cada parágrafo. Nesse conto, chamado de “A Confraria dos Espadas”, em alusão ao órgão sexual masculino, e que tempos depois deu nome a um livro de contos onde o escritor reuniu contos que mesclam mortes estarrecedoras e prazeres chocantes até para um leitor voraz de noticiário policial. Ora com descrições tão clarividentes que permitem ao leitor se colocar como expectador de uma cena de amor entre um casal. Este texto, aliás, parece repetitivo, dando a (falsa) impressão de que a obra de Rubem Fonseca é um mero livro de contos policiais. No conto, numa sociedade secreta, a tal “Confraria dos espadas”, um grupo de homens desenvolve o orgasmo múltiplo sem ejaculação, buscando uma forma mais requintada de sexo, que os distanciasse dos animais, meros procriadores. Embora esta técnica se transforme em uma prisão, ela revela que, para o autor, adiar o orgasmo rápido é evitar o sem sentido da vida, através da tentativa de interromper o nascimento e a morte. Neste seu universo corrompido, aos seres resta apenas o encontro entre dois corpos, prolongado ao máximo. Uma loucura esse texto! Mas engana-se quem pensa só desta forma. Rubem Fonseca conquista pela originalidade e nenhuma previsibilidade. Pelo menos eu, com minha humilde visão de fã, vejo assim, apesar de achar meio exagerado a quantidade de textos dele no livro.
84. “Estranhos”, de Sérgio Sant’Anna. Com muita razão, a literatura de Sérgio Sant’Anna, além de seu refinamento e da exploração temática, é apontada como uma das mais instigantes que vêm sendo produzidas. Nesse conto “Estranhos”, o personagem-narrador, em face da insuperável desconfiança que nele provoca a mulher que acabara de conhecer, argumenta: “Dei-me conta de que a mulher estava demorando no banheiro e desconfiei de alguma coisa. Cocaína, por exemplo. Mas, afinal, eu não estava com ela, podia ver o apartamento sozinho e ir logo embora, pois já concluíra, mais ou menos, que o imóvel não fazia o gênero de Clarice”.“Cheguei à portaria daquele edifício em Botafogo, para ver o apartamento, quase ao mesmo tempo que uma mulher. (...) Quando o porteiro estendeu a chave na minha direção ela disse: - Não podemos subir todos juntos? (...) - Também está procurando apartamento há muito tempo? – perguntei, para quebrar o gelo entre nós. - Não. Este é o segundo. Chegamos ao décimo primeiro andar, peguei a chave e introduzi facilmente na fechadura. Ela entrou. (...) - Você é da polícia? – ela perguntou. - Não, sou jornalista”. O sentido incompleto do texto se esvazia e se transforma. É o que ocorre, por exemplo, quando a mulher misteriosa, cuja presença cria no leitor a expectativa do desvendamento de segredos instigantes, acaba desaparecendo, deixando o narrador (um redator de jornal) à espera de um reencontro. “Terminei com a Clarice e vim morar sozinho no apartamento 1101, B, do Condomínio Bois de Boulougne, na expectativa de que o coroa um dia aprontasse mais alguma com a mulher, e ela, farejando o meu destino, viesse me usar para uma nova vingança”. A desconfiança domina a personagem, mas cumpre notar também que, embora não haja no texto as clássicas cenas de busca ou perseguição, típicas dos filmes policiais ou de mistério — mantém-se o clima —, a câmera–olho/voz narrativa focaliza pessoas, ruas, espaços suspeitos, itinerários, possíveis pistas, mas nada leva a um desfecho esclarecedor.
85. “Nos olhos do in
truso”, de Rubens Figueiredo – leia-o aqui. Conto surreal em que um homem encontra cópias (clones) de si numa cidade moderna. “Uma desconfiança incômoda me obrigou a olhar melhor e então deparei com um sujeito igual a mim mesmo, apenas um pouco mais novo. Sacudido por uma espécie de insulto, experimentei o temor de estar sendo sorrateiramente substituído”. Um conto demasiadamente contemporâneo.
