segunda-feira, 5 de março de 2012

UM BAIANO ROMÂNTICO E SENSUAL

“Um relato emocionado e encantador de Zélia e cia sobre a vida e história de um dos maiores romancistas do nosso século.”
Por Elenilson Nascimento
Há alguns dias atrás postei no Facebook que não gosto de biografias escritas por parentes do biografado, mas que amei essa de Jorge Amado, isso devido, principalmente, ao bombardeio negativo que tive durante toda a minha vida nos bancos de escolas e faculdades. E ninguém ousaria duvidar da importância da leitura ou da relação dessa com o sucesso ou insucesso escolar. Muitos aproveitam o tema para questionar as diferentes formas de leitura do mundo contemporâneo, mas tive vários professores que criticavam livros e autores em sala de aula sem ao menos terem lido nenhuma página.
Mas aqui, quero mesmo é "cutucar" os coleguinhas, pois é consenso à necessidade de os professores abrirem mais livros, para só assim abrirem mais mentes. Falasse muito de alunos como analfabetos funcionais... mas e os professores? A ausência de políticas públicas eficazes para a realização de projetos de leitura é sentida e reclamada. Não que não existam. É que as poucas que temos e os resultados inexpressivos dessas contribuem para pensarmos que muito há para se fazer, mas pouco se faz!
Durante anos eu fui bombardeado (dentro de salas de aulas) com os argumentos mais esdrúxulos com relação à obra de Jorge Amado – preconceito de uma elite medíocre brasileira contra o escritor. E num Brasil, país dos paradoxos, os próprios professores fazem questão de desprezar a obra de seu escritor mais famoso. Jorge Amado tem uma obra literária vasta e coerente, movida sempre pelas mesmas utopias, mas, infelizmente, a universidade (*apesar de ele ter uma com o seu nome) o despreza como um bestseller descartável e a crítica literária o encobre com o manto do silêncio.
Jorge Amado é, apesar do sucesso internacional sem precedentes em nossa história literária moderna, um escritor duplamente discriminado: por ter sido comunista e por ser o verdadeiro bestseller. Esse ódio irracional seria apenas um efeito triste do elitismo babaca que, ainda hoje, rege o meio acadêmico brasileiro. Eu tive professores no antigo ginásio que chegavam ao ponto de dizer que Jorge Amado era uma má influência. Posteriormente, na UCSAL, alguns diziam coisas patéticas como que ele tinha um vocabulário reduzido, que era um limitado, que aquela Bahia dos seus livros era uma mentira, que as mulheres nos romances eram todas prostitutas e por aí vai... A universidade brasileira, via de regra, só lê os autores que só ela lê. Infelizmente, vivemos com uma educação de fachada.
E, talvez dispostos a quebrar essa cadeia de desprezo, o excelente livro “Jorge Amado – Um Baiano Romântico e Sensual”, que apresenta três relatos de amor, tendo como pano de fundo o exercício da amizade, escrito por Zélia e os filhos – Paloma e João Jorge – venha devolver à obra de Jorge Amado alguns de seus melhores atributos.
O livro divide-se em três partes: “Ai, que saudades de Jorge!”, de Zélia; “A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Jorge Amado, capitão de longo curso”, de João Jorge; e “Meu melhor amigo”, de Paloma. Além de um prefácio emocionante escrito por Eduardo Portella, onde ele diz que “não se pode dizer que tudo foram rosas no caminho dos Amados”: “Às vezes eles foram menos amados: pela ditadura, pela tirania, pela intolerância ideológica. Nem por isso deixaram de acreditar nem perderam a esperança”.O livro é, na verdade, uma homenagem sentimental, dolorosa e emocionada a Jorge, um dos maiores (e melhores) escritores brasileiros e que, como poucos, amava verdadeiramente a Bahia. Um livro de cabeceira cheio de lembranças pessoais que traz passagens tocantes da vida e do trabalho de Jorge, um dos poucos escritores brasileiros que levou aos quatro cantos do mundo as suas ideias e suas letras que desde “O País do Carnaval”, romance de estreia que publicou aos 18 anos, foi um visionário que previu, muitas décadas antes, o processo de carnavalização que dá a marca da estética brasileira hoje em dia.
Com a leitura emocionada desse “Jorge Amado – Um Baiano Romântico e Sensual” tive a certeza de uma coisa que eu já sabia: com “Dona Flor...”, por exemplo, Jorge poderia ter se tornado uma Emily Bronte neguinha-cabocla, povoando seu livro com fantasmas bonzinhos, mas preferiu criar um debochado Vadinho, um fantasma malandro, cínico e tipicamente brasileiro.
E hoje, novamente, já derramei litros de “lágrimas que pulam” (*iguais as da Paloma) e já dei muitas risadas também com esse livro escrito à seis mãos, onde a linda família Amado resgata suas memórias e apresenta um Jorge pouco conhecido do público, algumas das principais histórias (tristes e alegres) familiares, as viagens, além de 300 fotos de boa parte das andanças do São Jorge. Podemos também contatar que com “A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água”, de 1961, ele já antecipava os fundamentos que, uma década depois, comporiam a estética do realismo fantástico.
