Por Elenilson Nascimento
A chegada do Marcelo
Mirisola ao mercado editorial brasileiro, em 1998, com a publicação do livro de contos “Fátima fez os pés para mostrar na choperia”, foi marcada por muito alarde. Na época, ele disse: “Eu virei leitor mesmo com uns 24, 25 anos. Antes disso eu não lia nada”, como se isso fosse algum tipo de justificativa. Ele, porém, nunca escondeu que a literatura foi uma descoberta tardia em sua vida. Mas se a adolescência passou à margem das obras literárias, tudo mudaria após a descoberta de “Pergunte ao pó”, o despojado e fundamental romance de John Fante. Foi dessa forma que a literatura encontrou um leitor em Mirisola. “Eu tinha nojo daquela literatura para vestibular”. O engraçado que nisso somos bem parecidos.
Mirisola é um autor de São Paulo, bacharel em Direito, que não exerce a profissão, mas que tem uma imensa vocação de incomodar os leitores e supostos críticos. Nesse outro livro de contos, “O herói devolvido”, de 2000, o autor transita num universo literário muito vulgar próximo a Bukowski, Henry Miller, Nelson Rodrigues ou, em outro contexto, Dalton Trevisan, mas com muito menos elegância. O livro contém trinta contos fortemente autobiográficos, em que o humor, muitas vezes caústico, e o sexo, beirando a perversão e o mau gosto, são temas constantes. Mas adorei a orelha do livro assinada por Mário Bortolotto que escreveu que o autor “não consegue dissociar a literatura da sua vida”.
E já que o Mirisola adora escrever sobre bucetas, picas, rolas e etc., nenhum lugar como a nossa cama para consumir essa literatura. Cama é boa para dormir, namorar, transar, ver um filme agarradinho e, por que não? Ler muito também! E não estamos falando de jornais ou livros do trabalho, mas de romances eróticos que fazem a imaginação ir às alturas. Mas, muitas vezes, uma tira diária desse tipo de literatura necessita de muito mais atenção ao mundo que o cerca, um pouco de inspiração e muita transpiração. É claro que existem autores em que essa equação tosca se torna inalcançável, e parece que foi num dia assim que o Mirisola publicou esse livro, que mais parece um cartum de uma pin up (traduzindo para o delicioso e politicamente incorreto: uma gostosa), tapando um espaço sem ideia. Mesma assim, só a partir daí, “O herói devolvido” começa a marcar presença nas livrarias e depois ganhou espaço cativo na listas dos pervertidos de plantão.
É inegavelmente que os traços de Carlos Zéfiro, o sancanólogo que embalou o Brasil inteiro nos anos 50/60 com os legendários “catecismos”, deve ter tido alguma influência nos contos de Mirisola.
O livro é uma coletânea onde a única função é falar sobre paus e bucetas. Logo no primeiro conto, “À guisa de orquídeas”, dedicado para uma tal de Maria Rita, só não sei se foi para a filha da Elis, o autor escreve: “Cadê minha putinha? (...) A gente fodia legal. A garotinha do porta-retratos olhava pros meus testículos rosados”. Em “Eva é nome de buceta”, dedicado, lógico, para Bukowski, ele relata o desconto que a prostituta fez por uma transa, mas vai além: “Ela chupava. Ela falava”.
Em “A praça do ovo”, ele diz: “Perdi o cabaço num sobrado da rua Guimarães Rosa. Curioso, né?” Noutro conto, “Os noivos”, o autor escreveu: “O homem com vícios é um canalha viciado. (...) Creio que, além, de poético, sou um babaca melancólico. Quase honesto”. Em “Três casos ordinários”, um dos contos mais críticos do livro, ele escreveu: “Sem querer chutar virgens e entoar o mesmo cântico dos meganhas da Universal do Reino do Edir – que todos eles, os rufiões e macumbeiros, fundamentalistas e gente humilde em geral, hare krishnas e DJ’s andróginos, xiitas e a xoxota daquela macumbeirazinha em particular, judeus ortodoxos e os carecas do ABC, todos, absolutamente todos, sem exceção, se melequem e explodam pelos ares”.