86. “O antinatal de 1951”, de Carlos Sussekind – leia-o aqui. Narrado em 3ª pessoa, o autor conta a estória do Dr. Lourenço Laurentis, um Curador de Menores do Distrito Federal, que decide passar o Natal com seu filho numa viagem de trem. Sem presentes, felicitações ou brindes. Ele observando a paisagem e o filho lendo. Depois de várias dificuldades, ele finalmente consegue comprar as passagens. “Rimo-nos, ambos, para descarregar os nervos, evidentemente tensos, tensíssimos. Desejo-lhe Feliz Natal com toda a sinceridade. Posso respirar, enfim. As providências que tinha de tomar para garantir nosso anti-Natal, meu e do meu filho, já estão tomadas”.
87. “Olho”, de Myriam
Campello – leia-o aqui. Esse é um dos contos proibidos judicialmente incluso nos "Os Cem Melhores Contos..." para alunos da rede estadual de ensino de São Paulo que reacendeu a polêmica envolvendo sexualidade, censura e educação. Para alguns educadores e escritores, a medida é arcaica e desnecessária. Na visão de alguns alunos e pais, parte do conteúdo da publicação é muito pesada para quem tem entre 11 e 17 anos. Só queira ter certeza realmente se esses alunos estão lendo alguma coisa... E porque então não proibir as programações das TVs com suas novelas cada vez mais apelativas? Os escritores Ignácio de Loyola Brandão e Myriam Campello ficaram indignados com a proibição do livro. "Esse juiz e o Russomano não entendem nada de literatura e dos jovens. A censura volta no meio da democracia. Parece que estamos na Idade Média", revoltou-se Brandão. "Essa decisão tem sabor de século 19, sobretudo em uma época que o jovem tem acesso à TV e à internet", afirmou Myriam. A Secretaria Estadual da Educação afirmou que não iria comentar o caso, pois, como sempre, não foi notificada. Nesse conto erótico da Myriam, uma dona de casa tem suas primeiras experiências sexuais: “Puxei-a para o quarto e joguei-a na cama. Com a língua, umedeci sofregamente e por muito tempo as fendas de seu corpo. Quando a cobri, ela quis. Abriu-se como fruta que se racha no solo. O desejo é vagalhão enfurecido, avalanche que se nutre do próprio excesso para melhor derrubar e engolir. Iniciado, nada pode detê-lo. (...) Uma vez explodindo, é esperar que a convulsão cesse por si mesma. Assim, fomos de roldão nas asas da carne até que o esgotamento nos fez dormir, eu ainda com o membro dentro dela... (...) Desde então vivemos o que podemos, equilibrando-nos no fio aguçado. Apesar do dissimulo, ei-nos fortes como um par de leões. Antes deviam nos ver, que nos escondermos. Sabemos contudo que existe o que deve ser olhado e o que não deve sê-lo. Este inclui o relâmpago, por exemplo; o andar furtivo de um rato; pássaros fazendo ninho; dois amantes que se beijam. Como os mistérios de Elêusis, são matéria interdita, esfera do sagrado. Uma proibição explícita os protege. (...) Pois o inferno é mesmo amar o proibido. (...) Experimente querer por um segundo impensável a própria irmã, querer como um homem quer uma mulher. (...) A primeira carta anônima meteu-se à minha correspondência mês atrás, (...) dizia apenas “eu sei tudo”.”
88. “Zap”, de Moacyr Scliar – leia-o aqui. Nesse conto, um menino de treze anos que mora com a mãe é viciado em TV. “Não faz muito que temos esta nova TV com controle remoto, mas devo dizer que se trata agora de um instrumento sem o qual eu não saberia viver. Passo os dias sentado na velha poltrona, mudando de um canal para outro — uma tarefa que antes exigia certa movimentação, mas que agora ficou muito fácil. Estou num canal, não gosto — zap, mudo para outro”. O pai, um roqueiro que o abandonou quando o menino nasceu, está na televisão sendo entrevistado. A entrevistadora pergunta ao roqueiro sobre seu filho, o roqueiro fica embaraçado e começa a dedilhar a guitarra. “Ele se mexe na cadeira; o microfone, preso à desbotada camisa, roça-lhe o peito, produzindo um desagradável e bem audível rascar. Sua angústia é compreensível; aí está, num programa local e de baixíssima audiência — e ainda tem de passar pelo vexame de uma pergunta que o embaraça e à qual não sabe responder. Enquanto isso, o filho do outro lado da tela... “zap”, muda de canal para ver uma mulher nua. Conto curto, mas bem bacana!
