quinta-feira, 13 de outubro de 2011

PARA VIVER UM GRANDE AMOR

“Quando deixa a poesia em segundo plano para se tornar showman da MPB, para viver nove casamentos, para atravessar a vida viajando, Vinicius está exercendo, mais que nunca, o poder que Drummond descreve, sem conseguir dissimular sua imensa inveja.”

Por Elenilson Nascimento

Um dos muitos biógrafos de Vinicius de Moraes, José Castello, autor do excelente livro “Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão - uma biografia” escreveu que o poeta foi um homem que viveu para se ultrapassar e para se desmentir; para se entregar totalmente e fugir, depois, em definitivo; para jogar, enfim, com as ilusões e com a credulidade, por saber que a vida nada mais é que uma forma encarnada de ficção. Mas Vinicius foi, antes de tudo, um apaixonado — e a paixão, sabemos desde os gregos, é o terreno do indomável, perigoso e mortal. “A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana”, escreveu o poeta.

Mas Vinicius também passou a vida inteira rompendo convenções sociais. Passou da poesia culta (*e muitas vezes chata e acadêmica demais) para a popular, misturando ritmos brancos com negros, samba com candomblé e o comportamento aristocrático com o boêmio – o que gerou um desconforto em muitos publicáveis. E, indo contra a maré, derrubou todas as convenções também na área literária, usando o soneto após a revolução modernista de 1922, que cassava os olhos e a cabeça.

No filme/documentário “Vinicius” de Miguel Faria Jr. podemos contemplar com certa admiração o diplomata de carreira que escandalizou a sociedade ao dar entrevistas cantando com um copo na mão. Muito engraçado! Mas foi nas parcerias com Tom Jobim, na sua peça “Orfeu do Carnaval”, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, ao ser transformada por Marcel Camus no excelente filme “Orfeu Negro”, que ele começou a incomodar.

Muito mais tarde ainda junto a Tom e o chatinho do João Gilberto criou a bossa-nova, um dos principais movimentos de renovação musical do Brasil. Entre os sucessos de Vinicius, destacam-se “Tarde de Itapoã”, “A felicidade” (“Tristeza não tem fim, felicidade sim”), “Garota de Ipanema” e muitos outros clássicos da MPB, como “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”, “Samba da benção” e outros. Se bem que eu adoro “A foca” (“Quer ver a foca ficar feliz? É pôr uma bola no seu nariz. Quer ver a foca bater palminha? É dar a ela uma sardinha”).

Mas qualquer que seja a análise feita da obra de Vinicius, não se pode escapar das palavras "mudança", "evolução", "transição". E essa coletânea de crônicas e poesias é exatamente isso. Logo de cara, ela é precedida por uma “Advertência” do autor (*mas ele não assinada), onde diz que “os poemas, muitos dos quais escritos nesse mesmo interregno, visam a amenizar um pouco a prosa: dar-lhe, quem sabe, um "balanço" novo”.

O livro é demasiadamente descomprometido com regras e estilos, mas é muito charmoso. Admiramos o poeta viril e terno em poesias como “O poeta aprendiz” (aquele poeminha que a Adriana Calcanhoto musicou); um poema delicioso chamado “Poema para Candinho Portinari” em homenagem ao grande artista plástico brasileiro; “Poema para Gilberto Amado”, em homenagem ao seu amigo jornalista e poeta (“O homem que pensa, tem a fronte imensa. Tem fronte pensa”); em “O poeta e a rosa e com direito a passarinho” é de uma ingenuidade impressionante; “O mosquito” é divertido e “O anjo das pernas tortas” é uma homenagem ao Mané Garrincha.

Sua poesia, além de ser a encarnação do movimento e do transitório, elege a busca como motor primordial: do divino, da coisa ordinária, do homem concreto, do homem social, do homem banal, do amante e, sobretudo, da mulher. E na busca da mulher, das infinitas mulheres que se concentram e se desprendem de uma mulher, a afirmação do motivo principal: POESIA.

No poema “Não comerei da alface a verde pétala...” tem, no rodapé, uma observação bem interessante: “Iludia-se o poeta. Num tempo em que as coisas andaram meio pretas...”. Em “Carta do ausente” parece uma despedida, onde observamos atônitos que o que torna Vinicius um dos melhores poetas é a sua percepção do lado obscuro do homem. E a coragem de enfrentá-lo. Parte, desde o princípio, dos temas fundamentais: o mistério, a paixão e a morte. Quando deixa a poesia em segundo plano para se tornar showman da MPB, para viver nove casamentos, para atravessar a vida viajando, Vinicius está exercendo, mais que nunca, o poder que Drummond descreve, sem conseguir dissimular sua imensa inveja: "Foi o único de nós que teve a vida de poeta".

Vinicius, já showman da MPB, ao lado da jovem Bethânia.

Contudo, o mais interessante nesse livro, é que eu desconhecia – por ignorância – o lado Vinicius cronista, transcendental e carnal, caudaloso e contido, onde ele fez de sua obra o lugar do encontro e da despedida. “Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor. Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... - não tem nenhum valor”, escreveu na crônica que deu origem ao título do livro.

Mas logo no primeiro texto que abre a antologia, chamado de “O exercício da crônica”, ele escreveu: “Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis”. Talvez, nenhum outro poeta personifique tão bem e ao mesmo tempo o apolíneo e o dionisíaco, tanto na obra quanto na vida: ao lado da sobriedade e da lucidez já bem precoces, surge e cresce o espírito da embriaguez e da entrega total, em nome da reflexão e da vitalidade que reinam em sua poesia.

Em “A arte de ser velho” ele se queixa e diz que “nem todos os velhinhos seja flor que se cheire”; faz uma homenagem a Oscar Niemeyer numa crônica com o nome do arquiteto; escreve sobre a década de 20 e desnuda a solidão: “A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre”. Lindo isso!

Mas lá no finalzinho do livro encontramos “Pedro, meu filho...” uma crônica emocionada dedicada ao filho. E também, nos textos inéditos, “O morto” e “Carta mortuária a Dolores Duran”. Enfim, não importa que Vinícius parta do etéreo para chegar ao real, o que mais vale em sua obra é a busca da fusão com a vida. Vinícius de Moraes morreu aos 66 anos, em 9 de julho de 1980, no Rio de Janeiro, mas suas obras sobrevivem até hoje. (“PARA VIVER UM GRANDE AMOR”, de Vinicius de Moraes, crônicas e poemas, 222 págs, Cia das Letras – 1991)

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