O livro descreve um Jorge visionário, que jamais traiu sua utopia socialista, que, por isso, sempre se guiou pelo desejo - realizado - de escrever para as grandes massas. Coisa que eu também desejo ardentemente! Mas eu faço uma ressalva aqui: Jorge não pode, e não deve, nesse sentido, a não ser por crueldade, ser confundido com simplesmente um bestsellers exótico do gênero, que se apegam à exaustão a suas receitas comerciais bisonhas. Os livros de Jorge estimulam a crítica literária - mesmo a mais elitista - a repensar a relação do Brasil com seu escritor mais famoso. Ou, no mínimo, a refletir sobre as origens secretas de sua rejeição. Mas infelizmente os críticos no Brasil são preguiçosos!
Ele tinha gosto pelas coisinhas boas da vida: as comidas, as paisagens,
as conversas, os amigos e o riso. Na foto acima, com Sartre e Simone de Beauvoir.
Logo no primeiro capítulo de “Jorge Amado – Um Baiano Romântico e Sensual”, dona Zélia escreveu sobre as comemorações de 55 anos de casamento, no ano de 2000; relembra o primeiro encontro; a amizade com os amigos famosos, como Neruda, Sartre, Simone de Beauvoir, Caymmi, Mário Cravo, Nicolas Guillén, Saramago, Calasans Neto, Vinicius de Moraes, Luís Carlos Prestes (*no qual o autor nutria grande admiração), entre outros; que foi chamada de inútil pelo autor; a morte da primeira filha Lila; a vida difícil na Tchecoslováquia; a desconfiança de dona Angelina, mãe de Zélia, com relação ao relacionamento da filha com o autor; a vida política de Jorge como deputado estadual, nos anos 40; a vida num sítio entre as galinhas e os cães Chuli e Ventania; o nascimento dos filhos; a turma do Castelo de Dobris; na mesa do Conselho Mundial da Paz; os prêmios literários; a redação do jornal "Paratodos"; a eleição para imortal da ABL, em 1961; o Peugeot 403 que Zélia ganhou de presente de Jorge; a mudança para a Bahia; a visita do diretor Polanski com um jovem chamado Jack Nicholson, na Casa do Rio Vermelho, em 1973; a descoberta dos livros de Jorge pelo astro Harry Belafonte; as visitas aos terreiros de Candomblé de Mãe Menininha, Cleusa do Gantois e Mirinha do Portão; a compra do casarão para a Fundação Jorge Amado, no Pelourinho; o título de doutor honoris; e as mortes de Mãe Stela de Oxóssi, Caymmi, Érico Veríssimo e de Jorge. “Pensei: apenas 32 anos, tantos livros escritos, tantas aventuras e desventuras...”
Mas para quem pensa que escrever sobre Jorge foi um martírio para Zélia, a escritora revelou ainda que “descobri que a melhor coisa para me tirar da fossa é ir para o computador e trazer Jorge à vida”. E também o processo de seleção das fotos que ilustram o livro foi particularmente prazeroso para Zélia. Ela e sua filha, Paloma, guardavam centenas de fotos e passaram dias revivendo os momentos que cada fotografia trazia à tona no livro. Lembrou-se, inclusive, das inúmeras briguinhas entre os dois por ciúmes. Zélia contou que o assédio feminino sobre o “seu” Jorge era incrível. Jorge recebia cartas insinuantes com declarações de amor e quem as respondia era Zélia. “Assinava como Zélia mesmo, dizendo que ele gostaria muito de responder, mas que estava ocupado”, contou.Na segunda parte do livro, escrito por João Jorge, o filho mais velho de Jorge reclama que quando escrevia foi várias vezes interrompido pela mãe: “Enquanto escrevia este texto, muitas vezes fui interrompido por mamãe, que tentava corrigir alguma coisa”, mas relembra com carinho várias fases da sua infância, como quando começou a falar que aprendeu o poema do “Joãozinho Pica d’Aço”: “Joãozinho Pica d’Aço foi à caça/Que caçou? Que caçou? Que caçou?/Bucetinhas, bucetinhas/Pica d’Aço já caçou...” Hilário!
João também contou que Jorge era preconceituoso, nos anos 50, com relação à homossexuais, tanto que fazia questão de manter seu filho macho bem afastado de algum tipo de contato, coisa que o autor mudou durante os anos. Relata também que uma das diversões de Jorge era contar histórias para os filhos; que adorava pirraçar (“velha decrépita”), mas que não gostava que fizesse o mesmo com a mãe dele, dona Lalu (“Tenha mais respeito por sua avó, seu corno!”); que escreveu o livro “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” para ele; as viagens e os problemas nas alfândegas dos aeroportos porque Jorge trazia sempre mais presentes do que poderia; a amizade com o Grande Otelo e com o governador Odorico Tavares; a relação com os filhos e os netos; que vivia dando livros; as apropriações de títulos dos livros de Jorge até em nomes de restaurantes; os passeios nas feiras de Salvador e do mundo e todos os bichos que passaram