sábado, 25 de fevereiro de 2012

SENHORITA CHRISTINA

“Um livro incrível e de uma intensa sensualidade – mas que já foi acusado de “pornográfico”, quando publicado em 1936, o que valeu ao autor uma suspensão temporária da universidade onde lecionava.”
Por Elenilson Nascimento
“Passado bastante tempo, Ígor percebeu que estava havia muito de olhos abertos, sem pensamentos, sem memória. Lembrou-se de repente de Christina. “Despertei ao seu comando”, compreendeu Ígor. Sabia exatamente onde a deixara no sonho: ereta no meio do quarto, fitando-o com seus olhos vítreos. Virou a cabeça num gesto brusco. Senhorita Christina não estava mais ali. “Então foi um sonho, foi apenas um sonho”... O sangue pôs-se a correr de todas as partes até seu coração. Um encantamento cansado envolveu em seguida a sua carne; como se tivessem vencido uma árdua batalha, os músculos se preparavam para descansar.”
Pelo parágrafo acima, deu para perceber que esse romance “Senhorita Christina”, do autor romeno Mircea Eliade, é sobre os bebedores de sangue? Mas se os vampiros dementes e apáticos da série “Crepúsculo” podem ter correspondido ao imaginário dos jovens espectadores de classe média do mundo todo (*com todo o excelente trabalho de marketing de Hollywood), que já desembolsaram mais de US$ 2 bilhões para ver os quatro filmes da série, mas que em nada se parecem com os antigos sanguessugas do Leste Europeu – muito mais sensuais, muito mais libidinosos, muito mais sacanas, muito mais temidos pela moral vitoriana, sobre os quais reina, absoluto, o conde Drácula, de Bram Stoker.
E, enfim, esgotada a série “Crepúsculo”, da autoria milionária de Stephenie Meyer, cujo epílogo estreia em 2012, a crítica já elegeu outra espécie de mortos-vivos para a próxima temporada, desenterrando os zumbis de George Romero, devidamente revistos e atualizados pelo escritor norte-americano Colson Whitehead em “Zone One”, fenômeno que agita o mercado editorial dos EUA.
Mas nem isso crava uma estaca ou joga uma pá de cal sobre os descendentes de Nosferatu. Os editores estão redescobrindo os verdadeiros vampiros europeus de sua estirpe, em nada semelhantes ao centenário do patético adolescente Edward, de “Crepúsculo”, que repete o terceiro colegial há séculos. Um saco! Então, a sugestão para aqueles que adoram histórias inteligentes sobre vampiros é justamente esse “Senhorita Christina”. O autor (morto em 1986) é o mesmo do livro “Histórias das Crenças e das Ideias Religiosas”, conhecido principalmente como um grande (talvez o melhor) historiador da religião.
Contudo, Mircea Eliade foi também um ficcionista de marca maior, como prova esse livro fantástico publicado pela primeira vez no ano de 1936. No livro, os vampiros aparecem mais tiranas, sanguinárias, promíscuas do que nunca. Quando a história começa, em 1935, uma tal de Christina do título já estava morta há quase trinta anos, mas continuava assombrando a mansão rural onde sua irmã, dona Moscu, vivia com as duas filhas, a jovemzinha Sanda e a estranha Simina.
A senhora Moscu, dona de um casarão, um latifúndio decadente, distrito na fronteira romena com a Bulgária, hospeda o jovem e belo artista Ígor e o professor Nazarie, arqueólogo. Então, a defunta sensual, vai assediar o Ígor, que se deixa levar e se envolve eroticamente com a morta-viva. À medida que os dias – e sobretudo as noites – passam, fenômenos cada vez mais estranhos se sucedem, a começar pelo comportamento da senhora Moscu – acometida de súbitas ausências, como que hipnotizada por alguém – e de Simina, cujo cruel cinismo é incompatível com uma criança. Sanda, por sua vez, parece prisioneira de um terrível segredo que não consegue ou não pode explicar a Ígor, por quem se apaixona.
Aos poucos, os hóspedes percebem a ascendência de senhorita Christina, irmã da senhora Moscu morta aos vinte anos, durante uma revolta de camponeses que tomou a Romênia em 1907. Seu quarto permanece intocado, e o enigmático retrato da dama domina o aposento, impressionando Ígor. Simina diz conversar com a tia morta e ela mesma começa a aparecer em sonhos para o artista, a quem revela sua paixão.
Não se engane com certos exageros na narrativa, pois estamos na Romênia, terra do conde Drácula, e Christina é fiel às tradições locais, embora seja uma entidade mais espiritual do que material, mas ela bebe sangue de pássaros e até de sua sobrinha Sanda, cada vez mais debilitada à medida que a história avança.
Todavia, sonho e realidade vão se mesclando, e Ígor já não sabe distinguir se delira com a presença de Christina em seu quarto, onde ela deixa a inconfundível fragrância de violeta, ou se está se envolvendo demais com a loucura daquela família de doentes. Tudo se encaminha para o embate velado entre Christina e Sanda, que disputam, em condições bastante desiguais, o amor do mesmo homem. Este, por sua vez, é acossado pela volúpia da morta-viva, em cenas de extrema sensualidade, enquanto se compromete com Sanda – já agonizante no leito, atacada por moscas espectrais que vão lhe sugando o sangue.
E com uma irretocável atmosfera gótica – o casarão é bem isolado e sinistro – o livro segura a tensão do leitor até o final apoteótico, e não vou revelar aqui para se preservar o prazer da leitura. Esta edição brasileira conta ainda com as expressivas ilustrações do artista argentino Santiago Causo. (“SENHORITA CHRISTINA”, de Mircea Eliade, romance, 184 págs, tradução de Fernando Klabin, editora Tordesilhas – 2011)

1 comentários:

Katia Mota disse...

Estou super afins de ler esse...