89. “Days of wine and roses (Dias de vinho e rosas)”, de Silviano Santiago. O romancista, ensaísta, poeta e contista irá completar 75 anos no dia 29 de setembro e, sem dúvida, é uma das mais prolíficas e brilhantes cabeças da nossa literatura. Imagine dezenas de estudiosos, fãs, curiosos, baba-ovos, estudantes e professores reunindo-se num mesmo lugar, vindos de vários países e não tendo em comum nada exceto a gratidão pelo papel que cumpriu alguém em suas vidas. Foi essa a homenagem que recebeu o Silviano uma vez em Salvador. É difícil imaginar um mestre mais merecedor de tal honra. E eu estava lá. Nesse conto, com título enorme, o autor cria um ambiente bem íntimo, como num concerto de jazz, onde o ouvinte vivencia o momento único, pessoal e intransferível do improviso. O conto é embalado sobre o frio, a distância, o deslocamento do viajante, jogos de amor. Sobre esses elementos, Silviano imprime a sua vivência, suas recordações e ideias numa narração empolgante, fazendo com que você compartilhe a experiência. Uma experiência literária apaixonante. Pesquisando na internet, descobri que o conto foi inspirado numa faixa homônima do disco “Keith Jarrett no Blue Note”, um CD de jazz que eu tentei achar na rede, mas só porque eu quero muito, não ao achei. Narrado em segunda pessoa, o que confere ao texto aquele tom saboroso de conversa entre amigos, ele trata basicamente sobre memória, mas não como Proust que tinha aquela obsessão em reconstruí-la. O recordar em “Dias de vinho e rosas...” tem um quê de trágico, melancólico, invernal mesmo. E não poderia ser diferente, o que motiva a lembrança do personagem não é um biscoito que se mergulha num chá, mas, sim, um bate-papo com um ex-amante. Ele acorda numa madrugada fria de inverno e, sentado numa poltrona, de frente para uma janela, se lembra de uma conversa banal que teve ao telefone com Roy, um americano com quem dividiu a cama por seis anos e não o vê há quinze. “Você acorde durante a noite. Você não sabe onde se encontra. (...) Você está vivendo no apartamento como se morasse num quarto de hotel. (...) A tempestade de neve que desabou na quinta-feira preencheu o fim de semana de toda a cidade. (...) Na quinta-feira, você não sabe por que, por que você chamou Roy ao telefone. Não o via fazia muitos anos. (...) Sem mais nem menos, você tinha desaparecido da vista dele havia quinze anos. Você tinha convivido com ele durante seis anos. Fora amante dele. (...) Roy te disse que se lembrava de você. Muito.” Achei isso tão engraçado! A partir daí, emergem várias sensações desconfortáveis, próprias de rompimentos mal resolvidos. Além de toda a beleza do texto, de frases como “As árvores nuas são paus secos cinzentos e amedrontadores”, “Você pensa agora que o telefone é uma forma de encontrar uma pessoa sem verdadeiramente encontrá-la” ou a mais chocante “Ele serviu para me tirar a p... dos colhões como um fazendeiro ordenha uma vaca leiteira”, enfim, depois de passada a euforia da descoberta do conto, fiquei pensando comigo: “Tenho três amigos na mesma situação do personagem: ex-amores que são como imensas poltronas velhas e encardidas em suas salas (vidas). Um quer a todo custo reformar a sua, não abre mão, os outros ainda não sabem se encaram um estofamento novo num modelo antigo ou se se desfazem delas de uma vez”.
90. “A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtain”, de Marina Colasanti. Eu achei esse conto bem parecido com aquele outra que ela diz: “A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão”. Lembram? Porém, esse é contado em 3ª pessoa sobre um escritor, Jeffrey Curtain, que sofre morte cerebral. Ele é cuidado pela esposa Roxanne que continua a amá-lo mesmo no estado em que se encontra. Comovente!