pela da casa do Rio Vermelho.O último capítulo, escrito por Paloma, sintetiza bem quem foi Jorge Amado nesse livro-testemunho, onde os três amores da vida do autor se reuniram para escrever suas memórias, prestando uma bela homenagem a um dos maiores escritores brasileiros, pai e marido tão adorado. Sintetiza também o preconceito que eu citei no início dessa resenha e é, antes de tudo, um sinal de que o elitismo das universidades brasileiras que, via de regra, só lê os autores que só ela lê, pois nossa elite acadêmica torce o nariz, literalmente, para qualquer escritor que venha a ter uma grande aceitação de público. E Jorge, é bom lembrar, não é a única vítima. Tome um escritor do porte de Érico Veríssimo, que tem uma saga monumental sobre a história do sul do País e que também foi citado em “Jorge Amado – Um Baiano Romântico e Sensual”.
O capítulo de Paloma fala sobre amizade. Lembra que em 1933, “Cacau” esgotou a primeira edição de dois mil exemplares em apenas 40 dias. Aí eu pergunto: quantos ficcionistas brasileiros, hoje, conseguem essa proeza? Hoje, 79 anos depois, vender 2 mil exemplares assim tão rápido ainda é considerado um fenômeno de mercado. Eu já conseguir vender uns 100 em um ano, e já fiquei muito feliz por isso! E é bom lembrar que o próprio Jorge considerava “Cacau” um livro fraco, que seria apenas o caderno de notas de um aprendiz de romancista e não um romance maduro.
Paloma cita o pai como um “homem generoso, cheio de qualidades e defeitos”, mas soube rechear o livro com memórias deliciosas e divertidas. Revelou, assim como Zélia, que Jorge era um “comodista”, que não dirigia, não sabia nadar, não abria latas, nem manejava um controle remoto. Lembrou que colecionou figurinhas da “Dama e o Vagabundo” junto com o pai (que inveja!); que quando criança vivia na redação do jornal “Paratodos”; e revelou uma das frases mais lindas no livro: “Gente importante, aqueles que têm coisas boas na cabeça, que conseguem realizações formidáveis, são sempre gente simples, normal, sem besteiras. Não se iluda com quem empina nariz e desdenha dos outros. Os emproados metidos a besta não valem nada, só pensam que valem”.
Paloma diz que também aprendeu com Jorge a valorizar pessoas mais desprovidas, daqueles que não tem chance na vida, que são humilhados e que passam fome. Citou também a primeira vez que foi numa boate e que o pai ficou preocupado: “Paloma, venha cá conversar comigo...” Achei lindo! Lembrou também dos tempos de colégio; das idas ao Teatro Vila Velha; do seu casamento com apenas 19 anos, no Mosteiro de São Bento; a sua maternidade, em 1972; as revisões de livros de Jorge; o clima de amor intenso dentro de casa; as viagens pelo mundo todo; as inúmeras festas que comemoraram os 80 anos de Jorge; e os últimos dias do grande autor e suas cinzas sob a mangueira. Simplesmente emocionante!
Jorge Amado – Um Baiano Romântico e Sensual” é, sem dúvida, mais um relato emocionado e encantador de Zélia e cia. sobre a vida e história de um dos maiores romancistas do nosso século. Um livro escrito a muitas mãos não é novidade para a família Amado. Os filhos e netos de Jorge já passaram pela experiência ao escrever “A Nave de Noé”, em parceria com os primos, filhos e netos de Gracilano Ramos.
Segundo Zélia, ela, Paloma e João Jorge não escreveram “Jorge Amado – Um Baiano Romântico e Sensual” juntos: “Na verdade, cada qual ficou na sua casa, diante do computador. Cada qual contou do seu amor. Para mim, foi uma certa surpresa saber como eles sentiam o pai”, revelou a escritora. Terminei a leitura com uma certa vergonha da minha ignorância, de não ter lido mais Jorge a mais tempo, de ter dado ouvidos à certos professores e da minha incapacidade de fazer as coisas acontecerem mais rapidamente. Mas aí eu pergunto, nesse momento atual vivenciado pela população brasileira e mundial globalizante, alienada e consumista, que nos rouba a capacidade de contatos presencias solidários e, na mais remota situação, nos apresenta outra forma relacional virtual que individualiza mais ainda as potencialidades humanas enclausurada entre quatro paredes do quarto e, de frente para o computador, o que ainda nos resta? E concordo como Eduardo Portella, no prefácio, quando diz que “Jorge conseguiu transformar as cicatrizes em lembranças, e o sofrimento em experiências”. Eu quero fazer isso também! E viva a literatura nessa porra de vida miserável! Viva a Jorge Amado! Jorge, seu sacana, me manda um tiquinho da sua picardia! Eu quero! (“JORGE AMADO – UM BAIANO ROMÂNTICO E SENSUAL”, de Zélia Gattai, João Jorge Amado e Paloma Jorge Amado, biografia, 231 págs, 2ª edição, Record – 2002)
+ Abaixo, uma matéria bem curiosa do jornal “O Globo”, de 1959:
imagens: reprodução

1 comentários:

Karine Tavares disse...

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