quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

AS VÍTIMAS ALGOZES

Enquanto a sempre retrograda UFBA segue com uma série de critérios exclusos e inspirados pelo Espírito Santo para definir a lista de obras para o vestibular, muitos professores andam se rebelando e defendendo que essas escolhas deveriam ser revistas.”

Por Elenilson Nascimento

Quais são os critérios que os professores doutores (ou sei lá quem) utilizam para as escolhas dos livros indicados nesses vestibulares da vida? A elitista UFBA, por exemplo, que usa o praticamente desconhecido “A correspondência de Fradique Mendes”, de Eça de Queirós; “Quarup”, de Antônio Callado; e o chatérrimo “O Último voo do flamingo”, de Mia Couto. Sem falar do “Nação Crioula”, do angolano José Eduardo Agualusa e dos eternamente classificados como necessários “Cadernos Negros - Os melhores poemas”, uma antologia publicada pelo Fundo Nacional de Cultura/MinC. E com tantos outros livros mais significativos, os professores doutores sempre escolhem as mesmas “lições” de sempre. Cadê Jorge Amado, João Ubaldo e Ildásio Tavares? Cadê as poesias de Castro Alves e Myriam Fraga? Cadê as letras abolicionistas do Manuel Querino? Cadê a putaria do Gregório de Matos? Cadê o Ruy Espinheira? E olha que esse último é professor dessa facu! Cadê os novos autores?

A definição dos livros escolhidos para um vestibular deveria ser discutida, mas, como sempre, não existe democracia e inteligência dentro das universidades e na UFBA não é tão diferente assim. A lista das obras não é factível e não cumpre o seu papel de estimular e divulgar a leitura (*os alunos estão lendo por obrigação). Livros demasiadamente fora do contexto de uma geração cadê vez mais analfabeta e decoradora de resenhas e discursos para marcar “xis” nas provas.

Quantas obras um aluno realmente consegue ler com proveito e profundidade no período escolar? Duvido muito que isso esteja acontecendo nas escolas! E no ano do vestibular, momento em que ele tem muitas outras matérias para estudar, para que ele não se sinta um incapaz e de fato aprenda? A qualidade da avaliação aumentaria se o tema da Redação, por exemplo, também abordasse questões de Literatura Brasileira. Mas isso está muito longe de acontecer! Esse ano tivemos até uma faculdade que usou uma letra de música e a morte de Amy Winehouse como um assunto muito pertinente só para mostrar que é “antenada”, e os estudantes acabam tendo que reproduzir o que esses senhores “acham” que seja avaliação e que não avaliam a sua capacidade de reflexão, e isso tudo é uma pena. Por que não repensar a prova? Porque isso dá trabalho! .

Adequados? Improdutivos? Ousados? Anarquistas? Informativos? Históricos? Poucos? Muitos? As opiniões sobre os livros cobrados nos vestibulares para selecionar uns entre a boiada variam bastante entre os professores de Literatura. Há quem discuta a desproporção do número de livros pedidos com a qualidade e a quantidade de questões sobre eles. Outros, interessados que os alunos adquiram o hábito da leitura, advogam por uma lista menor, mas factível. A presença pouco frequente de autores baianos na lista também é sentida por muitos professores.

O livro “As Vítimas Algozes”, de Joaquim Manoel de Macedo, é outro exemplo nestes listões de “lugar algum” e de que alguns critérios que são seguidos somente para definir a lista de obras como algo erudito, mas demasiadamente cansativo. O valor literário, a variação de gêneros e a adequação das obras em relação à faixa etária mediana dos candidatos está bem longe de passar por algum critério. E se for considerada a questão da diferença daquilo que está no programa e o volume avaliado é importante notar que isso acontece com outras disciplinas também.

O livro, escrito na segunda metade do século XIX, em 1869, 19 anos antes da Abolição da Escravidão, não agradou o público oitocentista e recebeu várias críticas publicadas na imprensa, sendo considerado por Ubiratan Machado como “o livro mais atacado pela crítica durante o período romântico”. Então porque agora, em pleno século XXI, ele poderia agradar? Ou na melhor das intenções, educar?
“As Vítimas-Algozes” é, ao seu modo estranho, um romance abolicionista. Dividido em três partes, o livro conta a história de três escravos e os seus desvios de conduta. No capitulo I, a história do Simeão, o crioulo, um rapaz traiçoeiro que mesmo criado e educado muito bem pelos seus senhores acaba cometendo um crime tão odioso quanto ao seu estado de escravidão. Após perder a mãe, que fora ama-de-leite da sinhazinha, tendo sido criado pelos patrões até os oito anos de idade, onde teve prato à mesa e leito no quarto de seus senhores, ele não teve consciência de sua condição de escravo. Mas depois dos oito anos foi apenas privado da mesa e do quarto, mas continuou, porém, a receber tratamento de “filho adotivo”, contudo cresceu desmazelado e imprudente, enfim sem hábito de trabalho.

O crioulo de raça pura africana, cabelos penteados, vestido com asseio e certa faceirice, no entanto, vivia na expectativa de que seria alforriado quando o patrão morresse, o que não acontece, tendo este, em seu testamento, transferido a alforria certa para o momento em que a esposa falecesse. Então, ele passa a alimentar ódio contra os patrões, trama e realiza, juntamente com um comparsa, o assassinato de toda a família e o saque do ouro e da prata que guardava. A história se reveste de maior crueldade porque os proprietários de Simeão se achavam, no íntimo, protetores bem-intencionados do mesmo, tendo, inclusive, na véspera do crime, decidido que iriam alforriá-lo imediatamente. Sistema que, Macedo diz com todas as letras, produz o ódio e o crime, no que o romancista estava se apoiando em dados da sociedade real.
O autor constrói um perfil aterrorizante para o escravo, misto de tigre e serpente, de vítima e algoz, capaz de atacar quando menos se espera. A novela não tem por final um desfecho romanesco, mas a reafirmação da tese do autor: “Simeão foi o mais ingrato e perverso dos homens, pois eu vos digo que Simeão, se não fosse escravo, poderia não ter sido nem ingrato, nem perverso. A escravidão degrada, deprava, e torna o homem capaz dos mais medonhos crimes”, dita o autor, explicando a conduta, a forma de agir a ser adotada pelo leitor.

No capítulo II, a história louca do Pai-Raiol, o feiticeiro, com algumas considerações bem preconceituosas do próprio autor: “o feitiço, como sífilis, veio da África; o escravo africano é o rei do feitiço”. A história começa com o Paulo Borges, um rico fazendeiro, que casara-se aos quarenta anos com Teresa, uma senhora ainda jovem que já lhe dera 2 filhos. Paulo Borges é alto, cabelos castanhos e crespos; fronte baixa sob sobrancelhas bastas; olhos pretos e belos, nariz aquilino; boca rasgada, lábios grossos e eróticos; rosto oval e bronzeado; seco de músculos; peitos largos e mãos engrandecidas e calejadas pelo trabalho. O tipo do lavrador honesto que hoje raramente se encontra, do pobre rico que se subtraia ao mundo, e só queria conhecer a roça e a casa, os escravos e a família, trabalhando sempre, gastando pouco, ajuntando muito, e não pesando a nenhum outro homem como ele. Não comprava homens, comprava máquinas; queria braços e não corações; gabava-se de senhor severo e forte, entrava nos seus timbres amansar os negros altanados e incorrigíveis. Um dia, ele compra de 20 escravos, entre eles Pai-Raiol e Esméria. E nisso começa o drama do Paulo Borges.

O Pai-Raiol seria um negro africano de baixa estatura, corpo exageradamente maior que as pernas; cabeça grande; olhos vesgos, mas brilhantes e impossíveis de se resistir à fixidez do seu olhar pela impressão incômoda do estrabismo duplo e por não sabermos que fruição de magnetismo infernal. Pai-Raiol acabara por dobrar-se humilde às condições da escravidão. Dizem que mudara devido aos seus felizes amores com a crioula Esméria, que com ele convivia e o dominava. Esméria, por sua vez, era uma crioula falsa de 20 anos com as rudes feições da sua raça abrandadas pela influência da nova geração em mais suave clima; em seus olhos, porém, e no conjunto de seus traços fisionômicos, havia certa expressão de inteligência e de humildade que agradou à senhora. Esméria não era o que parecia. Refinara o fingimento. Em sua louca vaidade pretendia ser mais bonita, mais bem feita, mais sedutora do que a esposa do seu senhor, a Teresa. E a história é levara em meio a assassinatos e feitiçarias. E ao contrário do que se pensava não havia uma influência benéfica de Esméria sobre o Pai-Raiol e sim uma influência satânica do Pai- Raiol sobre Esméria. Paulo Borges amava Teresa, mas sucumbiu à sedução de Esméria. O demônio da lascívia deu poder à crioula. O senhor, o velho senhor ficou escravo da sua escrava. O adultério faz da escrava rival da senhora, rival preferida que desordena a casa, enluta a família, e é cratera aberta do vulcão que espalha a ruína. Teresa descobre o adultério e a traição: envelhecera 20 anos em 8 dias. Morre Teresa envenenada por Esméria. Esméria assume a casa do amante. Morre envenenados os filhos de Teresa e Paulo, e Esméria tenta envenenar também o Paulo. Até que surge a escrava Lourença que denuncia Esméria e prova a verdade a Paulo. Pai-Raiol é morto em uma luta pelo tio Alberto que acaba alforriado por Paulo. Esméria é presa. E Paulo Borges acaba arrastando a sombria velhice atormentado pelos remorsos.

