quinta-feira, 13 de outubro de 2011

AS FÊMEAS

“Com humor mordaz, o autor transita tanto pelos mistérios da condição feminina quanto pela desilusão de seres engolidos pelas grandes cidades.”

Por Elenilson Nascimento

No ano de 1982, ele só tinha 20 e poucos anos e começava a se adaptar à vida numa cadeira de rodas quando lançou o best-seller “Feliz Ano Velho”. A partir do acidente que sofreu ao dar um mergulho e bater a cabeça, Marcelo vê a sua vida mudar radicalmente. Seus dias no hospital, as visitas que recebeu, as histórias que viveu são relatadas sob uma nova perspectiva: a de um jovem que sempre fez tudo o que podia e queria, mas que, agora, sentado em uma cadeira de rodas, vê-se “impotente” diante dos acontecimentos, dependendo da ajuda de amigos e familiares para reaprender a viver. Bom, esse é o resumo do livro que o fez ficar conhecido mundialmente, e que muitos acham ser o único livro do autor.

Mas Marcelo tem uma "obra vasta" e muito mais interessante do que as recordações autobiográficas pósacidente que lhe deixou tetraplégico, em 1979. De lá pra cá, lançou alguns fracassos de crítica e venda, sete peças de teatro (uma delas vencedora do prêmio Shell), apresentou um programa de TV (*o sempre bem vindo “Fanzine”, na TV Cultura), escreveu o roteiro de outro bizarro (o fiasco “As Aventuras da Tiazinha”, na Bandeirantes) e ganhou fama de mimado e arrogante. Hoje, com alguns anos pesando nas costas, ele admite que era mesmo pedante. Mas por pura defesa. Não tinha bagagem para lidar com as cobranças quando publicou “Feliz Ano Velho”, confessou numa entrevista.

Em meados de 2004, quando lançou o livro “Malu de Bicicleta”, que posteriormente acabou também virando filme, Marcelo caiu do elevador de seu carro adaptado. O tombo rendeu-lhe uma tendinite no braço direito, que o obrigou a ficar de molho por três meses. Mas esse livro, “Malu de Bicicleta”, o colocou de volta na lista dos mais vendidos, pouco mais de 22 anos depois do sucesso de “Feliz Ano Velho”.

Já o livro “As Fêmeas” é uma coletânea de crônicas que trata de relacionamentos (ou a falta deles), culpa, prazer, sexualidade, ressentimentos, mulheres que confundem os homens, homens que confundem mulheres, sexo, mudança de atitude nos tempos de Aids, homens canalhas e mulheres sedutoras, homossexualismo, igreja e ditadura.

Se em outras obras como “Bala na Agulha” (um romance policial denso), uma narração em grande estilo de um curto período na vida de Flávio Castilho, filho de um aclamado político brasileiro, que se envolve em uma trama de vícios, sexo, poder, família e dinheiro; ou em “Blecaute”, outro livro do autor, porém menos apocalíptico, Marcelo consegue deixar os leitores nervosos, em “As Fêmeas” é pura diversão.

Nunca me diverti tanto lendo crônicas, uma delícia. E o cara só pensa naquilo! Em “Machos e fêmeas no só o amor constrói”, ele diz que a “cadela no cio é sutil e, na hora do vamos ver, mais silenciosa”. A crônica “A bela teme a fera, mas a abraça como irmã” mais parece um conto com um final muito interessante. Em “A bela nas tramóias da fotografia” deveria ser lido em voz alta em todas as salas de aula para essa garotada que acha que ser modelo é só felicidade.

O autor também solta os demônios na crítica por causa do seu livro “Ua:brari” na crônica “Sinto necessidade de lavar roupa suja”. Em “Minha primeira vez foi com um homem”, relatou que tanto ele quanto muitos amigos perderam a virgindade com um travesti. O dramático “Paguei por brincar com o que não tem graça” é de arrancar lágrimas, sobre uma garotinha assassinada no sinal de trânsito.

Em “A masturbação é um exercício literário” ele escreve que sofreu vários preconceitos no início de sua carreira: por ser jovem e por ter sido considerado um “escritor por acaso”. Já em “A glória do desvirginador não é eterna” o autor joga no lixo o mito do “amor de pica”. Divertidíssimo!

Ele até brinca com Machado de Assis e seu livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” em “Eu queria ter uma garota que pagasse os impostos”. Numa das muitas crônicas falando sobre mulheres, “Nos anos 70, mulheres assediavam sem culpa”, ele diz que “Se a Aids não existisse, teriam inventado” e sobre toda a hipocrisia que ainda infesta o tema. Em “Nascemos de pijama, esqueçam a censura”, ele fala sobre a censura e homossexuais nas Forças Armadas.

E dedica três crônicas para Xuxa, chamando-a de uma "invenção da mídia presa em seu próprio mundinho". Até a Elisângela – como assistente do Capitão Aza – foi lembrada. Gal Costa com os peitinhos de fora também. Mas dizer que Madonna dança mal, canta mal e que paga bem aos outros para comporem pra ela, achei meio fora do contexto (*até o show de 1993 dela foi citado).

Contudo, o texto mais legal é o “Praça de protestos vira palco de Tim Maia”, onde o Marcelo fala que Vladimir Herzog foi assassinado nos porões do Dops, que o governador Paulo Egídio, na versão oficial, chamou a imprensa para dizer que os estudantes estavam sendo manipulados por organizações-lenistas. E que, em 1984, mais de 300 mil pessoas na Praça da Sé participavam dos primeiros comícios das Diretas Já e um repórter do Jornal Nacional entra ao vivo e, cínico, diz que aquelas pessoas comemoravam o aniversário da cidade. Revoltada, a população grita: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”. Em suma, vale muito a pena ler esse livro, pois o Marcelo é um dos poucos observadores críticos dos dramas e personagens urbanos atuais. Com humor mordaz, transita tanto pelos mistérios da condição feminina quanto pela desilusão de seres engolidos pelas grandes cidades. Queria ler todos os outros livros dele, mas acho que minha grana não vai chegar a tanto! (“AS FÊMEAS”, de Marcelo Rubens Paiva, crônicas, 148 págs, Objetiva – 2006). Aproveitem e confiram abaixo o Lobão fazendo uma entrevista bacana com o Marcelo:

fotos: divulgação

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