Acho que graças ao conto “Basta um verniz para ser feliz”, Mirisola deve ter tido uma excelente acolhida da crítica e foi até saudado como um dos talentos mais promissores da nova literatura brasileira, ao mesmo tempo repugnante e genial, pois o conto sintetiza bem esse período de mesmice em que vivemos: “O que eu gosto nele é a vida minúscula e bem-sucedida que leva. (...) Eu sou um cara simpático. Capaz de cantar ‘Feelings’ inteirinha e desafinar no momento adequado somente para agradá-los”.
Graças a esse livro, este escritor de 45 anos, paulista radicado no Rio, lançou mais sete livros, entre eles “O homem da quitinete de marfim”, os romances “O azul do filho morto”, “Bangalô” e “O Banquete” (*com textos a partir de imagens de Caco Galhardo). Participou também das antologias “Geração 90: manuscritos de computador”, “Geração 90: os transgressores”, ambas organizadas por Nelson de Oliveira e “Putas”, lançada em Portugal pela Quasi Edições (2002).
Mas, politicamente incorreto e avesso ao marketing, acabou se envolvendo em diversas polêmicas. Transportando o tom cáustico e iconoclasta de sua ficção para as crônicas (que hoje publica regularmente no site Congresso em Foco) e outros textos de intervenção, Mirisola angariou desafetos no meio literário e editorial, ao atacar celebridades e criticar eventos como a FLIP – além de colegas ficcionistas “fofos”, que supostamente integram as famosas “panelas fechadas” e se elogiam mutuamente, para participar de um circuito de festas e viagens, patrocínios e premiações. Só por causa disso, o autor já tem toda a minha admiração!
Coincidência ou não, o seu novo livro “Animais em extinção”, está sendo mal recebido pela crítica, embora dê uma continuidade natural a seu projeto radical de desconstrução das convenções literárias, numa literatura regada a altas doses de sexo, violência e escatologia.
Mas nesse “O herói devolvido”, apesar de cansativo, não pelo tema, mas pela repetição de ideias, contos como “Guia sentimental da ilha” (“Isso aqui não é uma tentativa de inventar uma mitologia pessoal”); “Pepe, um cara legal”, onde o autor fala que manteve relações sexuais com um deficiente mental (“Pepe ganha roupa, pasta de dente, pega ônibus, quase todo mundo gosta dele e, de vez em quando, ele ainda descola um caralhinho para chupar. O nome disso é bom senso”); e “A história de Mônica Flaksbaum” onde ele descreve um casamento moderno: Mônica, uma ruiva de trinta e cinco anos com uma borboleta tatuada nos arrabaldes da púbis, casou com Antonio e tiveram uma filha Antonia. Depois casou com o irmão de Antonio, o João, e tiveram a Joana, e depois foram morar todos juntos, são bem interessantes, apesar da falta de noção.
Os Marcelos (Rubens Paiva e Mirisola), Reinaldo Moraes e Marcelo Coutinho, na Bienal do Livro de 2009.
Em suma, um livro debochado que resgata lembranças de amigos, amantes, desilusões amorosas e aventuras sexuais. Tem como audiência e musas inspiradoras: várias ninfetas putas ou putas não tão ninfetas assim. É como se Charles Bukowski reencarnasse na Praça Roosevelt e escrevesse uma nova crônica do amor louco: não é para todos os gostos, mas, como sugere o próprio Mirisola, o escritor precisa correr riscos. Gostei do livro!
O autor possui vários contos publicados em diversos jornais e revistas do país e publicou em capítulos a novela “Acaju”, a gênese do ferro quente na revista “Cult” (2000). Escreve crônicas no AOL. Não tem prêmios nem medalhas, tampouco se considera outsider. (“O HÉROI DEVOLVIDO”, de Marcelo Mirisola, contos, 191 págs, Editora 34 – 2000)
imagens: divulgação

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