Por Elenilson Nascimento
Ao contrário do que di
Sem dúvida, pode até ser que o poeta precise mais de “tijolo por tijolo versificado”, mas um “editor experiente” saberia muito bem realizar melhor esse trabalho de apresentação – de maneira mais rápida e com menos “temáticas”. Editores não ficam dando “cabeçadas” como eu normalmente fico, ou como o Spinelli também deve ter ficado para publicar. Os processos de produção de um livro (principalmente de poesias – que infelizmente quase não vendem neste país de faz-de-conta) são mais claros para uma editora, é óbvio, já que é seu trabalho... gerar lucro. Mas lucro pra quem? Editores? Escritores? Leitores?
Quem não gosta de opinar e de criticar alguém? Quantas foram as críticas que já não lemos e discordamos, quantos artistas já não reclamaram dos críticos e quanta polêmica as críticas já não produziram? No entanto, muitos desses textos que causam tanta discórdia e despertam paixões, que mexem com os ânimos de artistas e que circulam por aí, em revistas, jornais, sites (e até aqui nesse humilde blog), entre outros veículos de comunicação, nem sempre podem ser considerados, a rigor, críticas literárias.
No entanto, falar de poesias num mundo hedonista e capitalista como o nosso é o mesmo que dizer que a Xuxa deveria ser canonizada pelo papa Bento XVI. A etimologia de "crítica" vem da palavra grega krimein, que significa "quebrar" e também influenciou na formação da palavra "crise". A idéia da crítica é “despedaçar” uma obra em pedaços para se pôr “em crise” a idéia que antes se fazia, através de uma análise.
Para tanto, é necessário ENTENDER as partes do objeto que será analisado para justamente descrevê-lo. E no caso de poesias é a coisa mais complicada desse mundo, pois é um gênero da literatura totalmente particular. Cada um interpreta a sua maneira. O poeta cria justamente para essa função: PENETRAR para DILUIR na ALMA. Exatamente como um ato sexual (e para quem ainda nunca tentou: é muito gostoso!). A partir daí, o crítico faz sua própria interpretação de acordo com o contexto em que se encaixa o artista e sua obra.
E no caso da coletânea de poemas “Sem Lugar” do poeta, professor de sociologia e pesquisador de movimentos sociais, vencedor do prêmio “Novos Autores Paraibanos”, e que também participou da antologia “Poemas Dispersos” (2006) da Coleção Literatura Clandestina, organizada por esse que agora escreve – clique aqui –, agradou-me a atenção ao quotidiano e ao efêmero, que convive com discretos apelos ao eterno (“Tenho 40 apesar dos 25 às vezes 70”); agradou-me a modulação coloquial (“Sua consciência sã, sua farmácia de Lexotan”) e o fôlego versificatório (“Pro-funda víscera morta”) e os “cacos de vidro andantes”, sabiamente pontuado, sobretudo por parênteses; agradou-me também a permanência de uma estrutura poemática (dissonantes), no entanto submetida a flutuações ou variações que sugerem a do curso dos dias, a escrita alusiva, sintética, sincopada e elíptica e agradou-me, sobretudo, a atitude dominante do poeta Spinelli na sua relação dialogante e orquestrada com as coisas, os homens (e as mulheres).
Este jovem poeta, que desde a publicação de “Des destinado” nos “Poemas Dispersos”, tinha-nos já surpreendido pela qualidade de suas linhas – e, tanto quanto nos lembramos, riscados para este livro, onde há aspectos a ter em linha de conta, pois “era hora de pagar a conta”. Seus poemas vivem de uma contraposição (“Pai sem dedo, mãe sem carne, filho que ninguém sabe”) – instalada no corpo íntimo de cada texto – entre o lado, passe a expressão, mais depuradamente poético (o conjunto de imagens que de imediato associamos a verdadeira e gratificante arte poética – lembre-se do gozo gostoso lá do terceiro parágrafo!) e um tom marcadamente coloquial com ancoragem no quotidiano (sejam lugares ou moradas, conhecidos ou desconhecidos, amigos ou amores, casas ou as suas memórias – “De mim ninguém conhece 1/5”.
Mas, de fato, dito de outra maneira, talvez mais escancaradamente esclarecedora: há em Spinelli um constante invocar da memória de pessoas ou coisas que se situa ou no plano do amor ou que enviam para o que figuramos ser a morte (“Eu carne de pescoço, carne e osso e osso e osso”) – adoro esses tipos de poemas.
E, diga-se em abono da verdade, sintomático este último excerto: o poema como que se suspende – a sua conclusão fica nas margens (sombras) dos versos ou do que aí podemos desejar ver (“Em todo santo lugar, sou derradeiro estrangeiro: cão clandestino que caga em jardins alheios”). Repare-se: a suspensão do poema é, por um lado, sinal de morte – mas pode ser, também, tão só o desejo de o retomar incessantemente seja pela possibilidade da escrita seja pela memória que aí quisermos instalar. Em suma, Spinelli é mais um dos vários talentos que estão saindo do casulo, tirando os escritos das gavetas e lançando livros. E que seja muito bem-vindo, pois como ele mesmo disse “poeta não tem de ser seda: que seja CRESPO; poeta não tem de ser sensível: que seja VIVO; poeta não tem de ser ancho: que seja SECO”. (“SEM LUGAR” de Vamberto Spinelli Júnior, poemas, 63 págs. João Pessoa, 2007 - Ed. Universitária UFPB).
fonte: E. Nascimento, O Rebate, 20/04/08
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