Por Elenilson Nascimento
Guy de Maupassant nasceu no século XIX, em 1850, na França. Sua infância foi vivida basicamente numa área rural em Verguiés. No ano de 1870, aos vinte anos, foi para Paris e lá se firmou como contista, entrando em contato com grandes nomes do realismo e naturalismo da época, como Zola, Flaubert e o russo Turguêniev. Flaubert, por sinal, era seu primo por parte de mãe e foi o influenciador e apoiador de Maupassant.A obra do escritor é conhecida por retratar situações psicológicas e também por fazer críticas sociais (*coisa que eu adoro em alguns autores). Foi entre os anos de 1875 e 1885, que Maupassant produziu a maior parte de seus romances e contos. Foram cerca de 300 histórias curtas, que se tornaram internacionalmente conhecidas, como “O Colar”, “Uma Aventura Parisiense” e “O Horla”.
Tornou-se, com a grande aceitação de suas obras, um escritor rico e famoso. Além disso, teve uma vida amorosa cheia de casos. Mas como era muito safadinho, o problema com a sífilis o fazia ter pesadelos constantes, atormentando-o por mais de uma década. O autor tentou suicídio em 1892. Em consequência desse ato desesperado, foi internado em um manicômio, onde morreu no ano seguinte, com apenas 43 anos.
Nessa obra “125 Contos de Guy de Maupassant”, esse atormentando autor francês que foi o mais dedicado aluno de Flaubert (*conhecido por seu obsessivo cuidado estilístico, o autor de “Madame Bovary” impôs ao seu aluno a prática ininterrupta da escrita – e, ao mesmo tempo, o proibiu de publicar), podemos encontrar personas tão estranhas quanto os políticos de Brasília. Só depois de quase uma década de silêncio, em 1880, Flaubert liberou Maupassant para editar seus livros – e é quando ele apresenta um clássico da narrativa curta, “Bola de Sebo”, um instantâneo da hipocrisia burguesa da França.
Logo na apresentação dessa coletânea desses 125 contos, a organizadora Noemi Mortiz Kon conta essa curiosa educação literária do autor por Flaubert: a condição para ser aceito como pupilo era de que escrevesse sem parar e que não publicasse seus primeiros textos. O resultado desse “treinamento” de Flaubert fica óbvio ao constatarmos o tamanho do livro (*mais de 800 páginas) e a qualidade dos contos nele presentes. E se pensar que foram escolhidos (ou seja, outros ficaram de fora), temos aí um autor que realmente levou a sério a tarefa de escrever ininterruptamente. Se todos levassem isso a sério não teríamos tantos livros ruins nas prateleiras.
Os 125 contos escolhidos para essa coletânea mostram o que há de melhor na prosa de Maupassant. Os mais conhecidos do público, como o já citado “Bola de Sebo” e “O Horla” estão lá, assim como obras geniais do horror, o caso de “A Morta” e “Sobre a água” (ambos apesar de tenebrosos, divertidíssimos). O autor, sempre acurado na observação da sociedade, foi um mestre do realismo, e também produziu clássicos da literatura fantástica, como “A Mão” - bem traduzida e selecionada para essa edição.Com textos cheios de retratos ácidos da sociedade em que vivia que também ganham destaque, sempre com uma conclusão irônica a respeito do que foi contado, Maupassant estrutura as histórias com uma repetição de ideias desconcertantes, sendo que os contos normalmente começam com alguém que relatará algum evento que tenha algo a ver com o que está sendo conversado no início.
Mas apesar da estrutura e dos temas se repetirem, o interessante é que Maupassant consegue tornar cada conto único, e muito bom. A leitura pode ser feita com muito prazer, prende a atenção e chega a ser quase viciante: mal termina um conto, o leitor já deseja continuar seguindo em frente para o próximo. A seleção dos contos por Noemi Moritz é extremamente feliz. Os “125 Contos de Guy de Maupassant” é um daqueles livros para deixar na cabeceira da cama e ser degustado, página à página, tal e qual aquele suco caro e delicioso que você não deseja que acabe tão cedo. Um último comentário bem fútil: sou apaixonada pelo padrão das capas dessas coletâneas de contos da Companhia das Letras, mas essa roxa dos contos de Maupassant está entre minhas favoritas de todos os tempos. Ficou linda! (“125 CONTOS DE GUY DE MAUPASSANT”, organização Noemi Moritz Kon, de Guy de Maupassant, tradução Amilcar Bettega, 824 págs, Cia. da Letras – 2009)

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