segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

TRÊS CONTOS

“Na cadeia ele descobre a literatura e se transforma num dos melhores contistas do mundo.”
Por Elenilson Nascimento
A história de O. Henry (morto em 1910), pseudônimo de William Sydney Porter, é bem interessante, para não dizer cômico-trágica. No Brasil, ele é praticamente desconhecido, mas O. Henry é considerado na Europa e nos EUA um dos principais mestres do conto, nos quais “romantiza” tipos comuns e sugere que o caráter é um efeito de coincidências. Ou seja: ele não faria sucesso num folhetimzeco da Globo.
Quando tinha 25 anos casou-se e começou a escrever seus contos. Em 1894 fundou um semanário de humor, “The Rolling Stone” – não confundir com a revista de música – mas essa publicação não durou muito, e logo passou a trabalhar como repórter, colunista e, curiosamente, como cartunista para outras publicações. Quando trabalhava no First National Bank sofreu um processo por desvio de fundos. E a sua fuga para Nova Orleans e finalmente Honduras foi praticamente uma confissão de culpa. Sua esposa ficou muito doente então, voltou aos Estados Unidos; as autoridades fizeram vistas grossas por motivos humanitários. Quando finalmente ela morreu o processo continuou e Porter foi condenado.
Devido ao bom comportamento, deixou a cadeia depois de três anos apenas, nos quais escreveu muito, assinando seus contos, por motivos óbvios, com o pseudônimo que se tornou famoso. Foi justamente na prisão que ele adotou o pseudônimo literário com que ficaria conhecido: O. Henry.
Tempos depois, sua experiência na América Central, por exemplo, provou-se fértil tema para muitos contos que se tornaram muito populares – sendo publicados em vários periódicos. Suas mais de 600 histórias revelaram a natureza humana em seus amores, ódios, gentilezas, riquezas, pobrezas, crimes e disfarces.
Sua carreira em Nova York (entre 1902 até sua morte) foi bem-sucedida, mas por problemas pessoais não pôde aproveitar os frutos de sua popularidade: tornou-se alcoólatra, teve problemas de saúde, casou-se novamente e mal em 1907 e teve problemas com credores. Morreu a 5 de junho de 1910, completamente falido.
Muito parecido com Henry Miller, O. Henry traçou um retrato romântico e aventuresco do americano comum – fosse ele o civilizado morador de Nova York ou um bandido do Oeste selvagem. Aliás, vale a pena você conferir o delicioso “Os caminhos que tomamos”, conto que fecha essa coletânea “Três Contos”confira aqui – que apresenta uma curiosa analise dos dois mundos, na figura de um especulador financeiro da Costa Leste que poderia ter sido um assaltante de trem no Oeste. Engraçadíssimo!
Esses “Três Contos” (“A decisão de Geórgia”, “A teoria e o cão” e o já citado “Os caminhos que tomamos”) foram traduzidos por ninguém menos que Fernando Pessoa e publicados na revista portuguesa “Athena”, entre os anos de 1924-25. E eles agora são reunidos e trazidos ao leitor brasileiro neste livro. E como seria de esperar de um escritor do porte de Pessoa, as traduções são excelentes – ainda que o leitor brasileiro talvez estranhe o fraseado lusitano ("Tomara eu que aquela tua montada não tivesse estropiado, Bob") dos bandoleiros de O. Henry. Leia trecho. (“TRÊS CONTOS”, de O. Henry, contos, tradução de Fernando Pessoa, 80 págs, Barracuda – 2008)

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