segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O RETRATO DE DORIAN GRAY (O Filme)

A ‘era da cirurgia plástica’ nos traz de volta à questão que Oscar Wilde já tratava no século XIX. Mas fiquei meio decepcionado com o filme!”

Por Elenilson Nascimento

“Eu irei ficando velho, feio, horrível. Mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho... Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!”, Oscar Wilde (1854-1900), in “O Retrato de Dorian Gray” – 1891.

A história do moralmente corrupto e belo Dorian Gray é literalmente jogada de qualquer jeito no cinema, numa produção cheia de efeitos especiais, mas carente do resto que tornou a obra de Oscar Wilde mundialmente conhecida. No livro, que também resenhei aqui, os anos passam e sua beleza e juventude continuam a ser mantidas. Um retrato seu que ele mantém para si, escondido de olhos alheios, guarda seus segredos - à medida que os anos vão passando, o retrato vai exibindo sua feiúra interior. Aos poucos, porém, suspeitas começam a acontecer com relação a seu comportamento e vitalidade.

“The Dorian Gray”, 2009.

Mas como discutir a verdadeira arte que parece algo fora de moda nestes tempos obscurantistas do descartável em que vivemos? No filme “O Retrato de Dorian Gray”, o diretor trabalhou com elementos triviais do suspense sobrenatural, bem conhecidos do espectador, da mansão mal-assombrada aos gritos guturais e flashbacks em preto-e-branco, mas esqueceu do essencial: a alma do Dorian!

O tempo todo moralista, o filme mostra de fato tudo aquilo que o livro apenas sugeria (*o homoerotismo, a confissão dos pecados) e simplifica passagens que antes davam profundidade aos personagens, como a morte da jovem atriz Sibyl, amante de Dorian - que no livro o galante e pervertido Dorian compara, ao seu modo esteticista, com "a terrificante beleza de uma tragédia grega".

“The Dorian Gray”, 1945.

Diante do mau uso do personagem no filme “A Liga Extraordinária” (*lembram?), esse novo “O Retrato...” seria um ótimo retorno do jovem eterno e sacana ao cinema, mas o filme do diretor londrino Oliver Parker também não faz justiça ao único e maravilhoso romance de Wilde. A clicheria vagabunda se completa com o bigodinho de diabo de Colin Firth e a tentação da serpente no bacanal com música africana. Uma pena, o filme poderia ter sido muito melhor!

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