91. “Jardins suspensos”, de Antonio Carlos Viana – leia-o aqui. Narrado em 1ª pessoa, o autor conta a estória de um menino que vive com sua mãe e um irmão que aparenta ter problemas mentais, não fala com ninguém e vive em casa isolado de todos. “Eu ouvia então o chuveiro despencando forte sobre seus cabelos mais escorridos que de índio a lhe descerem pelos ombros. E o corpo já devia estar coberto de espuma, um corpo liso talvez, como seus braços. Me vinha uma vontade doida de olhar pela janelinha, ver como ele era, que mistério havia sob aquele rosto triste e sem idade, que vivia a maior parte do tempo olhando para nada. Mas a janelinha era alta e, se minha mãe me pega, eu estava frito. Em que estaria ele pensando todas as tardes para só ser despertado por minha mãe dizendo aquela graça mais idiota? A nossa casa ficava numa vila de casinhas iguais, com o mesmo desconforto e sujeira. Eram casas escuras, tudo com o mesmo cheiro de ovo frito ou de carne moída sem tempero, parecendo grudado para sempre nas paredes. Raro o dia em que não estouravam brigas. Mas a gente vivia bela e solitariamente”. No final do conto o irmão que sempre usava batas femininas, levanta sua roupa e revela ao narrador que é uma mulher, mostrando sua vagina. Ou seja, dentro de casa, nem eles sabiam que ela/ele era. “Com um riso estranho nos olhos, sentado no banquinho de plástico azul, abriu bem as pernas e de dentro delas brotou uma rosa sangrenta capaz de mudar o rumo de qualquer abelha.”
92. “O misterioso homem-macaco”, de Valêncio Xavier – leia-o aqui. Um caçador mata uma macaca e leva seu filhote para casa. “A gente faz muita maldade na vida, e na hora não percebe. Eu, ali, fiz uma que fui pagar bem caro depois, caro demais”. A mulher do caçador cuida do filhote de macaco, tratando-o como gente e filho. O tempo passa e numa noite de temporal o macaco levanta da cama, acende a lamparina e começa a falar. Gargalhando, diz que seu nome era João da Silva. “Foi nessa noite amaldiçoada que ele se revelou, que se fez homem aquele macaco amaldiçoado que em maldita hora eu fui trazer para dentro da minha casa. Esse macaco que fez o padre enlouquecer no dia do seu batizado. Que na escola onde foi aprender as primeiras letras atazanou tanto a professorinha que ela, coitada, abortou. Esse macaco que sempre tratei como filho e que abusou da inocência da minha filha, sua enteada, e fez mal para ela, matando minha mulher de desgosto. (...) Que de tanto me judiar, me transformou no velho aleijado que hoje sou. Tanta sacanagem, tanta maldade, tanta coisa ruim esse João da Silva fez, e ainda faz em suas andanças pelo mundo, que se eu fosse contar levava a vida inteira e ainda não chegava ao fim.”
93. “Dois corp
os que caem”, de João Silvério Trevisan – leia-o aqui. Trevisan é personagem da história homossexual no Brasil. No final da década de 70 foi um dos fundadores do grupo SOMOS, uma das primeiras organizações políticas de libertação sexual. De 78 a 81, fez parte do conselho editorial do jornal "Lampião de esquina", publicação mensal voltada para as questões gays, um tipo de “G Magazine” mais cabeça. Trevisan seguiu a vida como escritor e lançou em 86 o polêmico livro "Devassos no paraíso", obra fundamental para se entender as questão políticas e sociais dos gays brasileiros. Apesar disso, Trevisan diz que nunca foi "resenhado pela grande mídia". Além dos sucessos enquanto romancista, é também grande contista. Esse seu conto "Dois corpos que caem", onde dois personagens dialogam em queda livre do Edifício Itália, no centro de São Paulo, entrou nessa antologia por ser muito revolucionário e contagiante, além de descrever com perfeição a solidão dos cidadãos nas cidades grandes. “Nunca se sabe se o que de amor é desamparo, solidão doentia ou desejo incontrolável de dominação. O que na verdade me seduz é que o amor destrói certezas com a mesma incomparável transparência com que o caos significante enfrenta a insignificância da ordem. Não, o amor não é a solução para a vida. Mas é culminância”. Mas, apesar do tema triste, logo no início do conto vemos a ironia do autor: “- Oi – disse o primeiro, no alvoroço do início da queda. – Eu me chamo João. E você? - Antonio – gritou o segundo. - O que você faz aqui? - Estou me matando – respondeu João. – E você? - Que coincidência! Eu também. (...) Foi quando os dois corpos se estatelaram na Avenida São Luiz”. Um conto maravilhoso!