O capitulo III é sobre a Lucinda , a mucama. Muito viva e alegre com pretensões a bom gosto no vestir; com aparências de compostura decente nos modos; diligente e satisfeita no trabalho e que trazia dissimuladamente escondidos os conhecimentos e noviciados dos vícios e das perversões da escravidão; corrupta, licenciosa, imoral; indigna de se aproximar de uma senhora honesta, quanto mais de uma inocente menina. Ela é “dada” como presente a Cândida, ainda criança. Cândida - loura, olhos azuis e belos, olhar de suavidade cativadora; rosto oval da cor da magnólia com duas rosas a insinuarem-se nas faces; os lábios quase imperceptivelmente arqueados, lindíssimos, os dentes iguais, de justa proporção e de esmalte puríssimo; as mãos e os pés de perfeição e delicadeza maravilhosas; o pescoço e o corpo com a gentileza própria de sua idade. Cândida antes de Lucinda tinha 11 anos e com a perfeita inocência de sua primeira infância; espírito cheio de luz suave e idéias serenas e preciosas; seu coração era um altar adornado pelo amor de seus pais. Cândida depois de Lucinda era capaz de ser ardilosa e dissimulada para enganar a mãe; "prendeu a alma às palavras venenosas, às explicações necessariamente imorais da escrava". Com o tempo, Lucinda coloca na alma de Cândida a devassidão e o veneno da mentira. Cândida passa a ser difamada e conhecida como namoradeira. E entra na história Frederico, Liberato, o francês mentiroso Souvanel, alem dos pais de Cândida, o honrado Florêncio da Silva e a mãe extremosa Leonídia.

O autor oferece uma primeira ilustração de sua tese no romance ao contrastar a virtuosíssima Lucinda. Diante desse quadro os acontecimentos desenrolam-se naturalmente, sendo que o maior desafio é entender o porquê de Macedo ter achado necessário escrever quase quatrocentas páginas para contar essa história. Demasiadamente chata. A mucama tem uma influência nefasta sobre a donzela, de quem se torna a única confidente nos anos seguintes. Ensina-lhe o que ocorre quando a menina vira moça, desperta-lhe a curiosidade pelos rapazes, ministra-lhe lições de flerte e namoro, mostra-lhe ser mais divertido namorar vários rapazes ao mesmo tempo, e assim por diante, num desfilar constante de idéias destinadas a “excitar os sentidos” da donzela cândida e pura. As lições de amor da mucama eram inspiradas “pelo sensualismo brutal, em que se resume todo o amor nos escravos”; portanto, “a mucama escrava ao pé da menina e da donzela é o charco posto em comunicação com a fonte límpida”.
Com a mucama escrava infiltrada no quarto da donzela, foi possível a um conquistador barato, um francês estróina e ladrão, insinuar-se aos amores de Cândida, conquistá-la efetivamente e tirar-lhe o maior símbolo da honestidade feminina. Lucinda, criatura ruim como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, tornara-se ela mesma amante de Souvanel, tramara tudo com ele, e até abrira o quarto da virgem para a consumação do delito. A ideia era forçar o casamento de Souvanel com Cândida; dado o golpe do baú, Lucinda ganharia a liberdade e ficaria teúda e manteúda do francês. No final, Frederico, criatura virtuosa como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, filho do padrinho de Cândida, apaixonado por ela desde menino, perdoa o erro da amada e casa com ela. Descobrira-se que Souvanel era na verdade Dermany, criminoso procurado na França. O vilão é preso e deportado. Lucinda e o pajem do pai de Cândida, também envolvido na trama para aproximar Souvanel da donzela, fogem dos senhores, são capturados, mas acabam abandonados ao poder público pela família. Frederico, o anjo, fecha o romance e o nosso martírio com um discurso abolicionista que aqui transcrevo, para martirizar o leitor, ou ao menos para dividir com ele o meu sofrimento.
Mas como explica o próprio autor, na nota “Aos Nossos Leitores”, não lhe interessou, nas “educativas” e “moralizantes” histórias que entregava aos consumidores de sua vasta obra, pintar “o quadro do mal que o senhor, ainda sem querer, faz ao escravo”, mas, sim, o “quadro do mal que o escravo faz de assento propósito ou às vezes irrefletidamente ao senhor”. Dito de maneira mais direta, o romance antiescravista de Macedo quer convencer os seus leitores de que é preciso libertar os escravos não por razões humanitárias, mas porque os cativos, sempre imiscuídos nas casas-grandes e sobrados, introduzem a corrupção física e moral no seio das famílias brancas.
Na obra o autor expressa a ideia de que a escravidão faz vítimas algozes e deve ser gradualmente extinta, sem prejuízo para os grandes proprietários de terra. Num tom conservador e usando personagens como a escrava Lucinda, o autor defende a tese de que a escravidão cria vítimas oprimidas socialmente, mas com uma perversão lógica, imoral e com influência corruptora. “Onde há escravos é força que haja acoite. Onde há acoite é força que haja ódio. Onde há ódio e fácil haver vingança e crimes”. (“VÍTIMAS ALGOZES”, de Joaquim Manoel de Macedo, romance, 288 págs, Editora Zouk – 2005)

Cena no filme “Amistad”. Neste filme, é possível conhecer as condições de captura e transporte de pessoas para a escravidão, a máquina judiciária americana do final do século XIX e o nascimento das primeiras medidas para a abolição da escravatura.

fotos: reprodução

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