quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

125 CONTOS DE GUY DE MAUPASSANT

“Esse autor francês foi o mais dedicado aluno de Flaubert, mas como era muito safadinho, morreu de sífilis muito jovem.”
Por Elenilson Nascimento
Guy de Maupassant nasceu no século XIX, em 1850, na França. Sua infância foi vivida basicamente numa área rural em Verguiés. No ano de 1870, aos vinte anos, foi para Paris e lá se firmou como contista, entrando em contato com grandes nomes do realismo e naturalismo da época, como Zola, Flaubert e o russo Turguêniev. Flaubert, por sinal, era seu primo por parte de mãe e foi o influenciador e apoiador de Maupassant.
A obra do escritor é conhecida por retratar situações psicológicas e também por fazer críticas sociais (*coisa que eu adoro em alguns autores). Foi entre os anos de 1875 e 1885, que Maupassant produziu a maior parte de seus romances e contos. Foram cerca de 300 histórias curtas, que se tornaram internacionalmente conhecidas, como “O Colar”, “Uma Aventura Parisiense” e “O Horla”.
Tornou-se, com a grande aceitação de suas obras, um escritor rico e famoso. Além disso, teve uma vida amorosa cheia de casos. Mas como era muito safadinho, o problema com a sífilis o fazia ter pesadelos constantes, atormentando-o por mais de uma década. O autor tentou suicídio em 1892. Em consequência desse ato desesperado, foi internado em um manicômio, onde morreu no ano seguinte, com apenas 43 anos.
Nessa obra “125 Contos de Guy de Maupassant”, esse atormentando autor francês que foi o mais dedicado aluno de Flaubert (*conhecido por seu obsessivo cuidado estilístico, o autor de “Madame Bovary” impôs ao seu aluno a prática ininterrupta da escrita – e, ao mesmo tempo, o proibiu de publicar), podemos encontrar personas tão estranhas quanto os políticos de Brasília. Só depois de quase uma década de silêncio, em 1880, Flaubert liberou Maupassant para editar seus livros – e é quando ele apresenta um clássico da narrativa curta, “Bola de Sebo”, um instantâneo da hipocrisia burguesa da França.
Logo na apresentação dessa coletânea desses 125 contos, a organizadora Noemi Mortiz Kon conta essa curiosa educação literária do autor por Flaubert: a condição para ser aceito como pupilo era de que escrevesse sem parar e que não publicasse seus primeiros textos. O resultado desse “treinamento” de Flaubert fica óbvio ao constatarmos o tamanho do livro (*mais de 800 páginas) e a qualidade dos contos nele presentes. E se pensar que foram escolhidos (ou seja, outros ficaram de fora), temos aí um autor que realmente levou a sério a tarefa de escrever ininterruptamente. Se todos levassem isso a sério não teríamos tantos livros ruins nas prateleiras.
Os 125 contos escolhidos para essa coletânea mostram o que há de melhor na prosa de Maupassant. Os mais conhecidos do público, como o já citado “Bola de Sebo” e “O Horla” estão lá, assim como obras geniais do horror, o caso de “A Morta” e “Sobre a água” (ambos apesar de tenebrosos, divertidíssimos). O autor, sempre acurado na observação da sociedade, foi um mestre do realismo, e também produziu clássicos da literatura fantástica, como “A Mão” - bem traduzida e selecionada para essa edição.
Com textos cheios de retratos ácidos da sociedade em que vivia que também ganham destaque, sempre com uma conclusão irônica a respeito do que foi contado, Maupassant estrutura as histórias com uma repetição de ideias desconcertantes, sendo que os contos normalmente começam com alguém que relatará algum evento que tenha algo a ver com o que está sendo conversado no início.
Mas apesar da estrutura e dos temas se repetirem, o interessante é que Maupassant consegue tornar cada conto único, e muito bom. A leitura pode ser feita com muito prazer, prende a atenção e chega a ser quase viciante: mal termina um conto, o leitor já deseja continuar seguindo em frente para o próximo. A seleção dos contos por Noemi Moritz é extremamente feliz. Os “125 Contos de Guy de Maupassant” é um daqueles livros para deixar na cabeceira da cama e ser degustado, página à página, tal e qual aquele suco caro e delicioso que você não deseja que acabe tão cedo. Um último comentário bem fútil: sou apaixonada pelo padrão das capas dessas coletâneas de contos da Companhia das Letras, mas essa roxa dos contos de Maupassant está entre minhas favoritas de todos os tempos. Ficou linda! (“125 CONTOS DE GUY DE MAUPASSANT”, organização Noemi Moritz Kon, de Guy de Maupassant, tradução Amilcar Bettega, 824 págs, Cia. da Letras – 2009)
+ Ano passado, foi revelado o primeiro trailer do já anunciado projeto de adaptação cinematográfica do conto de Guy de Maupassant: “Bel Ami”, protagonizado por Robert Pattinson (o vampiro Edward da saga “Twilight”). O conto situa-se em pleno século XIX, narrando a história de Georges Duroy, um jovem que se aproxima da alta sociedade, usando os seus dotes de sedução para conquistar as mulheres mais glamourosas e influentes. Inicialmente Nicole Kidman foi associada ao projeto, mas acabou por não fazer parte que inclui nomes como Christina Ricci, Uma Thurman e Kristin Scott Thomas. Vamos aguardar!
imagens: reprodução

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

EVER COMENDO LIVROS!

O dono desses pernões, Ever Saturno, da cidade de Tubarão – Santa Catarina, que me largou na mão na época do lançamento do livro "Poemas de Mil Compassos" (*mas que tem uma coleção infinita de discos - o cara é podre de rico!), está adorando a biografia “Adele”, de Chas Newkey-Burden, sobre a dona de uma das vozes mais portentosas da música pop atual, de uma beleza clássica e um corpo fora dos padrões exigidos pela indústria musical, a pop star Adele que conquistou as paradas musicais com o estouro de seu segundo disco, "21", lançado no início de 2011, e que recentemente foi premiada como artista revelação no BRIT Awards, em 2008, e levado dois Grammy em 2009 e TODOS em 2012. “Já li alguns livros biográficos, autorizados e não-autorizados. São sempre fascinantes e cheios de segredos e verdades sobre aquelas pessoas que consideramos modelos e “perfeitas” por conhecermos apenas o talento popular delas. Mas quando abri “Adele”, li vinte páginas sem conseguir parar. Fiquei apaixonado. Ali, já no início, a vida dela veio toda em apenas algumas linhas. Sua relação com a família, a ausência do pai na infância, que acabou por torná-la mais forte e decidida, tendo como exemplo a sua mãe, que a incentivou demais desde que percebeu seu talento nato. As frustrações e medos. Os anseios. O mais legal é quando ela começa a falar de suas inspirações: Ella Fitzgerald, Etta James e outras. Em se tratando de Adele, não surpreende, mas Spice Girls e Britney Spears me deixaram boquiaberto. O contato com a educação musical em uma Acadêmia mantida pelo governo (BRIT), o que mostra porque saem tantas preciosidades do mundo da música na Europa. Eles dão verdadeiro valor à arte. Leona Lewis e Amy Winehouse foram suas “colegas de colégio”. Bom, agora chega! Se estiverem curiosos, eu os convido à conjugar o verbo "adelar". Comecem agora. Ela é bem mais que aquela voz maravilhosa e aquelas histórias que canta.”

+ Conheça mais o Ever: visite o seu perfil no Facebook. Contato: everss@hotmail.com

PAULO COELHO RECEBE DIAGNÓSTICO DE MORTE EM 30 DIAS

"'Eu estava realmente condenado', explicou o autor em um vídeo."

O escritor brasileiro Paulo Coelho confirmou, por meio de um vídeo postado em seu blog, que chegou a receber um diagnóstico de morte em 30 dias, no último dia 28 de novembro. Ele diz que, apesar de se sentir bem, ele possuía 90% das artérias bloqueadas. No vídeo, PC diz que sua caixa de e-mail ficou "inundada de mensagens" em razão de uma nota na coluna de Ancelmo Gois, do jornal "O Globo", divulgada no último sábado, 25/02, que falava sobre o diagnóstico. "O médico me deu 30 dias de vida, no dia 28 de novembro do ano passado, o que está absolutamente correto, mas deixem eu explicar", diz o escritor.

Ele contou que foi detectado com um grave problema em seu coração, por isso fez um vídeo para explicar aos seus leitores o ocorrido e tranquilizar a todos, quando disse que o diagnóstico foi feito em novembro. De acordo com o autor, incentivado por sua agente, que havia perdido o pai recentemente por problemas no coração, ele resolveu se submeter a uma bateria de exames que levaram ao grave diagnóstico.

"Quando eu saí do exame e fui para o gabinete do médico, ele disse que eu iria morrer em 30 dias, por estar com 90% das artérias bloqueadas. Eu não tive tempo de ficar apavorado", contou Coelho, que ainda completou: "Pude repensar minha vida um dia antes da cirurgia. Não tenho medo de morrer, estava enfrentando essa possibilidade real, e não tive medo. Pensei que tive uma vida abençoada: casei com a mulher que eu amo, trabalhei a vida toda naquilo que eu quis, fiz todos meus excessos quando era jovem, vivi intensamente minha vida, fui bem sucedido naquilo que me propus, que era viver de literatura. Se eu morrer amanhã, vou morrer contente. Fiquei na UTI umas 3 horas e o médico disse que eu estava com o coração novo. A verdadeira história é essa. Eu estava realmente condenado, mas ninguém morre antes da hora", filosofou o autor.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

SENHORITA CHRISTINA

“Um livro incrível e de uma intensa sensualidade – mas que já foi acusado de “pornográfico”, quando publicado em 1936, o que valeu ao autor uma suspensão temporária da universidade onde lecionava.”
Por Elenilson Nascimento
“Passado bastante tempo, Ígor percebeu que estava havia muito de olhos abertos, sem pensamentos, sem memória. Lembrou-se de repente de Christina. “Despertei ao seu comando”, compreendeu Ígor. Sabia exatamente onde a deixara no sonho: ereta no meio do quarto, fitando-o com seus olhos vítreos. Virou a cabeça num gesto brusco. Senhorita Christina não estava mais ali. “Então foi um sonho, foi apenas um sonho”... O sangue pôs-se a correr de todas as partes até seu coração. Um encantamento cansado envolveu em seguida a sua carne; como se tivessem vencido uma árdua batalha, os músculos se preparavam para descansar.”
Pelo parágrafo acima, deu para perceber que esse romance “Senhorita Christina”, do autor romeno Mircea Eliade, é sobre os bebedores de sangue? Mas se os vampiros dementes e apáticos da série “Crepúsculo” podem ter correspondido ao imaginário dos jovens espectadores de classe média do mundo todo (*com todo o excelente trabalho de marketing de Hollywood), que já desembolsaram mais de US$ 2 bilhões para ver os quatro filmes da série, mas que em nada se parecem com os antigos sanguessugas do Leste Europeu – muito mais sensuais, muito mais libidinosos, muito mais sacanas, muito mais temidos pela moral vitoriana, sobre os quais reina, absoluto, o conde Drácula, de Bram Stoker.
E, enfim, esgotada a série “Crepúsculo”, da autoria milionária de Stephenie Meyer, cujo epílogo estreia em 2012, a crítica já elegeu outra espécie de mortos-vivos para a próxima temporada, desenterrando os zumbis de George Romero, devidamente revistos e atualizados pelo escritor norte-americano Colson Whitehead em “Zone One”, fenômeno que agita o mercado editorial dos EUA.
Mas nem isso crava uma estaca ou joga uma pá de cal sobre os descendentes de Nosferatu. Os editores estão redescobrindo os verdadeiros vampiros europeus de sua estirpe, em nada semelhantes ao centenário do patético adolescente Edward, de “Crepúsculo”, que repete o terceiro colegial há séculos. Um saco! Então, a sugestão para aqueles que adoram histórias inteligentes sobre vampiros é justamente esse “Senhorita Christina”. O autor (morto em 1986) é o mesmo do livro “Histórias das Crenças e das Ideias Religiosas”, conhecido principalmente como um grande (talvez o melhor) historiador da religião.
Contudo, Mircea Eliade foi também um ficcionista de marca maior, como prova esse livro fantástico publicado pela primeira vez no ano de 1936. No livro, os vampiros aparecem mais tiranas, sanguinárias, promíscuas do que nunca. Quando a história começa, em 1935, uma tal de Christina do título já estava morta há quase trinta anos, mas continuava assombrando a mansão rural onde sua irmã, dona Moscu, vivia com as duas filhas, a jovemzinha Sanda e a estranha Simina.
A senhora Moscu, dona de um casarão, um latifúndio decadente, distrito na fronteira romena com a Bulgária, hospeda o jovem e belo artista Ígor e o professor Nazarie, arqueólogo. Então, a defunta sensual, vai assediar o Ígor, que se deixa levar e se envolve eroticamente com a morta-viva. À medida que os dias – e sobretudo as noites – passam, fenômenos cada vez mais estranhos se sucedem, a começar pelo comportamento da senhora Moscu – acometida de súbitas ausências, como que hipnotizada por alguém – e de Simina, cujo cruel cinismo é incompatível com uma criança. Sanda, por sua vez, parece prisioneira de um terrível segredo que não consegue ou não pode explicar a Ígor, por quem se apaixona.
Aos poucos, os hóspedes percebem a ascendência de senhorita Christina, irmã da senhora Moscu morta aos vinte anos, durante uma revolta de camponeses que tomou a Romênia em 1907. Seu quarto permanece intocado, e o enigmático retrato da dama domina o aposento, impressionando Ígor. Simina diz conversar com a tia morta e ela mesma começa a aparecer em sonhos para o artista, a quem revela sua paixão.
Não se engane com certos exageros na narrativa, pois estamos na Romênia, terra do conde Drácula, e Christina é fiel às tradições locais, embora seja uma entidade mais espiritual do que material, mas ela bebe sangue de pássaros e até de sua sobrinha Sanda, cada vez mais debilitada à medida que a história avança.
Todavia, sonho e realidade vão se mesclando, e Ígor já não sabe distinguir se delira com a presença de Christina em seu quarto, onde ela deixa a inconfundível fragrância de violeta, ou se está se envolvendo demais com a loucura daquela família de doentes. Tudo se encaminha para o embate velado entre Christina e Sanda, que disputam, em condições bastante desiguais, o amor do mesmo homem. Este, por sua vez, é acossado pela volúpia da morta-viva, em cenas de extrema sensualidade, enquanto se compromete com Sanda – já agonizante no leito, atacada por moscas espectrais que vão lhe sugando o sangue.
E com uma irretocável atmosfera gótica – o casarão é bem isolado e sinistro – o livro segura a tensão do leitor até o final apoteótico, e não vou revelar aqui para se preservar o prazer da leitura. Esta edição brasileira conta ainda com as expressivas ilustrações do artista argentino Santiago Causo. (“SENHORITA CHRISTINA”, de Mircea Eliade, romance, 184 págs, tradução de Fernando Klabin, editora Tordesilhas – 2011)

DANILO COMENDO LIVROS!

O livro “Os Irmãos Karamazov”, de Fiódor Dostoievski, fez a cabeça do professor de literatura Danilo Pereira. “Sou professor de literatura, digo literatura porque meu foco foi sempre essa arte. Por isso fui alvo de muita crítica nas reuniões de professores. Sempre era pego com perguntas tais como: para que falar de Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Kafka em suas aulas de literatura? Bom, se os adolescentes de hoje gostam de ler obras de amor entre vampiros, lobisomens, bruxos mirins, porque não conquistá-los com literatura fantástica de verdade? Essa minha resposta provocava uma viajem na mente dos outros professores que logo era abafada com um "ah! tudo bem". E não ficava apenas na falta de compreensão, quando chamava os professores de história, filosofia, e de artes para construirmos projetos de interdisciplinaridade, sempre era pego com respostas assim : "Pra que complicar?"; "Seus métodos freirianos não funcionam mais". Situações assim me fizeram dar um tempo na educação, pois, acredito em uma educação além do capital. Escolas que preparem os seus alunos para o mundo, não apenas para a inserção dos mesmos no mercado de trabalho, e nas grandes universidades. Existe um poema de Cecília Meireles que diz: “A vida só é possível reinventada". Acredito fielmente em tais palavras, pois acho que a educação só é possível reinventada a todo instante. A educação é sempre o hoje, o agora como no sugere um grande mestre: "O mundo não é, o mundo está sendo." (Paulo Freire)”

+ Contato do Danilo: almeyda_dan@hotmail.com

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

RÉQUIEM PARA UM ASSASSINO

“Seguindo a trilha de detetives amargos dos filmes noir, o autor descreve um detetive que mal consegue fechar os olhos à noite e entorna doses de cachaça como quem bebe copos d’água.”
Por Elenilson Nascimento
Depois do sucesso de livros como “Drive”, de James Sallis; “Justiça Suprema”, de Phillip Margolin; “O Espião que Sabia Demais”, de George Smiley e “Maigret e a Mulher do Ladrão”, de Georges Simenon, parece que realmente os livros policiais estão na moda, mas a grande dúvida dos leitores desse gênero recai sobre o que é realidade e o que é ficção.
“Réquiem para um Assassino”, publicado pela editora Bússola, é a estreia do autor brasileiro Paulo Levy. Mas engana-se que por ser um livro de estreia a obra não seja muito boa. O autor sempre teve um relacionamento íntimo com a palavra: já trabalhou como redator publicitário durante 15 anos; fundou uma empresa de e-books, uma das primeiras no Brasil, em 2000, e essa experiência com literatura durou até 2001. Nos cinco anos seguintes, gerenciou a filial paulistana da editora Objetiva, até fundar seu próprio selo, Bússola. E é por essa editora que Levy pode lançar o seu primeiro romance exatamente como planejado, sem cortes de parágrafos e sem mudanças bruscas de personagens, como normalmente acontece.
Em “Réquiem para um Assassino” (*adorei o pôster da propaganda do livro, abaixo), o autor apresenta Joaquim Dornelas, um delegado que foi abandonado pela mulher (que não agüentava mais a sua rotina arriscada), está longe dos filhos, mas que é “correto, mas humano”, nas palavras do próprio autor. A 40 metros de distância da orla, um corpo está atolado na lama seca, com os braços estendidos como um Cristo Redentor, um cadáver chama a atenção da multidão de curiosos na cidade fictícia Palmyra, no litoral fluminense.
O defunto não traz marcas aparentes de violência, e a única pista para a causa da morte está em um band-aid na dobra interna do braço do morto. Não havia marcas de cortes ou tiros. Enquanto isso, a maré subia depressa. Era preciso agir rápido para desvendar o mistério. “Eu vi essa cena muito clara para mim. Esse crime foi um divisor de águas. Foi uma coisa tão forte que eu tinha que escrever sobre isso”, contou o autor, publicitário e editor de livros numa das muitas entrevistas.
A partir desse crime, Dornelas – um alcoólatra que muito brasileiramente aprecia cachaça, mas gosta também de mingau de farinha láctea – começa a investigar uma complexa rede de intrigas e vai se dedicar com afinco à solução do caso, que se revela um dos mais difíceis de sua carreira.
E seguindo a trilha de detetives amargos dos filmes noir, Dornelas mal consegue fechar os olhos à noite e entorna doses de cachaça como quem bebe copos d’água. Com um histórico particular riscado de tristezas, ele entrega-se à ao caso e envolve-se com políticos, traficantes de droga, prostitutas e a comunidade local de pescadores, onde todos parecem estar de algum modo envolvidos na trama. Mas é justamente nos desdobramentos do misterioso cenário visto no litoral do Rio de Janeiro que ele encontra algum alento.
O autor já declarou ser fã dos detetives clássicos como Sherlock Holmes criado por Conan Doyle e o Hercule Poirot de Agatha Christie. “Sigo a rotina do delegado, mas a vida pessoal dele faz parte da história. Isso traz humanidade para o personagem. Os investigadores de hoje não podem ser perfeitos como o Sherlock Holmes, cuja vida pessoal nem aparecia nos livros. Hoje em dia, o leitor tem interesse em personagens reais, possíveis”, comentou o estreante autor. Mas nesse primeiro romance policial – lançado, como já dito acima – por sua própria editora, ele faz jus a esses grandes modelos. (“RÉQUIEM PARA UM ASSASSINO”, de Paulo Levy, romance, 224 págs, Bússula – 2011)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

LIVROS EM PROMOÇÃO DIRETO COM A EDITORA

fonte: Clube de Autores

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ROUBO: UMA HISTÓRIA DE AMOR

“A agressividade no livro, às vezes ressentida, e também o afeto sempre atormentado com que o autor vai pintando seu personagem central dão o tom muito interessante ao romance.”

Por Elenilson Nascimento

COMENDO LIVROS é um paraíso de libertinagem, desaforos, desavenças e amor à literatura; minha execrável simpatia, minha irreverência plasmada e que não pode ser motivo de dor, muito menos um espaço para só para exaltar autores midíaticos. Através de resenha de livros podemos enfatizar as dores da vida e as dores do mundo, sintam-se à vontade para manifestar qualquer tipo de sentimento, prefiro um redondo foda-se sincero do que milhares de falsos sorrisos emoldurando rostos opacos.

Se alguma vez eu pareci ser agressivo, peço desculpas... Mas não apenas parecia estar agressivo, como de fato estava mesmo, quando faço guerra faço pra valer, mas sou muito melhor no amor. Porque amar é sempre melhor que sofrer. O mundo está tomado por egoísmo, por ódio e falsidade, e eu quero sempre dar amor, amor, amor, até morrer... mas não morrer agora viu!

E no livro “Roubo: Uma História de Amor”, do australiano Peter Carey, de 69 anos, duas vezes vencedor do Prêmio Booker, é um bom exemplo disso que eu escrevi no início desse texto. O livro descreve um dos fascínios do mundo das artes, não só das artes plásticas, que vem do fato de que um único quadro de um artista que ontem passava fome pode valer, hoje, milhões de dólares. Muitos artistas já passaram dificuldades, viveram em favela e até em abrigo para refugiados. Passavam tanta dificuldade que, muitas vezes, não tinha nem um pão para comer. Vincent Van Gogh, por exemplo, mesmo de família honrada e tradicional, era extremamente pobre. Pouco sociável, gênio arredio gostava de vagar pelos campos, demonstrando amor à natureza. E, talvez por isso, suas muitas das suas obras são relacionadas à paisagens e natureza, com cores extremamente fortes. Mas nessa estratosfera bucólica, nesse livro de Peter Carey, a própria ideia de "arte autêntica" se dilui: como dinheiro vivo, telas também se falsificam. Um tema ótimo para a literatura e para se pensar.

No livro, o pintor Michael Boone, talento reconhecido na Austrália dos anos 80, afunda-se num divórcio em que perde tudo – a guarda do filho e todas as suas telas, indo ainda parar na cadeia por tentar recuperá-las. Resta-lhe o irmão Hugh, um deficiente mental de mais de 100 quilos e 2 metros de altura de que ele tem de cuidar como uma sombra inseparável.

O livro já começa com uma humilhação (*Boone morando de favor na casa de campo de um colecionador que o explora). E ali desembarca Marlene Leibovitz, casada com o filho do célebre Jacques Leibovitz, pintor cubista fictício que a narração põe ao lado de figuras reais da pintura moderna como Léger, Braque e Picasso.

O marido odeia pintura, e é ela – uma secretária carreirista que por um golpe de sorte se vê alçada ao mundo milionário da grande arte – quem "autentica" os valiosíssimos Leibovitz pelo mundo afora. Um deles, aliás, desaparece da casa de um vizinho de Boone, ocorrência policial que dá partida nas aventuras do pintor ao lado de Marlene.

A agressividade no livro, às vezes ressentida, e também o afeto sempre atormentado com que Carey vai pintando seu personagem central dão o tom muito interessante ao romance. Mas fica-nos a dúvida se a história de amor mencionada entre o Butcher Jones, pintor, caseiro e Marlene, assassina, aldrabona e autenticadora de pinturas justifica este subtítulo, embora o livro se conclua com uma declaração de amor: "Uma pessoa melhor poderia ter fugido horrorizada, mas eu amava-a e não vou deixar de amar. (...) Como é que se pode saber quanto se deve pagar quando não se sabe o valor das coisas?"

Boone, contudo, é um pouco tudo isso; e a voz narrativa do romance mantém viva uma "apaixonada compaixão por todo mundo que é estranho, abandonado ou vive fora do padrão". Mas a verdadeira história de amor se passa entre os dois irmãos, gêmeos, Butcher Jones e o obeso Hugh: "Havia o Hugh, sempre o Hugh. E eu sei que disse que em Tóquio não pensava nele, mas como é que alguém pode acreditar numa treta dessas? Ele era o meu irmão órfão, estava sob minha custódia, o filho da minha mãe. Tinha os meus ombros musculados e descaídos, o meu lábio inferior, as minhas costas peludas, a minha barriga da perna de camponês. Eu tinha sonhado com ele, tinha-o visto numa gravura de Hokusai, num carrinho de bebé em Asakusa."
A ação desenrola-se entre a Austrália, o Japão e os Estados Unidos, onde colecionadores de arte, museus e falsificações, numa espiral que acaba num assassínio e no final da relação entre Butcher e Marlene e no regresso deste e do irmão à Austrália. Irônico e divertido com um toque policial. Muito bacana! (“ROUBO: UMA HISTÓRIA DE AMOR”, de Peter Carey, tradução de José Rubens Siqueira, 320 págs, Record – 2008)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

DRUMMOND, ROSA & BANDEIRA

Drummond, Guimarães Rosa e Manuel Bandeira: três grandes almas que justificam a existência da humanidade.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

ENTREVISTA COM A ATRIZ E POETA ELIANE SILVESTRE

“Minha poesia vem de uma sensação que foge da minha vontade. Ela vem de forma muito irracional. Minha poesia é uma avalanche que tem que correr morro abaixo.” (E.S.)

Numa entrevista exclusiva à também poeta, editora e produtora cultural baiana Miriam de Salles Oliveira, a sempre simpática atriz e poeta Eliane Silvestre, do Distrito Federal, falou um pouco sobre a sua infância, as influências na sua formação poética, a sensação de poder publicar num país de analfabetos, o mercador editorial, lutas e vitórias, internet, planos para o futuro, Elenilson e o LITERATURA CLANDESTINA. Confira abaixo o trecho sobre a sua participação no livro “Poemas de Mil Compassos” (2009):

“Antes do Projeto Literatura Clandestina, do “Poemas de Mil Compassos”, ter aparecido na minha vida, eu ainda engatinhava na vontade de desengavetar poemas guardados durante anos. (...) E aí lá estava eu com a minha porção escritora adormecida pelas lágrimas, quando conheci o Projeto Literatura Clandestina, pelas mãos do amigo das antigas, o ator Fernando Diamantino (agradeço por isto). Ele orientou-me a enviar uns três poemas para o idealizador do projeto, Elenilson Nascimento, que estava prestes a lançar a 3ª. edição de coletânea (com escritores desconhecidos do grande público vindos de todas as regiões do país) chamada “Poemas de Mil Compassos”. Elenilson selecionou o “Entre a Vida e a Morte” e assim também começou esta amizade linda que só tenho a agradecer diante do até exagero de incentivo que recebo. Eu havia participado sim de alguns concursos literários com êxito, mas a primeira crítica (linda!) a um poema meu veio do próprio Elenilson, com meu polêmico “Amor de Pica”. Assisto diariamente na net a expressão verdadeira do ser humano Elenilson, que assume publicamente suas ideias doam a quem doerem. Sei do seu olhar bastante seletivo, crítico ao extremo e, às vezes, me pergunto por que toquei seu coração? Tudo que faço seja no teatro, na literatura, no que for, ele está ali para divulgar para me dar força. Ele tem uma sensibilidade gritante que coloca lindamente na literatura e que, no campo jornalístico, cutuca a sociedade na sua hipocrisia e aponta o que sob a sua visão seria mais justo. Divergimos politicamente, mas isto nunca abalou o querer bem que tenho por ele e que ele tem por mim. Há momentos nos quais sua forma dura de se referir a pessoas chega a me dar raiva dele. Mas supero e separo, porque sei que ele é vasto demais para eu olhar só para um pedacinho, principalmente porque em outros tantos pedacinhos encontro alguém que escreveu "Canção para a minha cólera" e tantos outros poemas e textos riquíssimos que nos fazem sonhar, refletir e encontro também um escritor generoso que sublima sua revolta, na árdua batalha pessoal para viver de literatura, formando um grande mutirão de escritores de talento, mas ainda desconhecidos. Agradeço a ele não só por mim, mas por tantos artistas brasileiros que embora não estejam na grande mídia, estão aí se expressando através da arte e ele não deixa passar em branco.”

>>>clique aqui e leia a entrevista completa <<<

fonte: Poemas de Mil Compassos

AFINAL, PARA QUE SERVEM AS UNIVERSIDADES?

“Livro de professor da Universidade de Cambridge discute papel das instituições de educação superior na sociedade.”
As universidades estão numa posição paradoxal. Como explica Stefan Collini em "What Are Universities For?, um livro eloquente e imparcial, essas antigas instituições nunca foram tão numerosas ou importantes. Elas recebem mais dinheiro público do que em qualquer outro momento da história, e são celebradas como os motores do crescimento econômico e do avanço tecnológico. Ainda assim, elas frequentemente assumem posições defensivas e preocupadas, sem um senso definido de propósito ou direção.
Collini, professor de literatura inglesa e história intelectual na Universidade de Cambridge, está ansioso para trazer de volta a confiança das universidades. Segundo ele, elas “são um lar para as tentativas de expandir e aprofundar a compreensão humana de maneiras que são, ao mesmo tempo, disciplinadas e ilimitadas”. São os efeitos colaterais dessa atividade que viraram alvo dos debates públicos: o impacto na capacidade de compreensão dos alunos, ou no desenvolvimento nacional de novas tecnologias. Mas esses não são os principais propósitos das universidades.
Ao apresentar sua visão, Collini rejeita a definição de Clark Kerr, presidente da Universidade da Califórnia, que descreve as universidades como “uma série de empresários acadêmicos unidos por um rancor mútuo a respeitos das vagas de estacionamento”. Ao invés disso, ele se apoia na insistência do Cardeal Newman de que uma educação liberal não está ligada ao que alunos aprendem ou às habilidades que eles desenvolvem, mas “à perspectiva que eles têm de seu conhecimento num amplo mapa do conhecimento humano”. Mas isto está bastante distante dos mecanismos que o governo usa atualmente (e o foco de Collini é o governo britânico em Westminster) para definir metas para os gastos de dinheiro público e para transformar estudantes universitários em “consumidores” exigentes de educação secundária.
A segunda metade do livro é uma decepcionante e repetitiva coleção de ataques previamente publicados contra a política do governo britânico. Collini ataca com precisão vários conceitos, como “impacto” como base para a distribuição de fundos de pesquisa ou a insistência para que as universidades se transformem em ferramentas para impulsionar o PIB. “A sociedade não educa a próxima geração para que eles contribuam para sua economia”, insiste ele. Porém, no fim das contas as universidades têm que ser sustentadas, e esse financiamento não pode ser justificado pelas palavras de Newman. Os governos devem justificá-lo para aqueles que estão pagando a conta, e eles devem desempenhar algum papel nas decisões, sejam elas a de pagar por pesquisas sobre poesia medieval ou distrofia muscular. Além disso, quanto mais as famílias carregarem diretamente os custos da educação de seus jovens, mais eles irão querer das universidades, além de um simples local no mapa da compreensão humana.
As universidades sempre sentirão a tensão entre a pureza intelectual que Collini exige, e o complicado negócio de selecionar e preparar a classe média do futuro. A capacidade de reconciliar esses dois papéis é a marca das grandes universidades. Na verdade, a tensão criada por esses papéis conflitantes é o que ajuda a maioria dos acadêmicos a manter alguma independência de pensamento e vigor intelectual. O governo pode reclamar da produção e de estudantes que somente se preocupam com o que vão lucrar em seu tempo de vida, mas aqueles que reclamam precisam de uma boa dose do Cardeal Newman para fazer bem o seu trabalho. (“AFINAL, PARA QUE SERVEM AS UNIVERSIDADES?”, de Stefan Collini, educação, 240 págs, United Kingdom – 2011)
fonte: Opinião e Notícia

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

MARIANA COMENDO LIVROS!

O livro “Flor de Poemas”, de Cecília Meireles, fez a cabeça da professora de Direito e estudante de Filosofia Mariana Borges Oliveira de Andrade. Toda a obra da autora, desde a sua primeira publicação, passando por poemas e crônicas, deixa-nos sempre pensativos, pois abordam temas tão comuns ao nosso íntimo e, creio, de toda a humanidade, tais como a morte, o amor, a fugacidade da vida, a efemeridade dos tempos. Para Mariana: “Os livros sempre fizeram parte de minha vida, graças aos textos maravilhosos que me foram apresentados na infância e que eu ia descobrindo que vinham de… livros!! Um dos mais especiais deles é o ‘Flor de Poemas’ da Cecília Meireles. Esse livro acompanha minha história. Pequenina, conheci poemas delicados e inteligentes, feitos pra criança, como ‘A bailarina’ e ‘Isto ou Aquilo’. Na adolescência me apaixonei pela figura de Tiradentes e os poemas do ‘Romanceiro da Inconfidência’ me falavam ao coração. Quando minha primeira filha ia nascer me deu vontade de ler Cecília de novo. Ganhei esse livro do meu marido, e aí o nome de minha pequena foi escolhido: homenagem a essa maravilhosa Cecília Meireles!”

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

TÊTE-À-TÊTE

“Essa biografia nos oferece um retrato duplo de duas figuras colossais e sua intensa e turbulenta relação.”
Por Kátia Mota*
Sempre tive a imagem de Simone de Beauvoir como uma mulher feita da dureza do aço, independente e que homem nenhum a pudesse dobrar. Uma imagem quase que indissolúvel. Mas hoje, do alto dos meus trinta e alguns, tendo também uma necessidade latente de liberdade, o que nós torna parecidas, pois também me preocupo muito com a questão da mulher na sociedade. Hoje mulher feita sem os arroubos juvenis, consigo enxergar durante a leitura do livro duas Simones.
E se por um lado existia a Simone, dura, engajada, preocupada com sua expansão intelectual e individual, braço direito de uma lenda quanto Sartre e, porque não dizer, sendo sua sombra, por outro lado vemos uma Simone "mulheril", com as mesmas questões que todas nós um dia já passamos. Como confirma a autora:
"Tudo conspirava para fazê-la cair numa armadilha que ela desceria vinte anos mais tarde em ‘O Segundo Sexo’. Havia um capítulo sobre a 'mulher apaixonada', uma mulher para quem o amor é uma fé, que passa a vida esperando, que abandona a sua vida, até o juízo, ou seu homem."
Como todas as mulheres, Simone se sentiu traída, frágil, amor à beira da loucura, se entregou a fantasias. E no decorrer da história que passeia com leveza entre a linguagem da biografia e do romance, havia uma Simone insegura com questões de beleza, ciúmes, infidelidades, perdões, privações e envelhecimento, numa devoção e endeusamento do homem que elegeu sendo o parceiro para toda a vida.
Curioso que esse relacionamento tão aberto beirando entre a liberdade e libertinagem mesmo em se tratando de Sartre e Simone de Beauvoir ainda assim era patriarcal, ainda assim havia concessões por parte dela e nunca por parte dele. Curioso também é que as concessões não eram cobradas, ela se privava de livre e espontânea vontade. Simone em suas relações tanto com Sartre quanto com seus demais amantes (homens) era sempre extremamente passional, porém, esses amores contingentes não poderiam riscar a estrutura de sua relação com Sartre.
Uma verdadeira aula de História, em vários períodos onde as histórias desses dois ícones se cruzam com a história de outros ícones como Albert Camus, Benny Levy, Nelson Algren, entre outros tantos. Delicioso ver que os ídolos são humanos que amam, sofrem, mente, dissimulam, traem como nós meros mortais. (“TÊTE-À-TÊTE”, de Hazel Rowley, biografia, 480 págs, Objetiva – 2006).
imagens: reprodução