94. “Conto de verão nº 2: Bandeira Branca”, de Luis Fernando Veríssimo – leia-o aqui. Essa é a estória de um casal que se encontrava somente no Carnaval. Desde os 4 anos até os 15 os dois, Janice e Píndaro, sempre dançavam juntos a música “Bandeira Branca”. “No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?” No Carnaval em que os dois estavam com 15 anos dançaram a música um encostado no ombro do outro. Depois desse baile, ficam 15 anos sem se ver até se reencontrarem por acaso num aeroporto. Ela está casada, ele separado. Ele pensa em dizer que nunca a esqueceu, e ela não consegue sequer lembrar o seu nome.
95. “Por um
pé de feijão”, de Antônio Torres – leia-o aqui. Conto curto, narrado em 1ª pessoa, um menino conta que aquela seria a melhor colheita da fazenda de seu pai, mas fora arrasada por um incêndio. Todos ficam tristes, mas o pai forte e corajoso pensa em recomeçar. “Fui o primeiro a ter coragem de ir até lá. Como a gente podia ver lá de cima, da porta da casa, não havia sobrado nada. Um vento leve soprava as cinzas e era tudo. Quando voltei, papai estava falando.”
96. “Viver outra vez”, de Márcio Barbosa – leia-o aqui. No ano passado, eu conheci o Márcio Barbosa apresentando um pouco da história dos 30 anos de publicação dos cadernos negros. O encontro contou com a realização de um sarau organizado pelo coletivo “Literatura Suburbana”. Nesse conto, uma moça se aproxima de um velho líder da comunidade negra e faz com que ele retome a alegria de viver. Primeiro tornam-se amigos e depois amantes. No final ela fica grávida. “Quando eles passavam, grávidos, ouviam os vizinhos comentarem: É o filho – uns diziam. O neto – outros apostavam. - É o amor nos recriando – diziam um ao outro.”
97. “Guri”, de Cíntia M
oscovich. A reestruturação dos papéis ocupados pela criança na sociedade atual faz oportuna a reflexão acerca da puerícia e da sua representação em alguns contos, tendo em vista que, a exemplo do que se verifica no restante do mundo ocidental, a ideia de infância no Brasil é ainda recente. Ou seja, enquanto os Poderes Públicos ignoram a vida de crianças e jovens, esses vão perdendo, cada vez mais cedo, a inocência. Nesse conto, a autora enfatiza que a exclusão infantil que se verifica na literatura regionalista nasceu na vida familiar e cultural, estabelecendo-se em favor da manutenção do autoritarismo do adulto, uma vez que o sistema patriarcal sustenta a marginalização das classes consideradas mais fracas, e a infância, como o período em que a criança depende financeiramente de um adulto, tende a ser vista como etapa periférica da humanidade. Além das expressões “guri” e “piá” que, regionalmente, designam “menino”, não se verifica, na linguagem do conto, a presença de outras marcas que localizem o conto no cenário sul-rio-grandense. Estes, por sua vez, não servem à delimitação de um espaço regionalista para a trama da autora, mas conferem destaque à imagem de uma criança sofrida, célula central da história. A linguagem, embora sirva à expressão das personagens, é formal e de extrema sensibilidade. O tom dramático tecido pela mesma conduz o leitor ao choque, à indignação e à sensibilização para com a dor que subjuga a infância. Assim, a meninice tem sua trajetória determinada pela qualidade das relações estabelecidas com o adulto e com o ambiente. O empobrecimento de tais trocas, retratado no enredo, ao mesmo tempo em que pontua a sorte do protagonista, marca o tom de crítica e denúncia da narrativa.
