Por Elenilson Nascimento
COMENDO LIVROS é um
paraíso de libertinagem, desaforos, desavenças e amor à literatura; minha execrável simpatia, minha irreverência plasmada e que não pode ser motivo de dor, muito menos um espaço para só para exaltar autores midíaticos. Através de resenha de livros podemos enfatizar as dores da vida e as dores do mundo, sintam-se à vontade para manifestar qualquer tipo de sentimento, prefiro um redondo foda-se sincero do que milhares de falsos sorrisos emoldurando rostos opacos.
Se alguma vez eu pareci ser agressivo, peço desculpas... Mas não apenas parecia estar agressivo, como de fato estava mesmo, quando faço guerra faço pra valer, mas sou muito melhor no amor. Porque amar é sempre melhor que sofrer. O mundo está tomado por egoísmo, por ódio e falsidade, e eu quero sempre dar amor, amor, amor, até morrer... mas não morrer agora viu!
E no livro “Roubo: Uma História de Amor”, do australiano Peter Carey, de 69 anos, duas vezes vencedor do Prêmio Booker, é um bom exemplo disso que eu escrevi no início desse texto. O livro descreve um dos fascínios do mundo das artes, não só das artes plásticas, que vem do fato de que um único quadro de um artista que ontem passava fome pode valer, hoje, milhões de dólares. Muitos artistas já passaram dificuldades, viveram em favela e até em abrigo para refugiados. Passavam tanta dificuldade que, muitas vezes, não tinha nem um pão para comer. Vincent Van Gogh, por exemplo, mesmo de família honrada e tradicional, era extremamente pobre. Pouco sociável, gênio arredio gostava de vagar pelos campos, demonstrando amor à natureza. E, talvez por isso, suas muitas das suas obras são relacionadas à paisagens e natureza, com cores extremamente fortes. Mas nessa estratosfera bucólica, nesse livro de Peter Carey, a própria ideia de "arte autêntica" se dilui: como dinheiro vivo, telas também se falsificam. Um tema ótimo para a literatura e para se pensar.
No livro, o pintor Michael Boone, talento reconhecido na Austrália dos anos 80, afunda-se num divórcio em que perde tudo – a guarda do filho e todas as suas telas, indo ainda parar na cadeia por tentar recuperá-las. Resta-lhe o irmão Hugh, um deficiente mental de mais de 100 quilos e 2 metros de altura de que ele tem de cuidar como uma sombra inseparável.
O livro já começa com uma humilhação (*Boone morando de favor na casa de campo de um colecionador que o explora). E ali desembarca Marlene Leibovitz, casada com o filho do célebre Jacques Leibovitz, pintor cubista fictício que a narração põe ao lado de figuras reais da pintura moderna como Léger, Braque e Picasso.
O marido odeia pintura, e é ela – uma secretária carreirista que por um golpe de sorte se vê alçada ao mundo milionário da grande arte – quem "autentica" os valiosíssimos Leibovitz pelo mundo afora. Um deles, aliás, desaparece da casa de um vizinho de Boone, ocorrência policial que dá partida nas aventuras do pintor ao lado de Marlene.
A agressividade no livro, às vezes ressentida, e também o afeto sempre atormentado com que Carey vai pintando seu personagem central dão o tom muito interessante ao romance. Mas fica-nos a dúvida se a história de amor mencionada entre o Butcher Jones, pintor, caseiro e Marlene, assassina, aldrabona e autenticadora de pinturas justifica este subtítulo, embora o livro se conclua com uma declaração de amor: "Uma pessoa melhor poderia ter fugido horrorizada, mas eu amava-a e não vou deixar de amar. (...) Como é que se pode saber quanto se deve pagar quando não se sabe o valor das coisas?"
Boone, contudo, é um pouco tudo isso; e a voz narrativa do romance mantém viva uma "apaixonada compaixão por todo mundo que é estranho, abandonado ou vive fora do padrão". Mas a verdadeira história de amor se passa entre os dois irmãos, gêmeos, Butcher Jones e o obeso Hugh: "Havia o Hugh, sempre o Hugh. E eu sei que disse que em Tóquio não pensava nele, mas como é que alguém pode acreditar numa treta dessas? Ele era o meu irmão órfão, estava sob minha custódia, o filho da minha mãe. Tinha os meus ombros musculados e descaídos, o meu lábio inferior, as minhas costas peludas, a minha barriga da perna de camponês. Eu tinha sonhado com ele, tinha-o visto numa gravura de Hokusai, num carrinho de bebé em Asakusa."
A ação desenrola-se entre a Austrália, o Japão e os Estados Unidos, onde colecionadores de arte, museus e falsificações, numa espiral que acaba num assassínio e no final da relação entre Butcher e Marlene e no regresso deste e do irmão à Austrália. Irônico e divertido com um toque policial. Muito bacana! (“ROUBO: UMA HISTÓRIA DE AMOR”, de Peter Carey, tradução de José Rubens Siqueira, 320 págs, Record – 2008)
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