Por Elenilson Nascimento
Vários autores já abordaram a morte pelo viés da literatura. Coletâneas inteiras de poemas, principalmente de Manuel Bandeira, um dos mais importantes poetas brasileiros do século XX, mostram a busca pelo significado das coisas com um lirismo maduro, cheios de angústia, pois a morte estava muito presente na vida do poeta (*muito jovem descobriu a tuberculose) – e como não pôde seguir a vida como arquiteto, começou a se dedicar à poesia para preencher o espaço. Esta temática está presente desde o primeiro livro.
O romance “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, de 1930, possui cenas e episódios característicos onde a autora exprime intensa preocupação social, apoiada, contudo, na análise psicológica das personagens, especialmente o homem nordestino, sob pressão de forças atávicas que o impelem à aceitação fatalista do destino/morte. Machado, Nelson Rodrigues, Pessoa e muitos outros também dedicaram muitas páginas. Até o último livro da série da escritora britânica J. K. Rowling, “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, abordou o assunto e, como todos sabem, fez muito sucesso. Também esses livros que falam sobre vampiros tratam do mesmo assunto.
Contudo, confesso aqui que só peguei “Como Vivem os Mortos” de Will Self por causa do enredo instigante. O autor é considerado pela crítica um dos mais talentosos escritores britânicos da atualidade, e nessa sua versão, a perspectiva de uma “vida após a morte” não é nada alentadora. Pelo contrário do que pregam a maioria das igrejas. Self apresenta neste livro uma galeria de personagens bizarros vivos e mortos, como a protagonista Lily Bloom, uma velha rabugenta, racista, politicamente incorreta, odiosa, incapaz de qualquer sentimento terno pelo próximo – ela observa até as filhas com uma "objetividade fria" – mas é também hilariante, que depois de sucumbir ao câncer começa a desfilar suas lembranças sem poupar nada nem ninguém. “Não consigo tocar gente negra a menos que seja obrigada”, disse a paranóica numa de suas crises de superioridade.
Judia americana radicada em Londres, não foi uma mulher muito agradável em vida, e não haveria por que sê-lo na morte (*dispara tiradas anti-semitas de fazer empalidecer um nazista). Consta que a personagem de Lily foi inspirada na mãe do autor, ela também uma judia americana que se radicou em Londres e se casou com um não-judeu inglês. Se isso foi verdade mesmo, o autor deve ter tido uma infância infernal. "Nunca se deixe abalar por um homem cujo sobrenome pode ser lido de trás para a frente", escreveu o autor.
No livro, depois de perder a batalha contra o câncer, a amargurada Lily é levada por um taxista cipriota e por seu novo guia para o mundo dos mortos: o subúrbio. Em meio a um programa de 12 passos destinado a lhe ensinar a estar morta, a refeições ingurgitadas e regurgitadas por convivas mortos em volta de uma mesa de restaurante, Lily relembra a própria vida. E não há nada de nostálgico nessas lembranças.
Todas as personas no livro são prisioneiras de um indefinido estado imaterial, os defuntos do romance não têm olfato, não podem fazer sexo e não são capazes de ingerir comida. Como fantasmas, não parecem capazes de assustar ninguém – pelo contrário, tomam sustos cotidianos das mais variadas divindades: Jesus Cristo faz aparições na cozinha e o deus hindu Vishnu, no banheiro. "Só menciono isso porque ainda tenho fome de sexo - ainda, com a Morte me lambendo, me fuçando com a sua cabeça ossuda". 
O mais desalentador na história, porém, é que, salvo as bizarrices clichês sobrenaturais, a existência dos mortos difere em muito pouco da vida terrena. Mas o escritor é dotado de uma imaginação ao mesmo tempo convincente e delirante, a quem se podem perdoar os exageros de tom, mas, como já disse demasiadamente cansativo. Self sugere até que a morte não traz nenhuma sabedoria transcendente, e que tudo o que se carrega para o "outro lado" é a mediocridade. Mas o recado é passado de forma cínica e com muito humor – um humor bilioso de tão negro. Os mortos do autor não seguem um túnel de luz para planos superiores. Eles apenas mudam de bairro. Uma prova disso é o subúrbio dos mortos que Self criou nesse romance – um lugar que chega até a despertar nostalgia do velho inferno católico. Indicado ao prestigioso prêmio literário britânico Whitbread em 2002, “Como Vivem os Mortos” expõe também, com muito sarcasmo e inteligência, toda a futilidade do mundo moderno. (“COMO VIVEM OS MORTOS”, de Will Self, tradução de José Rubens Siqueira, 366 pág; Objetiva - 2002)
>>> leia aqui o Capítulo 1 <<<
fotos: divulgação
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