98. “Estão apenas ensaiando”, de Bernardo Carvalho – leia-o aqui. Narrado em 3ª pessoa, o autor conta a estória de um ator que está ensaiando uma fala para seu diretor. O diretor manda o ator repeti-la várias vezes. A fala refere-se à morte de uma outra personagem. O ator espera sua mulher que virá buscá-lo após o ensaio. Quando o ator vai repetir mais uma vez a fala sobre a morte, percebe que um homem dava a notícia da morte da sua própria mulher ao diretor. “...por uma trapaça do destino, tornou-se o próprio lavrador pelo que aquele vulto veio anunciar; compreende tudo num segundo, antes mesmo de saber dos detalhes do acidente que a matou atravessando a rua a duas quadras do teatro, diante dos olhos arregalados do diretor e da assistente, sob as gargalhadas incontidas do iluminador e do técnico no mezanino, chegando ao fim da piada.”
99. “O importado vermelho de Noé”, de André Sant’Anna. Conto surreal narrado em 1ª pessoa que cita alguns fatos históricos como a eleição de Celso Pita para a prefeitura de São Paulo. Mas, na verdade, o conto dá a entender que o próprio prefeito está fugindo da cidade e indo para Nova Iorque, onde chove dinheiro, em seu carro vermelho importado da Alemanha. Estas expressões: “Está chovendo dinheiro em Nova York. Com o meu carro velho, importado da Alemanha, logo estarei no aeroporto e voarei para Nova York...” são repetidas inúmeras vezes no conto. No final da estória o prefeito que está a caminho do aeroporto se vê no meio de uma tempestade que faz o rio Tiete transbordar inundando o carro e afogando o prefeito com as águas e o excremento do rio de São Paulo famoso por sua poluição. O rio cheio de excremento que afoga o prefeito pode ser entendido como uma metáfora da situação política da cidade naquele momento, pois Celso Pita e Paulo Maluf, seu mentor, viram-se envolvidos em acusações de corrupção e desvio de verbas públicas. Engraçado!
100. “15 Cenas de descobrimento de Brasis”, de Fernando Bonassi – leia-o aqui. Não entendi absolutamente nada do porque da escolha desse conto. Dividido em 15 partes que faz uma revisão crítica do nosso passado histórico em contraposição com a contemporaneidade, mostrando que as diferenças entre o passado e o presente não são muito grandes. “Minha terra tem campos de futebol onde cadáveres amanhecem emborcados pra atrapalhar os jogos. Tem uma pedrinha cor-de-bile que faz "tuim" na cabeça da gente. Tem também muros de bloco (sem pintura, é claro, que tinta é a maior frescura quando falta mistura), onde pousam cacos de vidro pra espantar malaco. Minha terra tem HK, AR15, M21, 45 e 38 (na minha terra, 32 é uma piada). As sirenes que aqui apitam, apitam de repente e sem hora marcada. Elas não são mais as das fábricas, que fecharam. São mesmo é dos camburões, que vêm fazer aleijados, trazer tranqüilidade e aflição”. (“OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO”, Org. Italo Moriconi, antologia contos, 620 págs, editora Objetiva – 2000)
fotos: divulgação













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"Quer ver coisa é na escola. Essa geração não pode ser chamada de geração, Elenilson. Precisa ser chamada de Gera Não. Ninguém comenta livros aqui, porque não lê acolá. Há umas raridades de leitores. Só que, mesmo leitores, parece que quando aparecem aqui é para ficar livre das intelectualidades. O pior é que "out line" também não encontramos muitas pessoas interessadas em conversar sobre livros. Com os investimentos em Educação e Cultura que temos, hoje, vamos continuar no ranking como um dos piores em interpretação de texto, em produção textual, e ganhando prêmios de melhor interpretação do "tchan tchan tchan", etc. Ler é conversar consigo mesmo, ter que interpretar a si, e isso é cansativo para os bichos-preguiça da contemporaneidade. Só tolero, ainda, por causa do poder que percebo da literatura infantil na garotada. Meu exercício para não perder a esperança está seguindo essa possibilidade: Ler para as crianças, para que elas não "morram" maduras e sem doce. É como regar. Estou pensando em escrever para as crianças. Escrever como elas, para que não se percam."
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