sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

PAPÉIS INESPERADOS

“Com esse livro, Cortázar mostra que, do além-túmulo, ainda consegue ser melhor que muitos escritores vivos e melhor que a maioria de seus detratores.”

Por Elenilson Nascimento

Em 2010, o livro “Papéis Inesperados”, de Julio Cortázar, foi festejado como um dos melhores acontecimentos editoriais pela crítica e amantes da literatura de todo o mundo. O livro é uma deslumbrante coleção de textos inéditos e dispersos escritos pelo autor de Rayuela” durante toda a sua vida e recentemente encontrados num móvel da sua casa no XV Bairro de Paris.

Apesar de ter escrito também o excelente “O Jogo da Amarelinha”, um clássico do romance moderno, esse autor argentino, que morreu em 1984, era um mestre sobretudo do conto e dos gêneros breves. “Papéis Inesperados” não chega a trazer as principais obras-primas desse autor, mas o livro foi dividido em três partes (prosas, entrevistas perante o espelho, poemas), onde reúnem-se contos nunca antes publicados em livro; histórias julgadas desaparecidas; um capítulo suprimido de “Rayuela”; textos sobre literatura, política, viagens, de emergência, de palmada-nas-costas; auto-entrevistas; poemas inéditos, e muitos outros autênticos tesouros que oferecem ao leitor uma visão completa das várias facetas da escrita de Cortázar.

O livro tem ainda peso, história, imponência de raridade, mas não é o caminho, a verdade, nem a vida: é apenas uma parte que ficou no jornalismo, dispersa, e outra inédita, que Cortázar achou menor, porque o “ruim” na vida do escritor não sobrevive, se transforma em bola de papel acertada fora da lixeira com uma dose azeda de desgosto.

O livro surgiu de um encontro, em 2006, entre um crítico espanhol e a viúva do escritor, Aurora Bernárdez, em Paris. Para a surpresa do crítico, Aurora abriu gavetas de onde tirou uma coleção de papéis velhos – inéditos ou publicações em jornais e revistas que nunca haviam sido editadas em livro.

Tirando poucos textos e as poesias cortazarianas, que não me parecem de qualidade excepcional, os contos, relatos e passagens do livro são demonstrações de um Cortázar em sua melhor forma. O livro abre com um exercício de estilo belíssimo chamado “La daga y el lis”. Escrito num espanhol erudito, com toques medievais, mostra um Cortázar jovem (segundo o editor/coordenador) que escreve com o intuito de desenvolver seu estilo, sua capacidade de domínio da língua. Muito interessante.

Com esse livro, Cortázar mostra que, do além-túmulo, ainda consegue ser melhor que muitos escritores vivos e melhor que a maioria de seus detratores. Ao contrário de tantos livros do autor que não foram publicados no Brasil, principalmente sua obra jornalística, esse livro merecia uma edição caprichada em português. No restante, porém, o livro traz páginas brilhantes, como o texto sobre o desejo da água de ser neve. Lindo! (“PAPÉIS INESPERADOS”, de Julio Cortazar, contos, 490 págs, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, Civilização brasileira – 2010)

0 comentários: