quarta-feira, 2 de novembro de 2011

UMA CASA ASSOMBRADA

“Achei o livro muito interessante, apesar de obscuro, onde Virginia inseriu-se na impressionante cadeia das mulheres inglesas, nascidas a partir de 1800, que produziram boa literatura.”

Por Elenilson Nascimento

Eu já gostava dessa autora antes mesmo de saber quem era ela. Decorava suas frases para impressionar no colégio. Lembro agora de coisas do tipo: “O preço barato do papel é a razão por que as mulheres começaram por ter êxito na literatura, antes de o alcançarem noutras profissões”. Ou então: “A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata”. Mas essa é a que eu mais gosto: “Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial”.

Nunca consegui encontrar seus livros nesse “cu de mundo” chamado Salvador. Nas livrarias, os vendedores me diziam que ela era difícil de vender. E, muito tempo depois, acabei encontrando-a no excelente filme “As Horas”, com (*ainda linda) Nicole Kidman vivendo a feiosa e problemática escritora.

O filme baseia-se no livro de Michael Cunningham, que até hoje também ainda não consegui ler e que, por sua vez, se inspirou no romance “Mrs. Dalloway” da Virginia Woolf – o assunto principal dessa resenha. O enredo do filme trata da história de três mulheres que carregam em suas vidas muitos sentimentos em comum, como a insatisfação e o fracasso. Retratos de vidas medíocres em épocas diferentes que se entrelaçam através do cultuado livro “Mrs. Dalloway”. Uma mulher que gostaria de ser a personagem do livro da Virginia, uma que o escreve (*a própria Virgínia, interpretada por Nicole), e outra que a vive.

Uma das muitas cenas incríveis do filme mostra, logo no início, as três mulheres se levantando pela manhã, concomitantemente, quando Virgínia escreve, Laura lê e Clarissa fala a mesma frase: “Acho que eu mesma vou comprar as flores”, e uma outra cena onde vemos o suicídio de Virgínia, retratado de forma simbólica, mas muito forte. Chorei horrores!

Mas não é do filme que eu quero escrever aqui, mas de um outro livro da Virginia que achei por acaso na biblioteca. “Uma Casa Assombrada” é um pequeno livro reúne 21 contos curtos da Virgínia, num estilo bem direto bastante original para a época, mas bem característico da autora, pela ruptura que produz na forma tradicional da narrativa ao privilegiar a reflexão, a fantasia, o cruzamento de pensamentos, tempos e espaços.

No conto “A marca na parede”, por exemplo, ela escreveu: “Compreendo o jogo da Natureza – sua presteza para agir de modo a eliminar qualquer idéia que induza à excitação ou à dor”. Num outro, chamado “O vestido novo”, ela mostra a plasticidade da sua escrita (a recorrência de notações sensoriais, a atenção aos efeitos de luz, à disposição dos objetos numa sala, por exemplo) que nos remete para uma aproximação ao real: “Parecemos moscas rastejando sobre a borda de um pires (...) Quando se atormentava, ocorriam-lhe citações de Shakespeare, frases que lera muitos anos atrás, e repetia-se vezes sem conta”. Pelo menos eu também tenho o costume de recorrer á citações quando fico nervoso!

Mas, por outro lado, e em simultâneo, o livro nos conduz a uma percepção de que, por trás dos objetos e dos corpos físicos humanos descritos por Virginia, há toda uma alma, um espírito, um tempo, uma corrente de pensamento que fluí interminavelmente, independente da efemeridade das coisas e da vida. E concordo inteiramente com ela quando diz, nesse mesmo conto: “Nesse aspecto da natureza humana, com sua paciência e sua tolerância e sua capacidade de contentar-se com tais pequeninos prazeres miseráveis, escassos e sórdidos...”
Esse livro, nada famoso entre as obras conhecidas da autora, foi organizado por seu marido, Leonard Woolf, que oferece ao leitor a oportunidade de apreciar o processo de elaboração ficcional dessa notável escritora inglesa, falecida em 1941. Leonard assinou também o prefácio, onde escreveu: “Com o presente livro procurei realizar os seus propósitos. Nele incluí seis dos oitos contos ou esboços que apareceram originalmente em Monday or Tuesday” (*nome original de “Uma Casa Assombrada”).

Em muitos contos, principalmente em “A caçada”, “O legado” e “Ancestrais”, a escritora evoca a essência da sua tragédia pessoal. Em alguns parágrafos, podemos perceber que ela sentia-se incapaz de controlar a vida e, como todos sabem, preferiu a morte, afogando-se num rio com os bolsos repletos de pedras. Muita coragem!

No conto “Os alfinetes da Slater não têm Pontas”, no entanto, aparentemente, ela desfrutava das condições que considerava essenciais para uma mulher: se afirmar como escritora, advogadas. Mas em “O quarto de cordas” – ela parece dispor de espaço físico e psicológico e de dinheiro suficiente para se bastar a si própria. Achei o livro muito interessante, apesar de obscuro, onde Virginia inseriu-se na impressionante cadeia das mulheres inglesas, nascidas a partir de 1800, que produziram boa literatura.

Reconhecida em vida, apoiada pelo seu marido, igualmente escritor, Virginia produziu nove romances, duas biografias, sete volumes de ensaios, vinte e seis cadernos de diários e um sem número de cartas. Dizem os seus biógrafos, que ela nasceu numa família que estimulou os seus talentos, mas teria sido objeto, na infância, de abuso sexual por parte dos seus meio-irmãos mais velhos. E provavelmente estas circunstâncias, aliadas a lutos familiares (*a mãe morreu quando ela tinha 13 anos) e aos horrores de duas guerras mundiais, serviu aos seus numerosos estudiosos para tentar “explicar” as muitas depressões de que sofreu e as tentativas de suicídio que realizou até ao encontro definitivo com a morte.

“Mas a vida. A lenta derrocada dos grandes caules verdes de tal modo que a flor acaba por se virar, ao cair, inundando-nos com uma luz de púrpura e vermelho. Porque é que, bem vistas as coisas, não nascemos ali em vez de aqui, desamparados, incapazes de ajustarmos como deve ser a luz do olhar, rastejando na erva entre as raízes, entre os calcanhares dos Gigantes? Porque dizer o que são as árvores, e o que são homens e o que são mulheres, ou sequer o que é haver coisas como árvores, homens e mulheres, não será algo que estejamos em condições de fazer nos próximos cinquenta anos. Não há nada por vezes senão espaços de luz e de escuridão, intersectados por grandes hastes densas e talvez bastante mais acima manchas em forma de rosa – rosa-pálido ou azul-pálido – de cor indecisa, e tudo isso, à medida que o tempo passa, se vai tornando mais definido e se transforma – em não se pode saber o quê”, escreveu. Lindo isso, não? ("UMA CASA ASSOMBRADA", de Virginia Woolf, contos, 207 págs, Nova Fronteira - 1923)

>>> clique aqui e leia o conto “Uma casa assombrada” que deu nome ao livro <<<

+ Abaixo, o suicídio de Virginia Woolf, no filme “As Horas”:

imagens: reprodução

0 comentários: