quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

SÁTIRAS, FÁBULAS, AFORISMOS E PROFECIAS

“Suas fábulas são cheias de uma moral amarga, ao passo que seus aforismos e suas enigmáticas profecias resumem sua ambiciosa visão da arte e do universo.

Por Elenilson Nascimento

Um dos mais completos artistas renascentistas, Leonardo Da Vinci, nasceu no ano de 1452, e até hoje é admirado e citado, como foi o caso do sucesso mundial do livro “O Código DaVince”, que tornou o autor Daw Brown milionário. Contudo, a sua produção científica genial oculta em rascunhos e codificações nunca se destacaria tanto, como o fez sua obra artística, pois esse viés criador lhe garantiria fama e recompensas imediatas.

Em 1469, por exemplo, o artista foi para Florença e deu início a sua trajetória na esfera das artes, cursando pintura no atelier de um famoso pintor. Hoje, esse renascentista é lembrado, sobretudo, como o pintor da manjadíssima Mona Lisa. Contudo, comparada à sua impressionante obra nas artes visuais, sua literatura é secundária – mas nem por isso deixa de ser fascinante.

"Os meus segredos". Era dessa forma que, em 1482, o prolífero Leonardo enchia os seus cadernos de anotações e se referia às suas aptidões e, num tom muito frio e calculado, oferecia seus serviços para tempos de guerra e de paz. Dizia-se capaz de construir pontes portáteis para perseguir o inimigo, cavar túneis por baixo de rios e destruir fortalezas. Afirmava também ter inventado um novo tipo de bombarda, uma carreta blindada e um navio à prova de bombas. Também tinha planos para a construção de estranha arma submarina de defesa e ataque. Além disso, proclamava que, em época de paz, poderia realizar obras de pintura e escultura ao nível de qualquer artista importante da época.

Em “Sátiras, Fábulas, Aforismos e Profecias”, Leonardo evita as matérias técnicas, como os estudos sobre perspectiva, para apresentar o seu lado cortesão e até galhofeiro. Concebidas para ser recitadas em salões nobres, as sátiras representam uma visão irônica da sociedade italiana do tempo do autor.

E uma das muitas facetas da genialidade artística de Leonardo está exatamente expressa nesta obra, que inclui trechos de seus manuscritos marcados pelo gênero então chamado de "ditos espirituosos", declamados às plateias compostas pelos representantes da nobreza à época, entre os séculos XV e XVI.

O genial artista sabia manusear com maestria a narração de histórias baseadas na sátira, caricatura e galhofa como fonte de divertimento e gargalhadas dos cortesãos e aristocratas de seu tempo. Um “piadeiro dos bons”, como revela na introdução, Rejane Bernal Ventura, organizadora e tradutora da obra, “por ser um homem sábio, de boa aparência, prosa eloquente e um excelente contador de histórias, Leonardo era bastante requisitado para entreter os nobres em suas reuniões...”

Ela explica também que, no livro, as sátiras de Leonardo perpassam o riso picaresco, a ironia e o sarcasmo, além da mordacidade. Nas fábulas, ele cria um personagem animal, ao qual atribui características humanas, como fala, sentimentos e reflexões. E nesse repertório, não pode faltar a figura do padre lascivo, presente no quase pornográfico “A Lavadeira e o Padre”. Engraçadíssimo!

E essas fábulas são cheias de uma moral amarga, ao passo que seus aforismos e suas enigmáticas profecias resumem sua ambiciosa visão da arte e do universo. “Felizes são aqueles que ouvirem as palavras dos mortos”, diz Leonardo, referindo-se à leitura de bons livros. Explorador de todos os ramos do conhecimento, esse artista não concebia limites para seus sonhos, desejos ou fantasias. E disso resultou sua glória e tragédia. Idealizou inúmeros projetos, mas completou apenas alguns. Abandonava os trabalhos ao perceber que a execução não correspondia ao desejado. Sua vida foi repleta de fragmentos de obras, alguns extraordinários. Pouco antes de morrer, escreveria amargurado: "Nunca terminei um só trabalho".
Mesmo assim, deixou mais de cinco mil páginas de manuscritos que abrangem temas tão diversos como as causas das marés, o mecanismo do movimento do ar nos pulmões, os hábitos noturnos das corujas, as leis físicas da visão humana e a natureza da Lua. Apresentou, também, planos de urna máquina voadora, uma série de teoremas geométricos, diversos estudos hidráulicos, projeto para uso do vapor como meio de propulsão, poemas, fábulas e máximas filosóficas. Seu trabalho é completado por obras consagradas pela história da Arte, como a já citada Mona Lisa e a Última Ceia. Pintou ainda: Baco, São João Batista, Leda, Santana, a Virgem e o Menino e A Virgem dos Rochedos. Deveria ter sido um cara muito interessante! (“SÁTIRAS, FÁBULAS, AFORISMOS E PROFECIAS”, de Leonardo Da Vinci, contos e crônicas, tradução de Rejane Bernal Ventura, 128 págs, Ed. Hedra – 2008).

1 comentários:

Katia Mota disse...

Poxa fiquei super afins de ler esse.... bjs queridão.